No fim da aula, meu professor resolve me emprestar um livro da biblioteca pessoal dele: um clássico precioso, obra-prima da Literatura, texto arrojado, completo, inteligente e todo escrito em alemão. Massa. Agradeço sorridente, saio da sala me sentindo a vassoura do estábulo do cavalo do bandido varrendo o chão do inferno e pego o elevador. Lá fora chove canivetes e ficam todos no saguão esperando o dilúvio passar, falando sobre qualquer coisa para matar o tempo, a tempestade, o clima, a novela e, por fim, a profissão.
O colega que queria viver de jazz abriu um estúdio para a gravação de jingles, o ator que não decolou virou produtor cultural. O ilustrador de histórias agora desenha logomarcas, moça que estudou cinema clássico edita comerciais e, por fim, meu professor, que era escritor de romances épicos virou (adivinha?) professor de Edição de Texto. Como se todos coubessem na mesma história do cara que, na impossibilidade de casar com a mulher dos sonhos, aceita noivar com a prima mais nova e menos interessante, só pra manter certa proximidade. Tudo para a falta doer menos, pra manter a porta entreaberta. Raspas e restos me interessam.
Freud chamaria isso de sublimação, mas eles chamam de realidade. Fico calada ouvindo as histórias e penso que, de certa forma, essas coisas acontecem por que a Arte é um mito democrático: todos acreditam que o grande gênio pode aparecer em qualquer lugar. Tipo craque de futebol. Para algumas profissões não existe este limbo, ou é ou não é: nunca conheci ninguém que, um dia, descobriu um dom e, de repente, virou físico quântico. Um físico quântico se constrói ao longo de anos de estudo e não depende tanto da sorte pra isso. Acho que ninguém teve notícia de nenhum astronauta que topasse vender picolé na porta do laboratório à espera de uma oportunidade, um cirurgião que vivesse esperançoso na periferia da profissão. Só na Arte o povo acredita em bilhete de loteria por que, no fundo, ninguém sabe explicar ao certo por que o talentoso A faz sucesso e o talentoso B continua nos circuitos alternativos. Diante do mistério, o êxito é improvável, mas não impossível.
É como quando você vai a uma loja e vê aquele objeto de desejo por um preço caro, mas não proibitivo. Se custasse 5 reais você pagava, se custasse 500 reais você deixava pra lá. Mas ele custa 50. Você não compra, mas não consegue esquecer o assunto.
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