Feeds:
Posts
Comentários

Lua cheia de maio

“São quatro horas e cinco minutos. Não acontece mais cena alguma do lado de fora da minha janela. Talvez tome mais um café, fume outro cigarro, qualquer coisa assim. Foi exatamente há um ano, na lua cheia de maio. Depois, nunca mais. Por onde você tem andado, baby?”

(Caio Fernando Abreu, O Estado de S. Paulo, 13/5/1987)

Não estou conseguindo mais publicar no WordPress a partir do notebook, só do celular. Só Deus sabe a razão. O login não funciona. Por segurança, estou copiando alguns posts numa conta nova no Substack:

Www.marianapintomiranda.substack.com

Acredito que será temporário. Até breve.

So Easy

youtube.com/watch

Ninguém pode voltar atrás no que já sabe. Eu te entendo por que eu também tive um diário lido. Na verdade, uma caixa com uns 15 cadernos juvenis manuscritos que ficavam esquecidos na casa de minha mãe. Pensamentos, poemas e toda a desimportância de uma adolescência banal dentro de uma caixa lacrada que eu nem lembrava que existia. 

Nos últimos anos, eu já morei em tantos lugares e, uma vez, já adulta, quando voltei de uma viagem de trabalho, fui visitar minha mãe e a antiga funcionária estava colocando a mesa do almoço, como fazia há 20 anos. Eu estava assistindo tv. Ela era fechada e quase não falava comigo, foi colocando a tigela de feijão na mesa e levantou o olhar, me observando por um segundo antes de sair. Um segundo. Como se notasse a minha presença ali pela primeira vez.

Sem tirar os olhos da tv, eu soube. Simplesmente soube. Num lampejo: a velha caixa de cadernos. Deduzi que, se a caixa ainda existisse, estaria no quarto dela e com o lacre violado. Conferi depois. E estava. 

Não sei explicar aquele desconforto. Um constrangimento mudo. Nunca fiz nada a respeito. Até me arrependo, a pessoa que sou hoje teria criado uma inquisição fulminante capaz de arrancar confissões das paredes, mas eu ainda era uma boba diplomática e não toquei no assunto ponderando que, bem, ao menos não havia nada escrito ali que fosse importante. 

Ou havia. Levando em conta que fui repentinamente notada por alguém que, durante 20 anos, não me enxergou. Mas, neste ponto, o meu barraco hipotético já estaria tecnicamente vencido porque não se pode voltar atrás no que já se viu. Haveria uma maneira dela “desler” e acabar com o meu desconforto? Não. O desconforto dela durante uma suposta confissão me ajudaria em algo? Não. Era um ponto sem retorno. 

Um diário lido é uma linha ultrapassada e existem tantas outras. Perdidos sob as prateleiras de tralha das relações humanas, há vasos chineses delicadíssimos, perto deles a gente até respira com cuidado. 

A gente não pode voltar atrás no que já sabe. Mesmo que queira, mesmo que se arrependa, não desfaz do que já viu. Do que ouviu. Do que leu. São os crimes sem possibilidade de vingança porque não existe compensação viável, um olhar suspenso por um segundo entrega o delito do outro, restando a ambos recuar em silêncio e catar do chão a dignidade que lhes for possível. Cada um com seu constrangimento específico. Na mais espinhosa microfísica do desconforto. E ela não tem retorno.

Sobre a bancada, há um vidro de perfume e um frasco de shampoo, já faz um tempo que estão ali. Deitada na cama, olho para a porta aberta do banheiro e posso ver os produtos de sempre sobre a pia e esse é o meu momento presente. Um vidro com metade do perfume e uma embalagem plástica de shampoo.

Dizem que, neste século, o tempo médio de vida de um ser humano é de 80 anos. Nesta lógica, acredito que eu estou, hoje, mais ou menos na metade do meu tempo. Talvez eu tenha oportunidade de aproveitar o meu perfume até a última gota, talvez algum imprevisto faça o vidro cair por acidente, perfumando inutilmente o chão do banheiro, o vidro é tão quebrável. Diferente da embalagem de shampoo, que é plástica. Hoje, o mundo possui mais de oito bilhões de habitantes, que terão seus filhos e netos e todos morrerão antes desta embalagem deixar de existir. O plástico, em sua banalidade barata, é quase eterno, é um semideus. Já a a minha existência é breve e encontra-se quase na sua metade, sou tão mais frágil que este frasco de shampoo.

Já são sete da manhã. Minha geração, como todas as outras, possui preocupações próprias: a minha está assombrada com a gestão do tempo. Dizem que a melancolia seria o excesso de passado e a ansiedade seria o excesso de futuro e que o nosso desafio é viver o momento presente. Deitada, me pergunto o que o instante de agora tem para me oferecer: a visão da bancada do banheiro. Respiro fundo e pisco os olhos, como só um animal vivo poderia fazer. A bancada e seus objetos seguem imóveis. Existir, mesmo que seja por mil anos, é diferente de estar vivo. Não invejo mais a perenidade da embalagem de shampoo.

Deitada, tento me conectar ao instante sem pensar em nada de antes ou de depois. É difícil. Olho para a porta do banheiro como alguém que se deslocou para o futuro e se lembra de uma época, de um quarto, de uma manhã distante em que ficou observando uma bancada de banheiro. Depois, me desloco para o passado, reprisando dias aleatórios, fixo em um, meses atrás, em que estava sozinha num consultório médico. Após exames de rotina com bons resultados, a médica encerrou a consulta e perguntou: como é a sensação de ir embora sabendo que você não está doente? Eu fiquei sem entender e ela insistiu: os pacientes diagnosticados costumam narrar os impactos da descoberta da doença, seus pensamentos e emoções. Mas não sei nada sobre os outros: como é, para um paciente, receber a notícia de que continuará vivo? E eu não soube responder.

Tento me concentrar no agora, o que o dia de hoje pode me oferecer? A água quente do banho, a água fria da pia. O café doce, o pão salgado. Cheiro, toque, som – privilégios de um animal vivo. Pisco os olhos, vejo o outro lado do quarto, a janela aberta. Numa fachada vizinha há uma estátua de pedra – simétrica, perfeita. Ela não está envelhecendo e jamais ficará doente. Mas também jamais sairá dali.

Hoje, eu gosto de ser quem eu sou, o animal que respira. Que caminha, envelhece e morre. Não almejo a perfeição da pedra, nem a imortalidade do plástico. Talvez eu deseje apenas mais tempo, tempo suficiente para, um dia, ser a pessoa do futuro que recorda uma época, lembra de um quarto, de uma manhã distante em que ficou deitada sentindo uma inexplicável satisfação em poder respirar. Sem melancolia, sem ansiedade: completamente presente. Da janela, vejo a estátua que vai durar mais do que eu, penso no planeta, que vai continuar sem mim. E mesmo a bancada do banheiro, que é de cerâmica e eu não sei quanto tempo vai durar, ela me parece perfeitamente adequada às necessidades de hoje. E isso basta.

O que o momento presente tem para oferecer me agrada. É bom ainda estar por aqui.

Ilha Verde

É uma cidade pequena, de uma ilha pequena, perdida num mar enorme.

(Ruivo, 2021, p. 62)

(Açores, maio e junho de 2025, 22 graus)

Filme: Os Rivais

(Luca Guadagnino \ Os Rivais)

As cidades eternas

Acho que Salvador, Lisboa e Havana têm algo em comum: uma certa austeridade histórica, tipo um charme decadente. São cidades eternas. Enquanto outras metrópoles seguem tendências, disputam vitrines, agitam-se em museus de grandes novidades, estas varrem a calçada sem pressa. Estendem o varal. Não precisam inventar nada.

Elas são o antônimo da Flórida, de Florianópolis ou de Dubai, onde tudo cheira a plástico, whey e dinheiro. A maior roda gigante do mundo, o maior arranha-céu, a maior praia artificial – quem quer ir a uma praia de mentira? Parecem jovens aflitos tentando impressionar.

Nas cidades eternas tudo é meio antigo e meio gasto e tão orgulhoso de si mesmo. Estão do lado oposto da moda. O verdadeiro ponto turístico é observar como as pessoas dali vivem. É sentar na calçada e não querer mais ir embora.

Eu nasci numa cidade atemporal e acho que nunca me contentaria com menos. Há lugares que estão ansiosos por se tornarem algo. E há cidades que, há séculos, já chegaram aonde queriam estar.

E olha que são apenas 476 anos. Feliz eternidade para você, Salvador

Vamos fugir

(07 de março de 2025)

O Fantasma da Ópera

Lá em casa existe um piano. Imagino que a frase pareça retirada diretamente de um livro de Jane Austen e remeta os campos de ovelhas do interior da Inglaterra vitoriana, mas o cenário nem é esse, meus caros, é apenas a minha humildíssima residência mesmo. E nem se trata daqueles pianos colossais, mas de uma versão menos épica, menor e mais tecnológica, o que não deixa de ser um trambolho. Fui contra a compra daquele objeto desproporcional, mas suponho que a minha opinião costuma soar pela casa como um rádio ligado na Voz do Brasil – todo mundo ouve, ninguém escuta – e, hoje, exatamente como eu havia previsto, o supracitado permanece esquecido no canto da sala. Passou a servir de aparador, onde colocam-se chaves, celular, um copo d’água. Foi a cômoda mais cara da história deste país. Seguiu silenciosíssimo por anos. Até agora.

Porque algo esquisito aconteceu.

Para meu susto e terror.

Ele começou a tocar sozinho.

Caro leitor, garanto estar dentro das quatro linhas da sanidade mental e não digo que tocava músicas inteiras, mas apenas duas ou três notas graves no meio da madrugada. No vazio absoluto das 3 da manhã, um estrondo de DÓÓÓÓÓ RÉÉÉÉÉÉÉÉ causando deslocamento de ar e fazendo voar os pássaros da noite. Da primeira vez, fui até a sala escura para procurar o músico engraçadinho e acabar com a palhaçada. Ninguém. O piano estava apagadíssimo no canto, com os objetos de sempre sobre ele, a janela aberta. Será que alguém entrou na casa? Ninguém. Deixei para lá e fui dormir.

Na madrugada seguinte: MIIIII FÁÁÁÁÁÁÁÁÁ cortando o silêncio dos justos. Levanto, ninguém na sala. Aí eu fui perdendo a valentia, sabe? Se, no primeiro dia, eu havia cogitado um invasor, no segundo dia eu cogitei um fantasma. Sei lá, fiquei olhando o instrumento no canto, humilhado no papel de cômoda, pianos foram feitos para ornar orquestras, não é mesmo? Para brilharem aplaudidos nos anfiteatros. Quando amanheceu, contei para a família o que estava acontecendo e eles acharam graça: é o Fantasma da Ópera!

Na noite seguinte: DÓÓÓÓÓ DÓÓÓÓÓ DÓÓÓÓÓ estremecendo o ar e gelando as minhas vértebras. Pior é que só eu acordava com o barulho, se eu sacudisse alguém no instante seguinte, a pessoa diria que não ouviu nada. Será que eu estava alucinando?

Minha terceira hipótese era a de que eu realmente estava ficando doida. Conheço tantas histórias estranhas sobre pianos. Dizem que os músicos do Titanic tocaram até o navio afundar e que os mergulhadores de hoje escutam notas de piano no fundo do mar. Na Polônia, Chopin dizia “meu piano é minha segunda alma” e, atualmente, ninguém consegue tocar, os que tentaram tiveram mudanças bruscas de temperatura e desmaios. Nunca ouvi uma única história macabra envolvendo um tamborim, uma cuíca, uma maraca. Pianos e órgãos são os instrumentos mais pesados do mundo, no sentido lato e figurado – são melancólicos, remetem ao passado. Sinônimo de sofrimento é “carregar o piano”.

Cansada e com olheiras, resolvi que ia passar a noite na sala para acabar com aquela tramoia.

– Você vai dormir no sofá para pegar o fantasma?

– …

.

.

Não dormi. Vigiei a janela e as portas. Fiquei pensando numa desculpa para vender aquele trambolho mal-assombrado, já me bastavam os problemas do mundo dos vivos, agora aqueles recitais do capiroto na minha sala. Como era esperado, na calada da noite, o piano berra: SÓÓÓÓÓÓÓÓ LÁÁÁÁÁÁÁÁ. Levanto num pulo.

Ao lado do instrumento existia uma tomada. Alguém deixava o celular carregando silenciado sobre o teclado, em modo de vibração máxima. Quando recebia uma mensagem, o aparelho vibrava tanto que deslizava sobre as teclas “tocando” o piano.

O Fantasma da Ópera era um spam noturno das Casas Bahia.

Fui dormir.