Visto da Terra, o céu é azul.
Vista do céu, a Terra e azul.
Será o azul uma cor em si ou uma questão de distância?
Ou uma questão de nostalgia?
O inatingível é sempre azul.
(Clarice Lispector / A Descoberta do Mundo)
Há dias em que desvio do caminho de casa, tomo outro bonde e passo pelo Carmo só pra lembrar às minhas pupilas fatigadas o quanto essa cidade é linda. Como a minha. Daqui de cima, às vezes lembro do Pelourinho, da época em que me pagavam pra fotografar os cortejos afro desfilando. Me mandavam pra cima de uma torre de tv ou pra o topo de um casarão e eu ficava lá, esperando. Se o cortejo atrasava, eu ficava lá por horas, tardes inteiras olhando os telhados, os pombos pousando do meu lado e o salitre embaçando a lente da máquina.
Quando se olha um bairro antigo de cima, você perde a noção de momento histórico. Por que, se aquela panorâmica fosse fotografada em preto e branco, ninguém saberia se datava de hoje ou de 1970 ou 1910 ou 1880. Nessas horas você entende que está de passagem, mas que aquelas paredes vão ficar um pouco mais. De cima, tudo parece pequeno, pessoas, carros, problemas, é tudo uma repetição do que sempre existiu, nossos ascendentes e descendentes passaram e vão passar por aquelas ruas. E as ruas vão ficar. E a proximidade com aquela eternidade de cimento e pedra era sempre o início de uma letargia que me lembrava uma entrevista com um médico da NASA, explicando por que muitos astronautas enlouquecem quando voltam pra casa: “Eles perdem a noção do tempo e ficam sem metas na vida. Depois de ver a Terra do céu, o que mais uma pessoa pode desejar?”. Eu entendia. Eu aceitava. E me deixava ficar no cume do mundo por quê cedia àquela hipnose: quem chega ao topo não quer mais voltar, quem vislumbra um horizonte infinito não quer voltar à um horizonte finito, não quer caber num quadrado restrito no tempo-espaço. Cede à tentação da promessa de eternidade, a maçã de Eva, a Torre de Babel. Depois de algumas horas na torre, eu também não queria voltar.
Até que o chão trepidava forte com os tambores se aproximando e eu acordava do transe, correndo louca pra trocar a lente da máquina, toda embaçada.
voce so voce,vai em frente!!
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Mari,
Você escreve muito bem. Quanta sensibilidade para falar de coisas comuns. Continue assim minha amadinha! bjs
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Lindo texto amiga. Vc é de uma leveza q sempre me faz sentir orgulho de ti.
Amei!
Bjs!
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