A reunião era sempre numa sala em Santos, um subsolo mal iluminado, mas com uma lareira, livros empilhados no chão, poeira, umas vinte pessoas. Eu chegava no início da noite e ficava na esteira, quase não falava nada, olhando as sombras na parede, ouvindo o que eles diziam e eles diziam muitas coisas. O rapaz de óculos acendia uma vela pra conseguir ler no escuro: “Por que onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eis que estarei no meio deles”, a moça de cachecol tocava flauta, a senhora de véu cantava baixinho, acho que eu nunca decorei as feições de ninguém por causa daquele breu. Eu não era a única estrangeira do grupo, mas não saberia dizer quantos havia e nem de onde vieram. Cada quarta-feira alguém trazia uma leitura nova e, quando o frio apertava, jogavam cadeiras quebradas no fogo. E rezavam de mãos dadas.
Houve um dia em que chegou um convite dos inacianos para, quem estivesse interessado, integrar uma equipe de voluntários com destino a uma comunidade em Koroli. Convite que eu recebi meio cética, por um motivo simples: eu achava aquele gesto bem intencionado, mas pouco útil. Segundo os meus cálculos na época, só o que eles gastariam para transportar um de nós pra lá equivalia a 130 sacos de feijão. Pedi a palavra e argumentei que, ainda que fôssemos voluntários esforçados, a presença de nenhum de nós era mais necessária do que aqueles 3 meses de comida para aquela gente que não tinha nada. Era um desperdício.
E, nessa hora, a moça da flauta respondeu lenta, com sua voz baixa: mas eles não nos mandam pra lá por que as pessoas precisam da gente. Aquelas pessoas não precisam da gente pra nada. E o grupo virou-se pra ela, esperando que explicasse melhor: é a gente que precisa disso. Por que a gente precisa ver, precisa ver – e qualquer coisa no que ela falava me lembrava Caio F. dizendo que você não pode voltar atrás no que vê: você pode se recusar a ver, o tempo que quiser, até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. E ela dizendo: é a gente que precisa deste empurrão pra fora do cercadinho, por que depois, depois é diferente. Você pode negar, mentir se quiser, pode afundar a cabeça no chão e arrancar os dois olhos, mas não consegue mudar o que viu lá. Mesmo que, depois, você ignore. E que faça o que quiser da sua vida: arranje um emprego, plante uma árvore, escreva um livro, tenha um filho, crie gatos, não importa. Toda vez que você tiver que decidir algo, toda vez que tiver que escolher entre um verbo no plural e um verbo no singular, entre o melhor pra você e o melhor para todos, você vai lembrar do que viu. Você vai lembrar das pessoas do deserto de Koroli e é assim que o planeta vai se transformando. Nem mil sacos de feijão mudam o mundo sozinhos.
O que se vê, com detalhes ou não, aqui ou em qualquer lugar nos transforma. Não há como esquecer, disfarçar…até inventa-se uma nova realidade, mas aquela ali atrás, não muda. Ótimo Mari!
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