Durante a mudança de endereço para os Olivais, eu queria comprar uma rede. E um tapete. E uns castiçais coloridos. E meus cálculos diziam que eu não conseguiria decorar a casa nova do jeito que queria, que só daria para uma parte, o que equivaleria a um meio-termo. E eu odeio um meio-termo. Quando a gente não tem grana, tem que escolher: ou investe tudo o que tem e faz a coisa do jeito que imaginou ou muda os planos. Ou corre o risco da sua vida virar uma daquelas festas de gala de pobre que, ao invés de criarem algo completamente novo, ficam imitando os procedimentos dos ricos, só que com baixo orçamento, com direito a garfinho plástico e guardanapo de papel. Se não dava pra comprar tudo, era melhor ter uma mobília recolhida do lixo.
Decisão que, é claro, resultou em algumas das cenas mais inusitadas da minha vida, que incluíam sair de madrugada para revirar esquinas, depósitos, sair carregando mesas nas costas, encaixar um sofá de três lugares no elevador e, por fim, a noite em que a gente estava correndo cada um com uma poltrona na cabeça e sendo obrigados a parar a cada quarteirão para descansar – sentados nas poltronas, claro – e os motoristas passavam perguntando: por que raios vocês estão a fazer sala no meio da rua? E eu respondendo: eu moro aqui mesmo e o senhor tire o seu carro da minha casa!
Meses depois, nova mudança e é hora de decidir outra vez. Decorar ou não decorar? Aí eu comecei uma pesquisa despretenciosa na Internet sobre designer de interiores que terminou comigo passando o sábado. inteiro. dentro. do Ikea.
Sem comprar absolutamente nada, claro, mas não deixa de ser algo que eu confesso com certo constrangimento, por quê, bem, estamos falando de decoração. Nem sei de onde me veio esse interesse repentino pelo assunto, mas o fato me aproxima de um terreno perigoso: o do clichê. Céus, o que pode ser mais clichê do que uma mulher que curte objetos de decoração? (Decoradoras ofendidas, falem com a minha mão).
Sempre tomei o cuidado de não me interessar demais por determinados assuntos – moda, esoterismo, sei lá – da mesma forma que, se eu fosse um rapaz, não iria querer saber nada sobre carros. E nunca, jamais estudaria sobre eletrônicos, vinhos, F1, nem ia querer saber coisa nenhuma sobre futebol. Tem coisa mais desinteressante no mundo do que um homem que sabe nome de jogador, número de títulos, técnico do time e tudo que 95% dos outros homens já sabem? (Torcedores ofendidos, minha mão pra vocês também).
Se vocês não levarem em conta que já possuo o hobby mais lugar-comum do universo (alguém conhece um não-fotógrafo?), vou citar um almoço recente onde uma colega me apresentou os primos dela. Um gostava de surf, a caçula curtia games, a outra jogava vôlei e o mais velho, nas horas vagas, era adestrador de golfinhos. Quem tinha o passatempo mais adorável? Com quem você gostaria de conversar? Daí eu lembro de Moreno Veloso – “é charmoso não saber o que todo mundo sabe” – e me bate certa ressaca moral por estar dedicando meu tempo livre a papéis de parede, luminárias e revestimentos, mas, né, fazer o quê? Eu sou um clichê da minha geração.
E já que constrangimento sem platéia não faz o menor sentido, vou postar aqui os meus atuais objetivos de consumo. Um resumo só pra saber quantos pontos vou perder no conceito de vocês. Pensando bem, quero saber não.
Árvores, gaiolas e estrelas em cima da cama. Eu. que. ro.
Pombos + coelhos + flores. Quem achar um defeito, me avisa.



AMIGAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA,
temos um gosto muito parecido para decoracao!
meio romantico, meio rustico.
esta coisa de cuidar da casa eh sinal dos tempos.
estamos crescendo e queremos criar nosso lar do nosso jeito.
quando me casei tambem surtei nas lojas de decoracao.
e quem nao gosta do ikea?
mas como quem nao tem cao caça com rato, nos acontentamos com moveis usados por enquanto.
no final das contas o importante eh ser feliz e mais nada.
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