Resumo rápido do meu dia: aí que hoje eu acordo oito da madrugada, chego no horário marcado e passo nada menos que duas horas na sala de espera aguardando meu quase-futuro-patrão, mas a entrevista para o novo emprego não acontece por que o entrevistador… sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu. Enquanto isso o celular tocando loucamente por que a cigana aqui teve a idéia brilhante de anunciar os móveis e eletros de casa na Internet para pagar a viagem de Setembro – sem modéstia, foi uma idéia genial – fora os sites de permuta – semana passada troquei um tapete usado numa máquina fotográfica digital fantástica, o que me leva a crer que eu sou capaz de negociar qual.quer.coi.sa – aí eu desisto da entrevista, passo em casa pra buscar o último criado-mudo e vou andando para um tal Café Nicola, onde o comprador marcou de me encontrar. E toda vez que eu preciso procurar um endereço na cidade eu reciclo aquele meu velho projeto de deportação em massa para Marte destinada a todos os seres humanos que dão informações erradas a andarilhos perdidos. Especialmente a andarilhos que andam sob um sol de 35 graus. Carregando móveis. Ladeira acima.
Em geral, o problema se agrava entre os homens. Suponho que esteja associado a alguma questão íntima masculina que impede o indivíduo de admitir a própria falta de orientação e faz com que o cara prefira te indicar qualquer direção aleatória do que abster-se deste encargo social primitivo. Se você fez a pergunta e o cidadão pestanejou por dois segundos antes de responder, agradeça e vá embora: ele não sabe onde fica e vai te dar uma coordenada qualquer só para se sentir útil perante os antepassados ancestrais lá das cavernas.
Primeiro um senhor me disse que era só ir seguindo direto cinco quarteirões e dava lá. Não dava. Volto. Aí um vendedor avisa: na verdade, aqui era o Restaurante Nicola, o Café Nicola fica lá em cima. Tudo bem, ladeira simpática, lei da gravidade cooperando, vamos girando pedra montanha acima e um outro rapaz lê o endereço e diz: “ah, eu sei onde é, você veio de carro?”. Sim, é claro que eu vim de carro, amigo, aliás eu só subi essa ladeira a pé para curtir o sol, aproveitar a paisagem e pegar um bronzeado aqui no mármore do inferno. No final das contas a cafeteria Nicola era uma espécie de franchising com umas trinta filiais na cidade e tudo dependia de QUAL delas eu estava procurando. Entro na primeira que aparece e ligo para o comprador: e aí, filho, na minha ou na sua?
Enfim, a venda acontece e agora me telefonam dizendo que o meu quase-futuro-chefe reapareceu e quer que eu volte para fazer a tal entrevista. Ha! Pondero que a vaga era legal, num setor de Responsabilidade Social do Governo que, entre outras coisas, produz vídeos sobre a realidade carcerária, direitos do idoso e outros temas para o Ministério da Educação exibir nas escolas públicas, um daqueles trabalhos que eu faria de graça – e acho que esse é um bom critério para a pessoa saber se está diante de uma boa vaga, é quando você sabe que, se te pedissem para fazer aquele trabalho de graça, você provavelmente faria – e, então, eu fui. A conversa começou pelas referências profissionais, pelo detalhamento burocrático e eis que termina duas horas depois com o cara me contando histórias da infância dele e me fazendo confissões diversas – fato que me deixa especialmente intrigada: por que raios as minhas entrevistas, consultas médicas, filas de banco e afins terminam sempre com alguém emocionado contando sua biografia detalhada para a minha pessoa que, mesmo calada e quieta, é o alvo perfeito para aquele clima fraterno de “vem cá, eu te entendo, dá a mão”? Gente, quem disse que eu sou confiável, hein? Eu não valho nada! – bem, depois de muito papo, o entrevistador me abraça, se despede e eu vou embora sem saber se fui contratada ou não. Quando eu já estava perto de casa é que o cara se lembra de passar uma mensagem de texto dizendo “traga seus documentos amanhã!”, o que eu interpreto como “ah, isso era uma entrevista, né?”. Foco? O que é isso?
Pois bem, volto pra casa aproveitando para conferir as oportunidades do destino (tradução: lixo e objetos deixado nos postes) e os brindes do dia são: uma cadeira, umas molduras e um espelho! Só as molduras não combinaram muito com a decoração da sala e, se eu não mudar de idéia, vendo elas amanhã na Internet. Envio uma reportagem por e-mail para o Brasil enquanto o pessoal liga marcando na Figueira às sete por que o jazz vai começar hoje mais cedo por razões que a própria razão desconhece e eu certamente chegaria lá pontualmente se não resolvesse vir aqui contar o meu dia para vocês. Sim, contar tudinho num texto besta e longo e chato para tentar convencer a galera de como é bom que eu não escreva posts novos a cada 24 horas por quê, sinceramente, vocês me aguentariam narrando e falando e contando essas coisas aqui todo santo dia? Não. Fato. A vida humana é repetitiva e a sucessão dos dias sobre a terra é quase sempre tediosa e eu poderia citar três ou quatro argumentos para justificar o que eu estou dizendo mas o celular está tocando de novo.
Tempo esgotado. Conclusão é para os fracos.
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