Esse livro conta sobre um grupo de amigos que se reencontra trinta anos depois. Todos à beira dos sessenta, reunem-se numa festa na casa de uma das senhoras. O narrador vai mudando de personagem como um grilo da consciência que pulasse de ombro em ombro dando voz aos pensamentos de cada um – a amizade, o medo da morte, a sombra do pós-guerra. O nome da anfitriã é Clarissa Dolloway. Os nomes dos convidados… não vem ao caso.
O filme As Horas (2002), inspirado nesse livro, não narra a mesma história. O filme conta o laço fictício entre três mulheres que viveram em épocas diferentes: a escritora (Virgínia Woolf), a personagem protagonista desse romance (Clarissa) e uma leitora (Laura). Cada uma com sua personalidade, suas características.
Já o livro original concentra tudo numa pessoa só. Na personagem completa, a senhora indefectível, a dona da festa. A melhor heroína de Virgínia Woolf. Acho que toda mulher queria ser um pouco Mrs. Dalloway.
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“Importava mesmo que tivesse que desaparecer um dia, inevitavelmente? Tudo aquilo continuaria sem ela. Sentia-o? Ou seria um consolo pensar que a morte acabava com tudo absolutamente? Ou, de qualquer maneira, pelas ruas de Londres, no fluxo e refluxo das coisas, talvez sobrevivesse, Peter sobrevivesse, talvez um no outro, ela fazendo parte, estava certa, das árvores da casa. Daquela casa ali, tão feia, toda caindo em pedaços como estava. Juntando uma parte da gente que nunca havia se encontrado.”
“Tenho alguma coisa em mim, pensou, parado junto a caixa postal, que podia dissolver-se agora em lágrimas.”
“Considerando aquela longa amizade de quase trinta anos, dir-se-ia confirmada a teoria de Clarissa. Por breves que fossem os reais encontros, breves, acidentados, até constrangedores, com todas as suas ausências e interrupções, o efeito que haviam tido na vida dele era, de fato, incomensurável. Havia um mistério naquilo. Clarissa o influenciava mais do que qualquer pessoa conhecida.”
“O jantar, as pessoas, tudo aquilo não era mais do que um cenário para Sally. Mas nada é tão estranho, quando se ama (e que era aquilo senão amor?) como a completa indiferença dos demais.”
“Assim como num dia de verão as ondas se juntam, se levantam e caem; e o mundo inteiro parece estar a dizer “é só isto”, cada vez com mais veemência, até que o próprio coração no interior do corpo deitado ao sol na praia diz também: é só isto. Não tornes a ter medo, diz o coração.”
“- Eu também vou – disse Peter, mas deixou-se ficar sentado, um momento. Mas que terror é esse? Pensou consigo. Que êxtase me vem? Que é que me enche de tão extraordinária excitação? É Clarissa, descobriu. Pois ela ali estava.”
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(A Última Festa / Marleen Gorris, outro filme também inspirado em Mrs. Dolloway)

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