Depois que Fernando Monteiro ganhou o prêmio de Literatura da revista Bravo, eu passei a respeitar um pouco mais a Bravo. Entendem? O conto mais bonito que eu li este ano é dele. São dez páginas de filosofia que se passam entre o Egito e a Turquia, entre os “Alexandres da Alexandria” e o “dourado vago de Istambul”. Tinha mesmo a obrigação de ser perfeito.
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“A geração desses homens da passagem do século dezenove para o vinte conheceu uma modernidade trazida pelo senso de passado, de modo que as suas ações – e mesmo alegrias – eram toldadas por uma sombra sem idade e alguma porção daquela melancolia dos que esperam a morte, porém não a desejam, é claro.”
“E ele também já não era jovem, não podia agradar às mulheres, que recuavam do seu amor sem forças, afastadas pela mágica do inferno que torna um homem mais idoso que um pai já morto, na meia idade, quando se faz contas com o tempo, com as cidades deixadas para trás, com os amigos mortos e com o silêncio que nos cerca.”
“Lembrava a tarde pintada na sua memória de velho: era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava encerrar o que não viria mais do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas e seria a oportunidade de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio como o objeto no meio da serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio do que o tanque de peixes do parque abandonado, a piscina invertida, o céu sem limite.”
“Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa. A caixa estava em casa – uma ausência dentro de outra – e a casa estava no planeta que rolava no abismo do Universo sem fim e sem começo cujo oco lhe dava náusea, naquele momento de um dia cujo traço iria desaparecer na noite. Cúpulas, minaretes, muralhas e muros, telhados e toldos, janelas e portas douradas, o lago na sua calma, a lua na sua cisma, tudo se afastava do pai de Abdul-Qadir naquela hora de dor feita do conhecimento de todas as ausências que estavam no lugar das coisas em fuga como a cabeça longe dos ombros pesados que o levaram para o último sono na cama.”
(A Cabeça de Calcário/Fernando Monteiro)
Obrigado, Mariana. Encontrei este seu post por acaso — ou, talvez, guiado pela mão estranha que, nos sábados, quem sabe “guia” a curiosidade de alguns solitários. Hoje, parece que me coube o privilégio de ser assim guiado, até o seu HELLO STRANGER…
[bom Domingo!]
Abraço,
Fernando
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Como assim, Fernando Monteiro????? MEODEOSSSS, EU NÃO DURMO HOJEEEEE!!!!
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Ah, Mariana, não brinque com o sono… É coisa séria (rs).
A mim, me falta – principalmente nos sábados e domingos como este, longo, que vai agora pelo meio.
[E você é muito gentil — nestes tempos em que a gentileza, aqui e ali, parece ter abandonado o mundo.]
PS:
E, então, o doutorado (parabéns!) na Universidade Pública?
Terá se retardado — digamos — tanto assim?…
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