“No espírito de minha família, que diz sim com facilidade para depois complicar, nada é transparente em suas reuniões e encontros, há um quê para ser decifrado nas frases mais bobas, uma segunda intenção latejando nos discursos mais banais. Papear com a mãe é completar palavras cruzadas, discutir com o pai é resolver criptogramas, eles não expressam o que falam. Falar é disfarçar o que se pretende, é omitir, é guardar. Como se fosse falta de educação dizer aquilo que se quer. Fui ensinado a não entregar as minhas vontades, pois a facilidade seria ofensiva, sinal de que somos oferecidos e fracos. A educação de ferro esconde o nosso desejo de vidro.
Não digo que estou com sede. Antecipo a previsão meteorológica, destaco o tempo infernal, aviso que não paro de suar. Não sou jamais direto. Espero que alguém me ofereça um copo d’ água. Não peço o copo d’água.”
(Fabrício Carpinejar / A Chave da Minha Personalidade)
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