A frase surgiu em 2014, quando o voo para o Cairo foi cancelado. O plano era pegar um ônibus do Cairo e seguir com um grupo privado até a fronteira de Gaza, os grupos cobravam 500 dólares para fazer o trajeto, mas o motivo do cancelamento era justamente esse: Gaza estava sendo bombardeada por Israel e os voos foram suspensos (observe que as minhas previsões geopolíticas de uma década atrás estavam corretíssimas, mas esse é um assunto para outro dia), o fato é que não fazia mais sentido ir para o Egito.
Quando a notícia chegou, eu estava no escritório e recebi um e-mail da Decolar que já oferecia algumas alternativas de reparação, como a devolução dinheiro ou um voucher com facilidades para a compra de outras passagens. Suponho que Decolar queria muito que eu viajasse, porque aquele voucher oferecia vantagens demais, como substituir aquelas passagens por qualquer outra, nos cinco continentes. Bastava escolher e responder em 24 horas.
A decepção pelo cancelamento logo foi substituída por uma borboleta no estômago: agora eu tinha nas mãos um voucher que daria direito a ir para QUALQUER LUGAR.
O que você faria se tivesse uma passagem para QUALQUER LUGAR?
Fiquei agitada, não consegui mais trabalhar. Com aquele brilho insano no olhar de quem tem mais opções do que consegue administrar. Encerrei o expediente, segui para o estacionamento e liguei para meu namorado perguntando onde ele estava – desce que eu vou te buscar – o que aconteceu? – no caminho eu explico. No carro, falei que as nossas passagens para o Egito haviam sido canceladas. Ele lamentou sem muita ênfase – poxa, que pena – e só. Como assim ele não havia ficado arrasado? Fui dirigindo e me dando conta de que já fazia alguns anos que ele me acompanhava nas minhas pesquisas e a escolha dos destinos não costumava ser dele (muitas vezes, nem minha) e talvez ir para Gaza no meio de um conflito armado não fosse bem o desejo do moço. Mas, então, qual seria o sonho do boy? Estacionei na garagem de casa e, irresponsavelmente, banquei o gênio da lâmpada:
– Ganhamos vouchers da Decolar e você pode escolher qualquer outro lugar para a gente viajar.
– Qualquer lugar?
– Portanto que esteja neste planeta…
– QUALQUER LUGAR??
Foi, obviamente, uma decisão precipitada.
Ele ficou eufórico, foi fazendo uma lista aleatória – com aquele brilho insano no olhar de quem tem mais opções do que consegue administrar – e eu fiquei refletindo: meu Deus, será que eu não deveria ter colocado alguma condição? Gaza já era um destino arriscado, mas há outros que estão ainda mais fora da minha autarquia. As passagens estavam garantidas, mas o resto da viagem seria de responsabilidade nossa, eu teria capacidade de providenciar uma hospedagem segura para nós, sei lá, no Yemen? Teria condições de me comunicar na Birmânia? Às vezes, ele gostava de assistir a documentários sobre Chernobyl: socorro. Também lia muito sobre Darwin, meu Deus, era bem capaz de escolher Kilauea para visitar aquele vulcão fumegando o magma das trevas, mais quente que o colo do capeta e, neste momento, o caro leitor pode estar se perguntando: mas, Miranda, por que o seu namorado escolheria destinos tão esquisitos? Amores, ele escolheu a mim para namorar, tudo indica que esquisitice nunca foi um problema. A lista de opções aleatórias crescia e foi me batendo uma ressaca moral, mas eu não poderia voltar atrás: qualquer lugar? Qualquer lugar.
Foi então que ele ficou em silêncio de repente. Não entendi o suspense, fiquei aguardando o moreno procurar uma foto no celular e, neste intervalo, provavelmente permaneci com a seguinte expressão facial:
Ele achou um arquivo antigo, ficou olhando com solenidade para a imagem: sempre quis conhecer esta cidade! Que ansiedade, meu Deus.
Olhei a foto.
Não era bem o que eu esperava. Uma vila de pescadores, com casinhas sobre uma falésia que não parecia em nada com Chernobyl. A foto era até meio bucólica. Fiquei aliviada.
– Ufa, destino escolhido! Qual o nome dessa cidade?
– Eu não sei.
– Ela fica em qual país?
– Eu não sei.
– Em qual continente?
– Eu não sei.
Como disse, esquisitice nunca foi um problema.
A gente ainda tinha 18 horas para usar o voucher. O galã queria ir para um lugar do qual ele não sabia NADA a respeito. Procurei a imagem na internet, aquela paisagem poderia estar em qualquer esquina do mundo, talvez com exceção dos polos glaciais do planeta e dos países sem acesso ao mar. Seria uma vila pesqueira no sul da Bahia ou na Costa do Marfim ou no Afeganistão? O bonito não tinha um único palpite e eu pensei em pedir para ele escolher um outro lugar, porém:
1 – Eu já tinha dado a minha palavra;
2 – Tive medo da segunda opção.
Em 2014, o Google Imagens não tinha os atributos de hoje e os resultados eram meio desconectados, eu me sentia conversando com a velha surda da Praça é Nossa:
– Preciso de uma foto de Paris.
– Parir? Toma aqui 200 fotos de cesária, parto normal e parto na água!
Aí eu lembrei do curso de jornalismo investigativo digital que eu tinha feito uns meses antes e que ainda não tinha usado para absolutamente nada: separamos a fotografia do vilarejo em fatias para buscar por detalhes, como o tipo de vegetação – árvores de clima temperado, ou seja, não seria um país tropical. Os telhados não tinham beiral, então provavelmente não eram orientais. Nenhum arabesco, nenhum minarete, provavelmente também não eram árabes ou indús. Por eliminação, chegamos aos países caribenhos e mediterrâneos e, depois de seis horas, à Riviera da Ligúria e, por fim, ao vilarejo de Manarola.
Bingo.
Jovens, já agradeceram hoje pela existência do Google Imagens em suas vidas?
O prazo acabando e eu me precipitei em responder logo o e-mail da Decolar dizendo que pretendíamos ir para a Riviera da Ligúria e eles concordam. Ufa. Apenas acrescentaram que as passagens seriam emitidas para algum destino próximo, porque na Ligúria NÃO EXISTIA AEROPORTO e nem nada parecido num raio de MUITOS QUILÔMETROS.
Em 2014, existiam mapas online, mas não ferramentas de cálculo de rotas em tempo real. Suponho que, hoje, já seja possível ir do Brasil até lá deslizando numa esteira rolante sobre o Atlântico, mas, naquele momento histórico específico, escolher rotas fora do turismo de massa ainda era um problema.
Jovens, já agradeceram hoje pela existência do Google Maps em suas vidas?
Procurei alternativas em depoimentos de blogs e descobri que o trajeto oficial, além de pouco conhecido, ESTAVA EM OBRAS e, pelos meus cálculos, o caminho mais curto seria: avião + ônibus + avião + trem + trem + 1h de barco + 40 minutos de caminhada ladeira acima. Carregando duas mochilas de 10kg cada. A esta altura do colóquio eu já estava deitada no tapete concordando com qualquer disparate, enquanto o supracitado rapaz não via problema em nada, afinal, quem tem um sonho não dança, não é mesmo? Encerrei o dia arrependidíssima de não ter ido para o Cairo no meio da guerra mesmo.
Um mês depois, na lanchonete do aeroporto, eu estava muito preocupada, revisando mapas e anotações, enquanto o boy seguia tranquilo e infalível como o Bruce Lee. Essa seria uma viagem importante que mudaria bastante o rumo das nossas existências, mas eu ainda não sabia disso. Aproximou-se um garçom, que ofereceu a ele um cardápio com uns 100 sabores de pizza e aí aquela cena me deu uma aflição súbita, sabe? Um déjà vu do mal. Um cataclisma psíquico. Não me contive:
– Moço, ele vai querer de marguerita. Deus me livre alguém dar tanta opção para esse rapaz novamente.
E a frase “Deus me livre ter tanta opção” virou um jargão dele, uma piada interna que nossos amigos e familiares repetem há uma década sem terem a mínima ideia da saga que a contextualiza. Espero que, através deste, se compadeçam desta minha consternação específica. É um padecimento antigo. Agradeço a compreensão de todos.


Alguém já ouviram falar em:
Quando tiver outro cancelamento desse… Fala comigo!!
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Lençóis Maranhenses
Foz do Iguaçu
Buenos Aires
Curaçao
Croácia
Trancoso
Sardenha
Eu falo simmmmmmm
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Por favor por favor por favor conta dessa viagem! Com imagens se possível. Minha única opção aqui é fazer olhinhos de coitada pra ter o desejo atendido.
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Gostei da ideia, vou fazer. Preciso me preparar espiritualmente para resgatar essas fotos huahuahuahuahu mas vou fazer sim kkkk
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