“Era o momento mais feliz da minha vida, mas eu não sabia. Se soubesse, se tivesse dado o devido valor a essa dádiva, tudo teria acontecido de outra maneira? Sim, se eu tivesse reconhecido aquele momento de felicidade perfeita, teria agarrado com força e nunca deixaria que me escapasse. Levou alguns segundos, talvez, para aquele estado luminoso tomar conta de mim, mergulhando-me na paz mais profunda, mas ele me pareceu ter durado horas, até mesmo anos. Naquele momento, na tarde de segunda-feira, 26 de maio de 1975, em torno de quinze para as três, assim como nos sentíamos além do pecado e da culpa, o mundo todo parecia ter sido liberado da gravidade e do tempo.”
(Orhan Pamuk / O Museu da Inocência, pág. 03)
Archive for the ‘choro baldes (arte)’ Category
26 de maio
Posted in choro baldes (arte), tagged mariana miranda, orhan pamuk on maio 26, 2013| Leave a Comment »
#41
Posted in choro baldes (arte), tagged carlos drummond de andrade, mariana miranda on maio 21, 2013| Leave a Comment »
Seu nome
Posted in choro baldes (arte), tagged fabrício corsaletti, mariana miranda, seu nome on maio 19, 2013| Leave a Comment »
“Se eu tivesse um bar, ele teria o seu nome. Se eu tivesse um barco, ele teria o seu nome. Se eu comprasse uma égua, daria a ela o seu nome. Minha cadela imaginária tem o seu nome. Se eu enlouquecer, passarei as tardes repetindo o seu nome. Se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome. Se eu for assassinado com a boca cheia de sangue, gritarei o seu nome. Se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome. Se eu me suicidar, ao puxar o gatilho, pensarei no seu nome. A primeira garota que beijei tinha o seu nome. Na sétima série, eu tinha duas amigas com o seu nome. Antes de você, tive três namoradas com o seu nome. Na rua, há mulheres que parecem ter o seu nome. Na locadora que frequento, tem uma moça com o seu nome. Às vezes, as nuvens quase formam o seu nome. Olhando as estrelas, é sempre possível desenhar o seu nome. O último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome. Apollinaire escreveu poemas a Lou porque, na loucura da guerra, não conseguia lembrar o seu nome. Não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome. Se eu fosse um travesti, usaria o seu nome. Se um dia eu mudar de sexo, adotarei o seu nome. Minha mãe me contou que, se eu tivesse nascido menina, teria o seu nome. Se eu tiver uma filha, ela terá o seu nome. Minha senha do e-mail já foi o seu nome. Minha senha do banco é uma variação do seu nome. Tenho pena dos seus filhos porque, em geral, dizem “mãe” em vez do seu nome. Tenho pena dos seus pais porque, em geral, dizem “filha” em vez do seu nome. Tenho muita pena dos seus ex-maridos, porque associam o termo ex-mulher ao seu nome. Tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome. Quando fico bêbado, falo muito o seu nome. Quando estou sóbrio, me controlo para não falar demais o seu nome. É difícil falar de você sem mencionar o seu nome. Uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome. Coelho tinha o seu nome. Xícara tinha o seu nome. Teleférico tinha o seu nome. No índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome. Na foto de Korda, para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome? Algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome. Detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome. Cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome. No cabo da minha bengala gravarei o seu nome. Não posso ser niilista enquanto existir o seu nome. Não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome. Não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome. Não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome. Não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome. Quando saí da casa dos meus pais, fui atrás do seu nome. Morei três anos num bairro que tinha o seu nome. Espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome. Espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome. Espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome. Espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome. A literatura não me interessa tanto quanto o seu nome. Quando a poesia é boa, é como o seu nome. Quando a poesia é ruim, tem algo do seu nome. Estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome. Estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome. Talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome. Por via das dúvidas, vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome.”
(Fabrício Corsaletti / Seu Nome)
A Companhia das Letras publicou o texto neste vídeo aqui.
A história da anêmona
Posted in choro baldes (arte), havaiana de pau (day life), tagged anêmona, mariana miranda on maio 15, 2013| Leave a Comment »
Existe um tipo de anêmona do mar que, a cada geração, precisa cruzar parte do oceano para se fixar numa pedra do litoral. Isso pode levar anos. Desde o seu nascimento, a anêmona tem este objetivo e dedica boa parte da vida ao trajeto.
Algumas conseguem chegar à praia e, quando alcançam uma rocha grande e firme, se fixam com toda força. E, imediatamente, perdem o cérebro.
E pronto.
É assim há uns cinco mil anos.
Eu estou trabalhando demais, é isso que eu acho.
Os Belos e os Malditos
Posted in choro baldes (arte), tagged mariana miranda, scott fitzgerald on maio 14, 2013| Leave a Comment »
Do topo à bancarrota em 400 páginas. Recomendo.
“A felicidade, observou certa vez Maury Noble, é apenas a primeira hora depois de nos livrarmos de um sofrimento particularmente intenso. Mas o rosto de Anthony ao caminhar pelo corredor do décimo andar do Plaza naquela noite! Seus olhos brilhavam, estava mais belo do que nunca, destinado a um daqueles momentos imortais que acontecem de forma tão radiante que sua luz é suficiente para iluminar anos.” (pág. 125)
“Ocorreu-lhe que todas as classes muito distintas, como a classe militar, dividiam os homens em dois gêneros: os que a ela pertenciam e os que estavam de fora. Para os padres, havia sacerdotes e leigos. Para os católicos, os católicos e não-católicos. Para os negros, pretos e brancos. Para os presos, os presos e os livres. Para os doentes, os enfermos e os sãos. Assim, sem jamais ter pensado nisso, fora civil, leigo, não-católico, branco, livre e são.” (Pág. 314)
“Acho que em determinado período eu poderia ter obtido qualquer coisa que quisesse, dentro de limites, mas aquilo era a única coisa que eu já quisera ardentemente. Meu Deus! E isso me ensinou que a gente não pode ter nada, não pode ter nada mesmo. Por que o desejo simplesmente te engana. É como um raio de sol que pula para lá e para cá dentro de um quarto. Quando pára e doura algum objeto sem importância, pobres tolos que somos, tentamos pegá-lo; mas quando conseguimos, o raio muda para outra coisa, e você fica com a parte sem valor, pois o brilho que lhe fez querê-la foi embora.” (Pág. 319)
“- O que foi feito de todos que conhecíamos e que tinham tanto em comum conosco?
– Afastaram-se – disse Muriel, com o olhar devidamente sonhador.
– Mudaram – disse Glória – Todas as qualidades que não são usadas na vida diária acabam se deteriorando.” (Pág. 380)
(F. Scott Fitzgerald / Os Belos e Malditos)
As duas mãos
Posted in choro baldes (arte), tagged clarice lispector, mariana miranda on maio 5, 2013| Leave a Comment »
“Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.”
(Clarice Lispector / Felicidade Clandestina)
Lisboa em Pessoa
Posted in choro baldes (arte), vasto mundo (viagens), tagged lisboa em pessoa, mariana miranda on abril 18, 2013| 2 Comments »
Este livro, do João Correia Filho, é um guia turístico-literário que conta a história de cada bairro de Lisboa através de poemas, músicas e trechos de romances. Há, por exemplo, fotos e mapas de como chegar às casas citadas por Eça de Queiroz. Ou onde fica o bar do livro do Baptista-Bastos, o miradouro do poema de Bocage ou a esplanada descrita por Inês Pedrosa. E aonde comer as sardinhas fritas da história do Saramago. E todos os cafés e esquinas e estradas de Fernando Pessoa.
Olha, os lusitanos que me perdoem, mas eu não quero mais ir à Lisboa.
Eu quero morar dentro desse livro.
“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me esforço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir
Se não parar, mas seguir?
Vou passar a noite em Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena
De não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito,
Sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre
Esta angústia excessiva do espírito
Por coisa nenhuma
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho,
Ou na estrada da vida…”
(Álvaro de Campos, Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra)
“E o policial perguntou para a criança:
– De onde és?
– De Lisboa.
– Sim, mas de onde, de que sítio?
– De toda.”
(Baptista-Bastos, Lisboa Contada pelos Dedos)
“Se, na manhã seguinte, Lisboa não estivesse mergulhada naquela luz deslumbrante, pensou Gregorius mais tarde, as coisas talvez tivessem tomado outro rumo. Talvez tivesse seguido diretamente para o aeroporto e tomado o primeiro avião para casa. Mas aquela luz impedia qualquer movimento de retorno. Seu brilho transformava tudo o que pertencesse ao passado em algo extremamente distante, quase irreal.”
(Pascal Mercier / Comboio Noturno para Lisboa)
(Fotos feitas de janeiro de 2013)
#38
Posted in choro baldes (arte), tagged carlos drummond de andrade, mariana miranda on abril 9, 2013| Leave a Comment »
Juno
Posted in choro baldes (arte), tagged cinema, juno, mariana miranda on abril 1, 2013| Leave a Comment »
– Seus pais devem estar preocupados, provavelmente querendo saber onde você está.
– Acho que não. Quer dizer, eu já estou grávida, que outro tipo de preocupação eles poderiam ter?
– Eu pensei que você fosse o tipo de garota que sabia o que dizer e quando dizer.
– Hum? Eu não sei que tipo de garota eu sou.
– Pai, eu estou perdendo minha fé na humanidade…
– Você já pensou em restringi-la a mim?
– Acho que eu estou gostando de você.
– Você quer dizer, como amigos?
– Não, eu quero dizer, de verdade. Você é a pessoa mais legal que eu conheço e nem precisa se esforçar para ser assim…
– Talvez eu me esforce. Ou até tenha me dedicado muito a isso.
(Juno / Jason Reitman)
Retórica dos namorados
Posted in choro baldes (arte), tagged dom casmurro, machado de assis, mariana miranda on março 12, 2013| Leave a Comment »
“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do Céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do Céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no Céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, — para dizer alguma coisa, — que era capaz de os pentear, se quisesse.”
(Machado de Assis / Dom Casmurro, cap. XXXII)














