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Archive for the ‘choro baldes (arte)’ Category

Ele era italiano, morou no Senegal, na Nigéria e se casou com uma brasileira de Recife. Depois de 35 anos de andanças, Claudio Masella (1935–2007) reuniu mais de mil peças da cultura africana para montar um museu na Itália. Um dia, a passeio, ele veio com a esposa para a Bahia. Aí, mudou de ideia. Mandou buscar as caixas e montou o museu em Salvador. E escreveu: “Onde mais poderia ser?”.

Né? Onde mais?


(30 de janeiro de 2012, Centro Cultural Solar Ferrão, Pelourinho, Salvador, 32 graus)

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“Acho que você tem medo de ser feliz, Emma. Parece que pensa que o caminho natural das coisas na sua vida é ser triste e odiar seu emprego, odiar o lugar onde mora e não ter sucesso nem dinheiro, Deus a livre de um namorado. Você ainda está trabalhando no Mucho Loco ou sei lá o nome? Sua última carta me fez rir à beça, Emma, mas ainda acho que você devia sair de lá porque, apesar de ser bom para fazer piadas, definitivamente faz mal para a sua alma. E você é capaz de jogar fora anos da sua vida para não perder a piada.”

(David Nicholls / Um dia)

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o A foto que melhor define 2011 é esta aí acima, da Maryann Gromit. A melhor frase do ano foi da Dilma: “É verdade, eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos”. A música que mais tocou foi da Adele: Rolling in the Deep. E a melhor notícia foi eu ter passado no doutorado só quando já não fazia sentido nenhum passar no doutorado – o divino tem senso de humor, cabe reconhecer.

Acho que tentar definir o que está acontecendo é sempre como abrir o liquidificador enquanto a vitamina está sendo feita – voa abacate pra todo lado. O ano ainda nem acabou, mas o balanço já pôde concluir que… ele não vai acabar mesmo. 2011 foi a véspera de alguma outra coisa. Só pode ser isso.

Este ano, eu abandonei quase por completo o uso de redes sociais (aplausos, gente) e abandonei também algumas apostas afetivas que já estavam meio perdidas mesmo. Ah, foi o ano do desapego. Se ele se arrastasse por mais duas ou três semanas, ia terminar comigo me desapegando da roupa do corpo e rasgando dinheiro em nome de Alá.

Durante o período, não trabalhamos com foco, obstinação, perseverança e demais conceitos caros ao RH. Telefones não tocaram, projetos não se concretizaram, diálogos necessários se diluíram em – oi? como vai? será que vai chover? – de uma forma tão demente que Freud não explica. Tomates em mim.

Por isso, para o próximo, eu desejo de todo coração que o universo conspire para dias mais conclusivos. E eu pretendo ler mais, por que tem um momento na vida em que você decide que não quer ser uma fraude. Eu poderia mentalizar também promessas que incluíssem rotinas de estudos acadêmicos (não possuímos) e exercícios físicos (não trabalhamos), mas decidi focar nos desejos possíveis. Um celular que funcione, por exemplo. Decorar o número do próprio RG. Pedir desculpas. Usar meias de algodão. Nada como ter metas na vida, veja bem.

A verdade é que a gente espera por um ano mais generoso – exije, implora – por que 2011 foi cinza demais. Chega dessa feijoada de soja, não é mesmo? É mais que justo que todos os palpites/promessas/previsões para este novo ano se concretizem, depois de tanto tempo sendo anunciados: que o nosso poder de compra se eleve em 12%, que Salvador finalmente ganhe um metrô e que o mundo se acabe. Ou não. Mas ficar batendo neste liquidificador interminável por mais doze meses está fora de cogitação.

2012, não vacile. Ou você se resolve por bem, ou vai voar abacate para a década inteira, meu caro.

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Depois que Fernando Monteiro ganhou o prêmio de Literatura da revista Bravo, eu passei a respeitar um pouco mais a Bravo. Entendem? O conto mais bonito que eu li este ano é dele.  São dez páginas de filosofia que se passam entre o Egito e a Turquia, entre os “Alexandres da Alexandria” e o “dourado vago de Istambul”. Tinha mesmo a obrigação de ser perfeito.

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“A geração desses homens da passagem do século dezenove para o vinte conheceu uma modernidade trazida pelo senso de passado, de modo que as suas ações – e mesmo alegrias – eram toldadas por uma sombra sem idade e alguma porção daquela melancolia dos que esperam a morte, porém não a desejam, é claro.”

 “E ele também já não era jovem, não podia agradar às mulheres, que recuavam do seu amor sem forças, afastadas pela mágica do inferno que torna um homem mais idoso que um pai já morto, na meia idade, quando se faz contas com o tempo, com as cidades deixadas para trás, com os amigos mortos e com o silêncio que nos cerca.”

“Lembrava a tarde pintada na sua memória de velho: era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava encerrar o que não viria mais do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas e seria a oportunidade de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio como o objeto no meio da serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio do que o tanque de peixes do parque abandonado, a piscina invertida, o céu sem limite.”

“Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa. A caixa estava em casa – uma ausência dentro de outra – e a casa estava no planeta que rolava no abismo do Universo sem fim e sem começo cujo oco lhe dava náusea, naquele momento de um dia cujo traço iria desaparecer na noite. Cúpulas, minaretes, muralhas e muros, telhados e toldos, janelas e portas douradas, o lago na sua calma, a lua na sua cisma, tudo se afastava do pai de Abdul-Qadir naquela hora de dor feita do conhecimento de todas as ausências que estavam no lugar das coisas em fuga como a cabeça longe dos ombros pesados que o levaram para o último sono na cama.”

(A Cabeça de Calcário/Fernando Monteiro)

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“A cor é a música dos olhos”
(Von Goethe)

Gosto do cotidiano sombrio das ilustrações de Dan Park. Ele é um professor de Nova York que ajuda aspirantes a ingressarem em importantes escolas de arte do país. Esses desenhos sempre me sugerem uma espécie de lembrança remota da infância. Não me surpreendi quando, no site profissional dele, a foto do profile era essa:

Como não amar?

Há mais desenho legais dele aqui.

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“— O que foi que pedi para você lembrar? — perguntou.
— Não sei — respondeu Archer.
— Bem, nem eu — devolveu Betty, com humor e simplicidade. E quem pode negar que, nessa perplexidade, quando combinada com efusão, superioridade maternal, superstições de mulheres antigas, maneiras aleatórias e momentos de espantosa audácia, humor e sentimentalismo — quem pode negar que, nesses aspectos, toda mulher é mais agradável do que qualquer homem?”

(Virgínia Woolf / O Quarto de Jacob)

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(Berlim, 17 de setembro de 2011, 15 graus)

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“Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos pra viver, loucos pra falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaah!’. Como é mesmo que eles chamavam esses garotos da Alemanha de Goethe? (…) Por isso eu formigava inteiro, contava os minutos e subtraía os quilômetros. Bem em frente, por trás dos trigais esvoaçantes, que reluziam sob as neves distantes do Este, eu finalmente veria Denver. Imaginei-me num bar qualquer da cidade, naquela noite, com a turma inteira: aos olhos deles, eu pareceria misterioso e maltrapilho, como um profeta que cruzasse a terra inteira para trazer a palavra enigmática, e a única palavra que eu teria a dizer era: Uauuu!!! Eu estava na metade da América, meio caminho andado entre o Leste da minha juventude e o Oeste do meu futuro e é provável que tenha sido exatamente por isso que tudo se passou exatamente ali, naquele entardecer dourado e insólito. (…) Em algum lugar ao longo da estrada eu sabia que haveria visões e tudo mais. Na estrada, em algum lugar, a pérola me seria ofertada.”

(Jack Kerouac / On the road)

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Viagem a trabalho, uma semana na Chapada. Na Chapada. Uma semana.

E eu ganho para isso.

Ahhhhhh, atirem em mimmm.

 (Itaberaba, Bahia, 06/09/2011, 23 graus)

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Acho que nada nessa vida me causava mais sono e tédio do que ir aos simpósios de fotografia da Facom ouvir gente de camisa quadriculada dissertar sobre a arte de “congelar o instante”, “registrar a história” ou “capturar algo que, no segundo seguinte, já não existe mais”. Assim, como se todos os outros profissionais do mundo – o padeiro, o médico, anyone – também não estivessem expostos à efemeridade da vida e só o fotógrafo pudesse brincar de Deus aprisionando a alma das pessoas num pedacinho de papel e nono nono nono nono.

Daí que, na semana passada, eu voltei a trabalhar no Pelourinho. Durante seis anos meu ofício sazonal foi fazer retratos por lá, especialmente de apresentações infantis – crianças errando as coreografias, arrancando as fantasias de kami do corpo, chorando por que o coleguinha pisou no pé – trabalho que eu só retomei este ano, depois de uma longa pausa. E eis que sou surpreendida por um fato estarrecedor:

AS MINHAS. CRIANÇAS. NÃO. EXISTEM. MAIS.

Para desconforto geral da nação, os meus meninos agora têm BARBA (!!!), as minhas meninas fazem VESTIBULAR (!!!!!), ninguém errou a coreografia e, tipo assim, eu quero MORREEEEEEER.

\o/

Aquelas crianças só existem nas minhas fotografias. E isso é tão clichê, gente. Isso é tão “congelar o instante” e “registrar a história”. Como é que eu caí nessa cilada, hein? Alguém pode me explicar o que aconteceu? Já posso começar a chorar?

Jo sofro mucho.

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(Pelourinho, 25 de agosto de 2011, 30 graus)

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(Cachoeira, Bahia, 15 de agosto de 2011, 35 graus)

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