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Archive for the ‘havaiana de pau (day life)’ Category

Atendendo a pedidos, mudei a aparência do blog. Vocês viram, né? E o primeiro comentário sobre o assunto foi: é um blog infantil? Massa. Daí eu me dei conta de que a ilustração ficou mesmo meio infantil, mas, poxa, fui eu mesma que fiz a montagem, deve haver alguma identificação com, sei lá, a minha idade mental. E isso de idade mental é curioso: estamos falando de uma pessoa que, a um ano atrás, só entrava pela porta de um supermercado em dia de sábado à noite para comprar snacks, bebidas e maquiagem, mas que, agora, vai ao supermercado dia de terça-feira pra comprar sabão em pó. Ou seja, uma jovem senhora. E como se comporta, o que faz e do que gosta uma jovem senhora quando não está indo ao supermercado comprar sabão em pó? Não faço idéia.

Enfim, o que eu quero dizer é que não estou segura sobre essa decisão importantíssima para o curso da humanidade: a aparência do blog. E tive uma idéia: eu estava querendo um pretexto pra testar o recurso de enquete do sistema wordpress – ele é anônimo, seguro e pode ser útil para discutir questões mais relevantes na posteridade. Então vamos votar:

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Na Internet eu poderia acessar o msn, o blog, o orkut, o twitter, o google e acho que não deve haver coisa mais ultrapassada no mundo virtual que passar 80% do meu tempo on-line lendo e respondendo e-mail: o primo mais novo das neolíticas cartas de correio. Mas é isso que sempre acontece e, no fundo, é o que eu mais gosto de fazer na Internet. Principalmente depois que o povo passou a me escrever pedindo, digamos, opiniões sobre as coisas. Conselhos sobre a vida prática, financeira, profissional, mas, especialmente, sobre a vida afetiva. E você deve estar se perguntando: como alguém com uma vida afetiva absolutamente instável pode estar apta a dar orientações deste grau a quem quer que seja? A resposta é: não está. Sinceramente, acho que os amigos que me escrevem não estão esperando de mim um conselho sábio. Sabe reunião do AA onde todo mundo se coloca em círculo contando seus problemas, onde você pratica esta mera função fática da linguagem para se sentir integrado a um grupo de pessoas tão ou mais perdidas que você? Então, é isso.

Sendo assim, nunca me senti na obrigação de dar opiniões compromissadas com a sabedoria – em outras palavras, eu costumo ser bem sincera. E essa assessoria sentimental, apesar de já ser de conhecimento de vocês, fez parte de uma esfera privada da minha rotina até que, ontem, eu estava estudando para a tese e descobri que a Clarice Lispector começou a carreira dela escrevendo para colunas de (contos? crônicas? epopéias?) aconselhamento. Sério! Pronto, perdi completamente o pudor pelo assunto. Literatura-passional-e-brega-de-auto-ajuda é o futuro! Paulo Coelho está rico, Augusto Cury está rico, eu estou pobre e este post de hoje terá o resumo dos e-mails de resposta da semana. Nomes e detalhes serão omitidos para evitar a fadiga e, se o seu problema ainda não se resolveu, pode trazer o banquinho e continuar contando o seu dilema que a tia mari vai te ajudar. Quanto ao respeitável público de dez pessoas que acompanham esse blog, bem, senta que lá vem a história.

Caso 01 – Meu caro colega, deixa ver se eu entendi o seu e-mail: ela é bem-humorada, bom papo, atraente, está interessada em você e te chamou pra sair. Você está se dando ao trabalho de me escrever pra perguntar o que mesmo, filho?

Caso 02 – Sobre esse episódio, eu vou ser sincera: toda vez que te vejo contando sobre suas brigas com sua ex me lembro de um texto que li uma vez comentando um capítulo de Seinfeld: a amizade entre dois ex-namorados é um encontro entre dois mágicos que tentam entreter um ao outro. Ela já conhece os seus truques e não vai cair neles, você já conhece os truques dela e não vai cair neles. Ou não deveria, né? O problema de conversar com uma pessoa que te conhece muito bem é que não dá pra maquiar nada: quando você conta uma história é natural que acabe omitindo alguma coisa, não porque quer camuflar de propósito, mas porque quer muito a aprovação do seu interlocutor. Mas tem gente que te conhece bem demais pra não perceber isso. Daí você me diz que ela gritou com você e eu pergunto: enquanto ela gritava você fazia oque? Ioga? Pense bem. Ex- namorados, mães e dicionários: você pode brigar, espernear, discordar de tudo o que eles dizem, mas, no fundo, sabe que eles estão corretos.

Caso 03 – Pois bem, você está solteira. Com a intenção de te conhecer melhor, um moço bem intencionado te convidou pra jantar. Vocês foram para um restaurante ótimo que ele conhecia, quando vocês chegaram ele escolheu uma mesa pra vocês, ele chamou o garçom, ele pediu o cardápio, ele sugeriu uma bebida e, pior, foi ele quem experimentou o vinho antes de autorizar o garçom a servir as taças. Depois ele puxou um assunto qualquer enquanto você continuava com a bolsa no colo, calada, sorrindo, com cara de Hello Kitty. Eu sei, eu sei, ninguém merece. E também sei que este jantar só teria sido sucesso de público e de crítica se o homem do outro lado da mesa fosse o seu pai e você tivesse, sei lá, 9 anos de idade, mas, acredite, os homens machistas realmente acreditam que estão sendo… cavalheiros. Ah! Concordo que você não deve perder tempo com ele, mas, se possível, dispense com carinho. Dê um abraço, agradeça pelo jantar, diga que foi tudo ótimo, peça pra ele deixar a porta aberta quando for saindo e daí você chama: o próximooooooo!!!

Caso 04 – Sobre a palestra no congresso de odontologia, eu também não sei por que isso deu tão certo, mas certamente tem haver com o fato de que os rapazes adoram uma especialista. Não importa o assunto, deve ser o eterno fetiche pela professora, se você souber ensinar a um homem tudo sobre, sei lá, o fenômeno da piracema, está feita. Antes de você chegar na parte dos peixinhos alcançarem a foz, a figura já pediu seu telefone, endereço e o número do sapatinho de cristal. Detalhe: eu fiz duas graduações e nunca viajei num congresso acadêmico, ah! Eu me odeio. Mas a dica é essa: se especialize. Não importa sobre qual seja a banalidade, se especialize.

Caso 05 – Amigo, sobre a moça que você falou, cliquei no link, dei uma olhada no orkut dela e, apesar de vocês serem colegas de trabalho e tal, eu achei o perfil um pouco… hum… “migucha”. A diferença entre uma mulher e uma migucha é que a primeira sabe o que quer e a segunda  é mais bobinha, tipo, que não consegue largar as amiguchas, que tem álbum com mil fotos com grupos enormes, sempre sorrindo, sempre festejando, enfim, essas coisas que são normais aos 15. Fora as comunidades, essa mania retardada de amar todas as coisas coletiva e incondicionalmente, “eu amo viajar”, “eu amo música”, “eu amo praia”, meu Deus, mas que praia? Que horas? Com quem? Tenha medo. O que salvou tudo foi aquela descrição do quem sou eu: comparar a própria rotina aos capítulos da obra de Salinger foi genial. Mande pra mim outros links, vou precisar de mais material de pesquisa antes de emitir uma opinião melhor sobre a candidata. 

Caso 06 – Minha sugestão sobre aquele rapaz lindo e loiro que te dispensou antes do Carnaval e agora que voltar? Que besteira, menina, volte. O amor é lindo. Por que guardar rancor se você pode começar de novo e fazer as coisas de uma maneira, tipo assim, diferente? Meu conselho é o mesmo da semana passada:


(tradução: mantenha a calma e seja uma puta)

 

 

Se você também tem dilemas, dúvidas, críticas, sugestões, ameaças, escreva para maripublic@yahoo.com.br contando a sua história ou mande a sua cartinha para a rua Carlos Ramos, n.13, ap. 2c, Quinta do Morgado, Olivais Norte, 1800-052, Lisboa. Hoje ficamos por aqui, foi um prazer estar com vocês, tenham uma ótima semana, fiquem agora com a nossa programação musical, uma boa noite a todos e até mais.

Para ouvir:

Help, The Beatles

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De acordo com a minha previsão astrológica, dentro de alguns dias o meu mapa astral, o meu signo, o meu ascendente, a minha vida acadêmica e a minha conta bancária estarão conspirando para um propósito em comum: a compra da minha passagem de volta!! Um fenômeno raro que pode não se repetir nos próximos séculos e deverá interferir decisivamente no curso da humanidade, mas implica num grande dilema: a volta seria em setembro e eu teria de comprar a passagem agora, com seis meses de antecedência. Minha gente, seis meses é uma eternidade. Quantas guerras começarão e terminarão, quantos edifícios serão levantados, quantas vezes eu vou mudar de idéia sobre o rumo da minha existência nos próximos seis meses?? Milhares!! Bipolaridade, um direito de todos: seis meses é tempo demais.

Não sei se faço a reserva como qualquer pessoa normal ou relaxo e deixo para a última hora ao sabor do meu humor futuro ou consulto um agente de viagens ou compro uma bicicleta. Mas eu vou. Não ter ido no Natal foi uma decisão racional, lúcida e frustrante. Só que a minha quota de lucidez já estourou e, mesmo sabendo que essa viagem é dispendiosa e desnecessária, mesmo sabendo que terei que estar novamente em Lisboa em 2011, mesmo sabendo que todos em Salvador estarão empenhados em seus afazeres enquanto eu estarei desocupada mendigando a atenção de vocês de maneira ostensiva e impertinente com uma grande placa de ME TELEFONA, ME LIGA, ME CHAMAAAAAA pendurada no pescoço, gente, eu vou.

A questão é que minhas experiências com compras antecipadas são negativas: inventei de comprar as passagens da viagem de maio dois meses antes e já tive que reagendar para junho, depois tive que reagendar para abril e só não reagendei de novo por quê, bem, as taxas de reagendamento são um preço caro que se paga pela própria esquizofrenia. A verdade é que eu sou pobre demais pra ter uma vida tão, digamos, dinâmica. Sempre começo na dúvida e termino na dívida.

Mas, sim, a vida é dinâmica, meus caros. Não sei se alguém lembra, mas eu comecei o ano de 2009 pronta para ingressar num emprego novo e com um projeto de vida A, mas na semana seguinte eu não queria mais por que descobri que a razão da minha existência era o projeto de vida B, na semana seguinte eu estava me formando e desistindo dos planos anteriores por que os projetos C e o D haviam surgido, na semana seguinte estava vendendo o carro, na outra dando uma festa e na outra, bem, eu já estava do lado de cá do planeta decidindo entre os projetos de vida X, Y e Z. Planejamento? O que é isso?

Eu poderia fazer aqui uma retrospectiva mais detalhada para vocês entenderem melhor os fatos e as razões, mas não é recomendado ficar abrindo caixão que os zumbis levantam da tumba tudo com cabeça debaixo do braço e, tipo assim, terror. O que eu quero dizer é que os amiguinhos Organização, Ponderação e Foco não foram convidados para a festa e ninguém ficou sem par. Meu Deus, em um mês tudo pode mudar! E quem sabe exatamente o que quer da vida que atire a primeira pedra e o primeiro talão de previdência privada. Viu? Você também não sabe.

Bem, é isso, de qualquer forma, com pré-agendamento ou não, devo chegar em agosto/setembro. Não sei se esse papo de apelidar “desorganização” de “dinamismo” está sendo convincente, mas certamente não está sendo uma novidade, né? Quem me conhece (e quem não me conhece) já percebeu que dispersão faz parte do pacote. É só olhar pra esse post: eu começo escrevendo sobre astrologia, depois passagem de avião, depois zumbis, depois previdência privada e agora… agora eu estava falando do que mesmo?

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Eu poderia escrever muitas coisas interessantes nesse blog se eu não perdesse tanto tempo ficando chocada. Leio o jornal e passo o dia tendo crises. De novo. É fato que esse costume de ler notícias já deveria ter sido cortado da minha dieta a muito tempo e acho que só não o faço por certa ressaca moral, afinal, se não me falha a memória, um dia na minha vida eu me formei em Jornalismo e a idéia de ignorar as notícias do mundo para sempre poderia pegar mal, suponho. Daí eu leio os jornais. Mesmo sabendo que o melhor para a minha saúde mental seria ler, sei lá, revista Cláudia.

Houve um terremoto na Turquia, houve um terremoto no Chile, houve uma inundação na Madeira e, cada vez que este ser humano lê uma notícia assim, se convence de que o mundo está acabando e deprime. Enquando os amigos transformam informação jornalística em solidariedade, angariam donativos, viajam como voluntários, mobilizam as pessoas, eu faço a minha parte para mudar o mundo: me tranco no quarto e choro. Muito útil.

O problema das notícias não são os desastres naturais, o problema são as pessoas. Houve um terremoto no Haiti? Tudo bem, essas coisas acontecem, malditas placas tectônicas. Está havendo mais fome no Haiti do que já havia antes? Uma tragédia sobre outra tragédia, mas, vamos lá, todo mundo pode ajudar a mudar isso. Estão ROUBANDO OS REMÉDIOS DOS HAITIANOS PARA TROCAR POR GASOLINA??? Bem, aí já é demais pra minha sanidade. Choro baldes.

Surto, grito, me tranco no quarto, digo que não quero sair, não quero jantar, NÃO QUERO MAIS IR PRA MADRID 4 HORAS ANTES DO VÔO, não quero mais viver, o mundo não presta, me deixem em paz, eu quero morreeeeerrr!!! Sou arrastada para o aeroporto em prantos cataclíticos. Durmo. E, no dia seguinte, acordo normal, saltitante, falando as banalidades de sempre. Medo.

O pior é saber que isso não é recente, gente, quem não lembra das minhas milhares de cartas insanas para o jornal A Tarde depois do tsunami de 2004?? E os textos alucinados que eu grudava nas paredes da faculdade sobre o trabalho infantil na China?? Ainda que eu tivesse a esperança insólita de estar ajudando à distância, bem, a gente sabe: distância é para os fracos. Quem quer mesmo ajudar pega um avião pra lá e pronto, não fica em casa tendo surtos. Essa é a diferença abissal entre uma pessoa que é realmente solidária e uma pessoa que é, simplesmente, louca! Quem é do tipo que grita, baba, rasga dinheiro, ameaça raspar a cabeça mas nunca faz nada levanta a mão:  o/

Aí chega o terremoto da Turquia – dois dias sem trabalhar, sem estudar, sem sair de casa – e, agora, este momento de consternação: sentar no sofá e calcular o prejuízo prático e financeiro da minha última crise (nem vamos falar do prejuízo moral, por que não trabalhamos com números negativos). Vou ter que trabalhar no fim de semana pra compensar, vou ter que fazer um e-mail de retratação por não ter enviado as matérias da revista, vou ter que negociar as faltas na faculdade e vou ter que passar a cem mil metros de distância de qualquer banca de jornal nos próximos 15 dias. Por isso, desculpem a interrupção, já estamos de volta, seguimos agora com a nossa programação, uma boa noite a todos.
   
(Pronto, terminei o post. Podem chamar o psiquiatra.)

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Romance

Depois do velório de Orfélia, Hamlet envolve-se num duelo de espadas onde uma das lâminas está envenenada. No corpo-a-corpo da luta, os dois trocam de espadas e Hamlet fere o rei, que não desiste e continua a enfrentá-lo, mas acaba por beber a taça de vinho também envenenada. Hamlet também a bebe e morre dizendo “o resto é silêncio”. Fórtinbras invade o castelo com seu exército e ordena que “quatro capitães conduzam Hamlet como um soldado para o catafalco”. Os soldados carregam o corpo do príncipe, soa a marcha fúnebre, depois uma salva de canhões.

As luzes se apagam, as cortinas se fecham, o público levanta em aplausos calorosos, os atores voltam ao palco, agradecem e as luzes se acendem. Depois as pessoas vão deixando o auditório, fazendo comentários, indo embora. Eu fico conversando um pouco mais e, na saída, encontro o tal Hamlet. No ponto de ônibus. Cansado. De calça jeans, sem maquiagem e com a coroa num saco plástico. Putz.

O problema de assistir às apresentações culturais da faculdade é que, quando elas acabam, elas realmente acabam. Os personagens que alimentaram nosso imaginário durante uma ou duas horas não continuam lá, no costumeiro limbo dourado hollywoodyano, voltam pra realidade num segundo. Consequentemente, a gente também. E me fazem lembrar de Wagner Moura, em Romance, dizendo a frase mais dura do filme: “isso é só uma história e ninguém vai morrer por causa disso”.

Todo dia vejo Otelo fumando na cantina, Julieta no balcão da biblioteca, o Rei Lear imprimindo apostilas na sala de informática e é como se o destino os perguntasse: você tem noção da grandeza daquela história para a sua pequenice? Semana que vem eles voltam a duelar com espadas, jurar bravura, beber veneno, até que a cortina se feche e volte cada desgraçado para o seu canto. Eu para o meu, eles para o deles. Afinal, isso é só uma história e ninguém vai morrer por causa disso.  

Pra que não viu o filme, segue o trailer.

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Coordenador (em inglês): Pois bem, vamos encerrar esta reunião do Conselho de Ética Jornalística Anglo-Saxónico do TS. Gostaria de agradecer a presença de todos, especialmente dos nossos dois representantes do Jornalismo de língua portuguesa.

Colega (em inglês): Obrigado.

Coordenador (em inglês): Sendo assim, vamos todos ficar de pé para pronunciar o juramento de ética. Os senhores podem puxar a jura? Talvez a sua colega, ela parece tímida.

Secretária (em inglês): Mas, senhor, não sabemos se o juramento é prática na universidade deles.

Professor americano (em inglês): É costume, sim, a academia portuguesa é uma das mais tradicionais do mundo.

Coordenador (em inglês): Pois então. Uma ótima referência!

Colega (em inglês): Talvez eu possa fazê-lo, acredito que minha colega ainda não esteja muito à vontade com o idioma estrangeiro.

Coordenador (em inglês): Ela pode jurar em português, de acordo com a cultura de vocês. Será um prazer para nós.

Professor americano (em inglês): Que ótimo! Português!

Secretária (em inglês): Senhor, talvez não seja boa idéia.

Colega (em português): Olha, você não precisa…

Eu (em português): ok, ok, não faz mal…

Todos erguem a mão sobre o livro para iniciar o juramento.

Eu (em português, com voz solene): Somos da turma tricolor, somos a voz do campeão, somos do povo o clamor, ninguém nos vence em vibração, vamos avante esquadrão, vamos serás o vencedor, vamos conquistar mais um tento, Bahia, Bahia, Bahia.

Coordenador (em inglês): Excelente. Preciso conhecer as universidades portuguesas.

Professor americano (em inglês): Eu também. Muito bonito.

Colega (em português): Nunca mais trago você, rs.

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Todos os fatos que me aconteceram esta senama só reforçam a minha teoria sobre o perigo dos relacionamentos antigos. Quanto mais passado existir, mais pólvora na bomba. Digamos que você marca um compromisso com um desconhecido e ele atrasa. Quando ele chegar, você pode reclamar, dizer o quanto ficou esperando e a discussão de vocês vai ser sobre o atraso em si. Mas se um conhecido de longa data te deixa de molho, inevitavelmente a conversa vai descambar para questões anteriores: de quantas vezes a pessoa já falhou com você, citar dois ou três exemplos disso, falar das suas mágoas passadas e outras histórias que nada tem haver com o próprio atraso e, por isso mesmo, a discussão tem muito menos chances de terminar bem.

Um histórico longo faz com que as pessoas percam a capacidade de analisar os episódios de maneira isolada em detrimento do contexto inteiro. Nada contra relacionamentos antigos. Até por que esta teoria tem dois lados: natural que os afetos de muito tempo também explodam com muito mais densidade do que os recentes. Digamos que, sei lá, alguém te dá um presente. Quanto mais antiga a relação, menos a satisfação vai girar em torno do presente em si – mas em torno do laço construído, da história em comum, do contexto. Será mais intenso. Quanto mais passado existir, mais pólvora na bomba.

Penso nisso com algum arrependimento quando lembro que escolhi Portugal como destino de viagem. Nada contra Portugal, mas é que há passado demais nessa relação. Os séculos de brigas, acordos, encontros e desencontros entre essas duas nações lhes tiraram a capacidade de analisar os episódios de maneira isolada. E o episódio isolado em questão, no momento, sou eu! Se eu tivesse ido morar, sei lá, na Polônia, seria mais fácil, por que eu tenho uma noção vaga do que sejam os poloneses, imagino eles tenham uma noção vaga do que sejam os brasileiros e suponho que o tratamento que eles me dariam estaria muito mais condicionado às minhas características pessoais do que ao meu passaporte. E virce-versa. Assim, nós nos adoraríamos ou nos detestaríamos graças à nossa relação em si e não a uma série de fatos históricos de um passado que nenhum dos dois pode mudar.  

É certo que, se Brasil e Portugal não tivessem uma história em comum, não haveria essa sensação de reencontro: os livros de Machado na prateleira deles, os livros de Pessoa na nossa cabeceira, nem tantas músicas em comum, nem essa arquitetura que nos faz subir Alfama como quem volta pra casa, nem um Atlântico inteiro de amor e ódio entre duas culturas que já não sabem bem onde termina uma e começa a outra. Não haveria nada disso. Mas haveria certa curiosidade desarmada, o deslumbramento pelo exótico, coisas que só existe entre duas pessoas que acabaram de se conhecer.

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Just a game

Quando eu digo neste blog que a minha vida conspira para o improvável, eu estou sendo eufemista. Não é bem assim. Na verdade, a minha vida conspira para o impossível, para o absurdo, para o realismo fantástico. Vamos visualizar a cena: domingo, enfim, eu fui chamada para a vaga de vendedora de jornais. Aprovada em último lugar da segunda lista – bem, qual seria mesmo o meu mérito se eu passasse em primeiro lugar entre os jornaleiros? Nenhum. Mas eu fui aprovada em último. Sem comentários. 

Primeiro dia de trabalho: o semáforo fecha, vamos ao primeiro carro, depois ao segundo, escapamos da tentativa de assassinato da primeira motocicleta enlouquecida, vamos ao terceiro carro, ao quarto, nos jogamos em cima do quinto para escapar da outra moto, sexto carro, sétimo, o sinal vai abrir, oitavo carro, o sinal abriu, o nono carro quer jornal, você vai até lá, os outros carros aceleram e o décimo fica buzinando pra você sair da frente, você corre da pista e pronto. Agora é só andar cem metros de volta para o semáforo e começar tudo de novo. Algo semelhante aos jogos do Nitendo: o Sonic precisa pular os obstáculos, fazer pontos, completar o percurso e, se possível, sobreviver até a próxima fase onde, com sorte, chegará ao final do jogo para, então, receber o grande prêmio: um bauzinho com cinco moedinhas. Um resumo ilustrado da minha existência.

Mas eis que, no meu primeiro dia de serviço, começa a esfriar de repente. Mas eis que, no meu primeiro dia de serviço, começa a escurecer. Mas eis que, ainda no meu primeiro dia de serviço, cai um dilúvio bíblico. Só que ficar ensopada e moribunda num semáforo gelado o dia inteiro é improvável, mas não é impossível. Impossível seria se São Pedro, ao invés de mandar chuva, jogasse pedra lá de cima, correto? Não bastava chover. Tinha que chover granizo.

Um barulho ensurdecedor, o povo louco na rua, carro batendo, uma gritaria, eu correndo pra debaixo de um viaduto, gente fugindo para o metrô, para as lojas, pra dentro dos ônibus e a minha pessoa, que nunca tinha visto nada parecido, com a mochila na cabeça, desesperada: o mundo vai se acabar agora e eu vou entrar no Armagedom com o uniforme do jornal?? Socorro!!!

Mas amanhã não vai chover pedra. Amanhã vai chover, sei lá, chave de fenda, colher de pau, centenas de torradeiras elétricas. Depois de amanhã, pianos de cauda. Games eletrônicos, educação de crianças e a minha vida: a próxima fase é sempre a mais difícil.

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Sub-raça

Hoje foi um dia produtivo: primeiro eu fui recusada para uma vaga de operadora de telemarketing, depois para uma vaga num trabalho voluntário (isso mesmo, eles não me quiseram nem de graça) e, no fim da tarde, fui recusada numa seleção para distribuição de jornais. Não, não estamos falando de um cargo no setor de logística num veículo impresso, estamos falando de VENDER JORNAL NO SEMÁFORO. E eu não fui aceita. Mesmo já sabendo a resposta, sempre me dou ao trabalho de perguntar:

– Qual dos critérios de seleção foi responsável pela minha eliminação?
– Nacionalidade, pá.

Solução? Nascer de novo. Em outro planeta, se possível. A cada dia que passa eu estou mais convencida de que aquele método de limpeza étnica dos alemães está mesmo ultrapassado. Por que matar com gás se você pode matar de fome? É muito mais limpinho!

Tenho especial apreço pelos métodos requintados utilizados pelo SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras). A maioria dos imigrantes, ao chegar, recebe um visto temporário. Este visto não te permite trabalhar – e só deixa de ser temporário acaso alguma empresa queira te contratar e redija uma declaração de interesse.  Pronto, você sai de lá e vai direto para uma agência de recrutamento, claro, por que tudo o que você precisa é encontrar uma empresa que te queira. Mas a sua candidatura é negada. Por quê? Por que seu visto é temporário! Essa documetação não te permite nem fazer o cadastro, quanto mais concorrer a uma vaga! Com visto temporário você não trabalha, sem trabalho você continua com visto temporário. Tostines vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais?? Socorro!!!

Enquanto o SEF e as agências de recrutamento discutem se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, fica você dançando no meio dessa quadrilha-do-sem-fim muito contente, desempregado, desesperado, feliz, tirando as calças pela cabeça. É uma experiência única. Eu (bem) sei.

Com tantas boas notícias, hoje voltei pra casa refletindo se não foi uma atitude precipitada ter deixado a vaga de fotógrafa na agência de modelos. Por que eu me demiti? Pelos motivos de sempre. Graças à filosofia romântica e pouco prática de que os seres humanos devem trabalhar por paixão. Seu emprego não te faz feliz? Pedra nele. Princípio válido para tudo mais: suas pessoas, sua rotina, suas escolhas não te fazem feliz? Pedra em todo mundo, largue tudo e vá começar do zero fazendo outra coisa – tipo, vendendo jornal num semáforo. E pronto. Prática exaustivamente testada e aprovada com 100% de êxito até o dia de hoje – eu REALMENTE não esperava não estar à altura dos semáforos portugueses.

Entro em casa, abro a geladeira, fecho a geladeira, sento no sofá. A imagem da derrota. Não sei de onde veio essa lenda de que brasileiro, depois que vai pra Europa, fica metido. Fica nada. Fica é humilde. E muito mais tolerante. Nada como passar uma temporada sendo tratado como sub-raça pra entender o poder corrosivo de um preconceito.

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A reunião era sempre numa sala em Santos, um subsolo mal iluminado, mas com uma lareira, livros empilhados no chão, poeira, umas vinte pessoas. Eu chegava no início da noite e ficava na esteira, quase não falava nada, olhando as sombras na parede, ouvindo o que eles diziam e eles diziam muitas coisas. O rapaz de óculos acendia uma vela pra conseguir ler no escuro: “Por que onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eis que estarei no meio deles”, a moça de cachecol tocava flauta, a senhora de véu cantava baixinho, acho que eu nunca decorei as feições de ninguém por causa daquele breu. Eu não era a única estrangeira do grupo, mas não saberia dizer quantos havia e nem de onde vieram. Cada quarta-feira alguém trazia uma leitura nova e, quando o frio apertava, jogavam cadeiras quebradas no fogo. E rezavam de mãos dadas.     

Houve um dia em que chegou um convite dos inacianos para, quem estivesse interessado, integrar uma equipe de voluntários com destino a uma comunidade em Koroli. Convite que eu recebi meio cética, por um motivo simples: eu achava aquele gesto bem intencionado, mas pouco útil. Segundo os meus cálculos na época, só o que eles gastariam para transportar um de nós pra lá equivalia a 130 sacos de feijão. Pedi a palavra e argumentei que, ainda que fôssemos voluntários esforçados, a presença de nenhum de nós era mais necessária do que aqueles 3 meses de comida para aquela gente que não tinha nada. Era um desperdício.

E, nessa hora, a moça da flauta respondeu lenta, com sua voz baixa: mas eles não nos mandam pra lá por que as pessoas precisam da gente. Aquelas pessoas não precisam da gente pra nada. E o grupo virou-se pra ela, esperando que explicasse melhor: é a gente que precisa disso. Por que a gente precisa ver, precisa ver – e qualquer coisa no que ela falava me lembrava Caio F. dizendo que você não pode voltar atrás no que vê: você pode se recusar a ver, o tempo que quiser, até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo. E ela dizendo: é a gente que precisa deste empurrão pra fora do cercadinho, por que depois, depois é diferente. Você pode negar, mentir se quiser, pode afundar a cabeça no chão e arrancar os dois olhos, mas não consegue mudar o que viu lá. Mesmo que, depois, você ignore. E que faça o que quiser da sua vida: arranje um emprego, plante uma árvore, escreva um livro, tenha um filho, crie gatos, não importa. Toda vez que você tiver que decidir algo, toda vez que tiver que escolher entre um verbo no plural e um verbo no singular, entre o melhor pra você e o melhor para todos, você vai lembrar do que viu. Você vai lembrar das pessoas do deserto de Koroli e é assim que o planeta vai se transformando. Nem mil sacos de feijão mudam o mundo sozinhos.

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