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Archive for the ‘havaiana de pau (day life)’ Category

Acho que um dos aspectos mais despropositados da vida é a capacidade de algumas pessoas nos magoarem sem nenhuma intenção de nos fazer sofrer. É algo que se aproxima do meu terrível medo de morrer atropelada: tipo, que morte mais estúpida, o cara nem queria te fazer mal, você era só um obstáculo na pista. Eu ficaria conformada de ser boicotada por alguém que tivesse qualquer tipo de ódio, antipatia, inveja, instintos assassinos por mim. Que me quisesse mal por que eu sou especial, possuo um dom, nasci com uma cicatriz em forma de holograma no braço direito e posso interferir no curso da humanidade. Mas é difícil explicar para o próprio ego que alguém só molhou os seus fósforos por que estava distraído. A vida real não tem nenhum glamour.

A minha, principalmente. Mesmo que eu não seja uma pessoa facilmente decepcionável. Não por altruísmo, mas por desatenção, é preciso o carro já ter perdido o controle, ter saído da estrada e estar despencando precipício abaixo há muito tempo pra eu tirar os fones de ouvido e perguntar: como assim? Seu cão morreu, você está demitida, sua casa pegou fogo, eu quero o divórcio, sou travesti – e eu com cara de monalisa: como assim? Tragédia pouca é bobagem. No fundo, a gente cresce sendo preparado para as epopéias gregas, já espera por situacões inusitadas, roteiros apocalípticos. Mas não cogita ficar invisível no filme só por que o resto do mundo estava olhando para o outro lado.

Não devia doer, mas dói. E, antes de eu me conformar com o papel de árvore de cenário atrás do último coadjuvante mudo de uma história ruim, uma musiquinha bonita para salvar a vida dos seres humanos que passaram a semana inteira fazendo sombra na sombra.

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Gente, pára tudo. Alguém lembra qual foi o dia em que eu peguei o avião e fui embora da Bahia? Lembra? Pois é, foi na quarta-feira de cinzas. Não é segredo pra ninguém que eu gosto de Carnaval  e que não iria a lugar nenhum antes de ver o Ilê passar. É verdade que eu também não me lembro qual foi o último Carnaval em que eu não trabalhei (no meio da avenida), mas isso são outros quinhentos. Ou seiscentos. Ou novecentos. Enfim, esse é um outro assunto.

O fato é que esse é o primeiro ano em que a pessoa vai estar longe do coro de we-are-the-world-of-Carnaval-we-are-Bahia. Triste. Com o consolo apenas de estar participando de forma indireta – minhas fotos estão de novo na campanha da Secretaria de Cultura e na campanha do Irdeb (alguém viu? alguém viu?). E só.

Até que o ser humano, de repente, fica sabendo da novidade: que a sua ilustre participação não se encerra por aí! A notícia do momento é que a minha gabosa figura está aparecendo nos anúncios festivos do SBT e da TV Aratu todo-santo-dia. Não, não estamos falando de uma foto tirada por mim, estamos falando deste rostinho inconfundível que Deus me deu, filmado em momento de crédulo anonimato, se acabando na bagaceira cabulosa de fim-de-festa-e-fim-de-mundo de um Carnaval qualquer do meu obscuro passado. Em close! Em rede nacional! Putz.

Ótima notícia. Ótimo isso da pessoa deixar de ser lembrada por um trabalho sério e louvável para ter seu santo nome associado às imagens de arquivo da marmita do demônio pegando fogo. Decadência é a palavra que você está procurando? Senhoras e senhores, bem-vindos à minha vida.

Para tentar distrair o respeitável público, vou publicar aqui em baixo os outdoors pra ver se alguém se ocupa de reconhecê-los na rua. E de esquecer do resto.

 

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Babel

Visto da Terra, o céu é azul.
Vista do céu, a Terra e azul.
Será o azul uma cor em si ou uma questão de distância?
Ou uma questão de nostalgia?
O inatingível é sempre azul.
(Clarice Lispector / A Descoberta do Mundo)

 

Há dias em que desvio do caminho de casa, tomo outro bonde e passo pelo Carmo só pra lembrar às minhas pupilas fatigadas o quanto essa cidade é linda. Como a minha. Daqui de cima, às vezes lembro do Pelourinho, da época em que me pagavam pra fotografar os cortejos afro desfilando. Me mandavam pra cima de uma torre de tv ou pra o topo de um casarão e eu ficava lá, esperando. Se o cortejo atrasava, eu ficava lá por horas, tardes inteiras olhando os telhados, os pombos pousando do meu lado e o salitre embaçando a lente da máquina.

Quando se olha um bairro antigo de cima, você perde a noção de momento histórico. Por que, se aquela panorâmica fosse fotografada em preto e branco, ninguém saberia se datava de hoje ou de 1970 ou 1910 ou 1880. Nessas horas você entende que está de passagem, mas que aquelas paredes vão ficar um pouco mais. De cima, tudo parece pequeno, pessoas, carros, problemas, é tudo uma repetição do que sempre existiu, nossos ascendentes e descendentes  passaram e vão passar por aquelas ruas. E as ruas vão ficar. E a proximidade com aquela eternidade de cimento e pedra era sempre o início de uma letargia que me lembrava uma entrevista com um médico da NASA, explicando por que muitos astronautas enlouquecem quando voltam pra casa: “Eles perdem a noção do tempo e ficam sem metas na vida. Depois de ver a Terra do céu, o que mais uma pessoa pode desejar?”. Eu entendia. Eu aceitava. E me deixava ficar no cume do mundo por quê cedia àquela hipnose: quem chega ao topo não quer mais voltar, quem vislumbra um horizonte infinito não quer voltar à um horizonte finito, não quer caber num quadrado restrito no tempo-espaço. Cede à tentação da promessa de eternidade, a maçã de Eva, a Torre de Babel. Depois de algumas horas na torre, eu também não queria voltar.

Até que o chão trepidava forte com os tambores se aproximando e eu acordava do transe, correndo louca pra trocar a lente da máquina, toda embaçada.

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O que me mata é o cotidiano.
Eu quero só excessões.
(Clarice Lispector)

 

 

A primeira novidade do dia é que eu continuo tendo aulas. Até onde eu sei, quem frequenta escola em janeiro é o povo da recuperação. Mas eu nunca fiz recuperação e o único ganho que eu tinha nisso era não passar os primeiros dias do ano em sala de aula. Estamos em janeiro e a meta da minha vida é encontrar um outro bom motivo para não ingressar na recuperação, na repetência e nas reprovações em geral. Chego à faculdade e a segunda novidade do dia é que meu querido colega assisti-Glossip-e-lembrei-de-você hoje não sentou do meu lado, não ofereceu drops nem perguntou mais por que eu não quero acompanhá-lo ao cinema – por que eu não estou interessada, por que meu namorado é ciumento, por que você usa moccassim, por que hoje é terça-feira, por que, por que… eu continuaria esta lista indefinidamente, mas costumo resumir num não – só que hoje ele fez diferente. Apareceu na aula de mãos dadas com uma colega e disse que está NAMORANDO. Como assim, meu filho? Você não estava mendigando a minha atenção em troca do céu, da lua e das estrelas diante da faculdade inteira, tipo, anteontem? Hã? Esquizofrenia, a gente vê por aqui. E como já é o segundo caso nessa sala, minha teoria sobre o assunto é:

a) Eu atraio gente precavida. Gente que observa o meu temperamento difícil, prevê poucas chances de êxito e já se aproxima de mim com um plano B. Aí é só eu dar um espirro que eles tiram a carta dourada da manga – a-ha! não contavam com minha astúcia!
b) Eu atraio gente carente. Gente que precisa de um namoro urgentemente na veia em doses verticais sem prescrição médica nem exames de segurança – alguém me diz sim se não eu morrooooo!!!
c) Eu tenho jeito pra cupido. Não, não tenho.
d) Hipótese mais provável: eu tenho um dom! Ciganinha Miranda, trago o seu amor em 3 dias! É só chegar perto que a sua alma gêmea aparece! Ligue-jah!

Enfim, vida acadêmica é assim, a gente não aprende nada, mas se diverte. A aula começa e o professor distribui o calendário do próximo semestre, onde me foi possível antever os feriados que caem em dias de sábado (pânico!) e em dias de domingo (horror!). E o mestre ainda adianta que teremos aulas extras devido as recentes festas de Natal e Ano Novo. Claro. Afinal, estes feriados não poderiam estar previstos no calendário por que não são fixos, aliás, eles podem acontecer a qualquer momento, você está no meio do expediente e sai um comunicado institucional – por determinação do poder público, estão todos liberados a partir das 12h e hoje serão comemorados os festejos de Natal. E pronto. Ou imagino que não poderia ser diferente por uma questão de adaptação, já que meus professores já têm seus cronogramas de trabalho definidos desde o período pré-cristão e essas mudanças estruturais, a gente sabe, são lentas mesmo. Mas os alunos não concordaram e reclamaram muito. Meu colegas são assim mesmo, incompreensivos.

Aproveito o tumulto pra escapar da aula, dar uma volta no pátio e encontro por lá a aluna de Letras que me apresentaram outro dia. É um ser humano exótico que usa um óculos laranja e só veste preto com uma meia-calça lilás, fato que, por si só, já era o suficiente pra eu querer ser amiga da figura de graça, mas, além disso, ela escreve artigos sobre um tal Francisco Buarque de Holanda (quem? quem?) e eu realmente acho que a humanidade deve esticar um tapete vermelho pra gente assim. Tento alguma aproximação:
 
– Oi, tudo bem?
– Tudo.
– Aula vaga?
– Pois é, o professor não veio.
– Sei como é. O meu também não. (Mentira)
– Pois é.
– …
– …
– Mas sabe que eu bem imaginava?
– O quê?
– Que não era pra eu vir. Antes de sair de casa, tinha um gnominho no meu ombro me dizendo que hoje não ia ter aula.
– Sei…
 
(Gnominho? De onde eu tirei isso? Tudo bem que eu sou aluna de Comunicação e devo estar apta a ver gnomos, duendes e unicórnios, mas daí falar pra uma pessoa que eu mal conheço que tem um gnominho no meu ombro?)
 
– E você, escrevendo muito?
– Sim. Tinha um artigo pra apresentar hoje, pois, mas o professor não veio.
– Poxa, que pena.
– É…
– …
– …
 
(Não deixe o samba morreeeeeer, não deixe o samba acabaaaaaaar)
 
– Bom, eu acho que vou pra casa.
– E eu vou pra aula. Quer dizer, ver se vai ter aula.
– Certo, até mais.
– Até.
 
E a cada dia eu me convenço mais da minha pouca habilidade pra me relacionar com as pessoas. Tudo bem que eu não saiba lidar bem com silêncios nos diálogos e que eu também não saiba lidar bem com as palavras nos diálogos, mas, o que é isso, minha gente? Precisava chegar à lisergia onírica de um gnominho no ombro? Não, não precisava. Volto pra aula. Lá acontece um debate sobre o movimento separatista ibérico, que ocasionou a fundação de Portugal, depois a discussão resvala para o movimento que separou o Brasil de Portugal e outro que, agora, quer separar o Sudoeste e o Sul do resto do país. Participo ativamente do debate por que sou grande simpatizante dos movimentos separatistas. Se eu morasse em Portugal naquela época, também ia querer que o país se separasse da Espanha. E ia querer que a minha cidade se separasse do resto de Portugal. E que o meu bairro se separasse da minha cidade e que o meu prédio se separasse do meu bairro e que o meu apartamento se separasse do meu prédio. Claro. Os separatistas estão certos: o ser humano precisa é de espaço! Para comprovar a minha tese eu poderia renunciar à proximidade física com os meus colegas, pegar minha mochila e ir mais cedo pra casa exercer o meu direito à individualidade geográfica, mas fiquei para assistir à briga no fim do debate. Até por que são momentos como este que me fazem investir em matrícula de faculdade: seis meses de entretenimento garantido ou seu dinheiro de volta! Eu paguei inteira e quero ver até o final!

Daí voltei pra casa repensando aquela história de que eu só vivo aos fins-de-semana e que nos dias úteis eu morro de tédio. Não é verdade. Mas é quase verdade. Olhando para o meu dia de hoje, eu realmente acho que só 2/7 do meu tempo é interessante. Os dias comuns é que me matam.

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– Quer dizer que este rapazinho já conheceu o Brasil?
– Sim.
– E você gostou de lá?
– Gostei.
– E o que você mais gostou no Brasil?
– Lá, o assento dos vasos sanitários é acolchoado.
– Ah…

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O quinto andar

– Mariana, o chefe pediu pra perguntar se você se importa que de que a diretoria tenha acesso irrestrito aos seus dados. É que a empresa está implantando um novo sistema de segurança, onde ele terá acesso aos seus e-mails, telefonemas, agenda e também será instalada uma câmera em cada sala para acompanhar o movimento durante o horário expediente, mas ele precisa  do ok de todos os funcionários. Por você, tudo bem?

Por algum motivo essa pergunta hoje de manhã me lembrou a época em que eu cheguei aqui em Portugal. Fazia muito frio, eu não conhecia ninguém, não entendia nada que os portugueses falavam e a minha única chance de conversar com alguém era o msn. Graças ao horário de verão, a diferença de fuso era de 4 horas, ou seja, quando todos os meus contatos do Brasil chegavam do trabalho e acessavam o computador, aqui já era madrugada. Nesse período eu morava num albergue, num prédio muito antigo, meu quarto era no quinto andar e a sala de informática era no térreo. Fui avisada que as luzes e os elevadores eram desligados sempre à meia-noite. Quando meus contatos estariam entrando no msn.

Eu tinha três alternativas:

a) Não entrar no msn e morrer de solidão;
b) Dormir na sala de informática e morrer de frio;
c) Ficar no msn e depois, no meio da madrugada, subir as escadas de madeira de um prédio centenário até o quinto andar. No escuro.

Acrescentando um detalhe ao enredo: eu tenho medo do escuro. Sério. Eu não tenho medo de barata, nem rato, nem de fantasma, nem de ladrão, nem do Roberto Justus, nem do imposto de renda, mas tenho medo do escuro. Muito. Fobia. Eu sei, eu sei, maluquice pouca é bobagem.

No primeiro dia eu deixei o computador de lado, fui para o meu quarto à meia-noite e virei um verme no chão do fundo do poço da depressão. No segundo dia eu dormi na sala de informática abraçada a um aquecedor portátil batendo o queixo feito um cortador de grama e quase morri de hipodermia. No terceiro dia, eu não tinha outra alternativa. Eu tinha que subir as malditas escadas. Já disse que eu tenho pânico do escuro? Pois é. Já disse que eu tenho pânico, agonia, desespero, terror do escuro? Pois é. Não me pergunte como eu cheguei lá em cima.

Daí a pessoa sobe correndo, entra ofegante no próprio quarto, bate a porta e pensa: o pior já passou. Mas o pior não tinha passado. Por que no dia seguinte eu teria que subir as escadas de novo. E no outro dia também e na semana seguinte também, no mês seguinte, todo dia eu ia ter que passar pelos cinco andares daquela espiral dentada das trevas SOZINHAAAA!! SOZINHA, MEU DEUS!!! Era o mundo se acabando em fogo, pranto e ranger de dentes TODO SANTO DIAAAA!!! Mas eu não tinha outra alternativa.

Até que, um dia, eu consegui um quarto em outro endereço. E comprei um notebook. E fui embora do albergue. E a imagem da felicidade platinada era este ser humano acessando o msn de qualquer lugar, no quarto, na sala, no banheiro, na rua, na chuva, na fazenda e teclando na mesa, no chão, no colo e passando a noite on-line e dormindo com o computador no travesseiro, babando em cima e chamando de meu bem. História linda. Final feliz. Mas isso faz algum tempo. E eu nunca mais tinha pensado nesse assunto, até hoje de manhã, na reunião. Acho que toda vez que alguém me fizer uma pergunta que não me dá nenhuma liberdade de resposta, nenhuma opção, nenhuma outra alternativa, eu vou sentir esse frio na espinha de quem vai subir uma escada no escuro.

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Se existe uma coisa em comum entre minha avó paterna e eu é o fato de sermos impulsivas, passionais, mas facilmente distraíveis. Tipo: ela pode estar arrasada, na fossa, na pior, em prantos cataclíticos, daí toca o telefone – alô? – pronto, já esqueceu. Eu posso estar enfurecida, fora de mim, pronta para esganar, matar, destruir, com instintos assassinos XXL – mas, menina, que gravata feia é essa do Lula? – pronto, passou. Ela sempre foi assim, eu sempre fui assim e acho que só não temos casos de homicídio na família graças a isso.

O fato é que, estes dias, fui vítima de um roubo. Eu estava entrando num bonde quando um gajo resolveu pegar a carteira do meu bolso e sair correndo. Ninguém merece. Mesmo. É que já passei por sequestro em Salvador, apedrejamento no Rio, golpe em Barcelona, furto em Viena e tudo o que me acontece reforça a minha teoria de que, basta eu pisar numa cidade, para o alerta marginal circular: OTÁRIA NA ÁREA, OTÁRIA NA ÁREA, FAÇAM FILA, UM DE CADA VEZ!!! Pulo do bonde atrás do ladrão ladeira abaixo xingando o cara de todos os nomes, gente na rua, confusão, ele na frente, eu atrás, ele correndo, eu morrendo, vergonhosamente ofegante, até abdicar de vez do troféu São Silvestre e ir logo para o banco pra cancelar os cartões. É que minha larga experiência no assunto me diz que essas coisas devem ser feitas com urgência: ligo para o Brasil pra cancelar mais cartões, ligo para o Sef para cancelar os documentos, ligo para a escolta para procurar o safado, ligo pra minha mãe pra reclamar da vida, ligo para a Carris pra cancelar o meu passe, saio correndo em direção à delegacia para prestar queixa formal e, no meio do caminho… paro para olhar as vitrines. Sério. Viaturas em busca, gente de plantão, o mundo se acabando e eu entretida com uma vitrine!!! Por que eu faço isso? Nao sei. Condicionamento genético, suponho.

Enfim, chego à delegacia – Boa tarde, eu gostaria de prestar queixa de um roubo – Hum? – Queixa de um roubo – três policiais se aproximam, depois mais outro, depois uns curiosos e eu lá, posando de animal exótico. E eles – Um roubo? Como aconteceu isso? Aceita um copo d’água com açúcar? – Não entendi nada. Acho que, na minha costumeira delegacia da Avenida Sete, para alguém me oferecer um copo d’água com aquela cara de espanto eu teria que ir lá prestar queixa por ter sido abduzida por ET’s. Passei a tarde inteira repetindo o que aconteceu, dizendo que eu estava bem e imaginando o por quê daquela comoção toda, já que em Lisboa deve haver assaltos – talvez não naquele bairro, talvez não àquela hora, talvez não em datas ímpares, sei lá – e acho que não me liberaram logo por uma questão de entretenimento, enquanto eu continuava sentada no banquinho do Forrest Gump contando a minha história para sempre. Fui liberada já de noite, com livrinhos de telefones de emergência, conselhos e recomendações à família, quando o meu telefone toca – Olá, amiga, como você tá? – Tô ótima! – O que fez hoje? – Nada, e você? – Nada também – e saio falando sobre qualquer banalidade. Eu sei que é absurdo, eu sei que é loucura, mas quem sou eu pra contrariar a genética humana?? Ninguém, cara, ninguém…

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– Acho que você vai perder o seu avião, baby…
– Eu sei.
(Richard Linklater / Antes do Pôr-do-Sol)

Hoje, às 19:30, eu vou perder o avião. Passei a semana inteira pensando nisso. Até então, eu vivia aqui com a passagem de volta comprada. Ou seja, eu poderia ir para o Brasil quando quisesse: era só chegar no aeroporto, pagar uma taxa no balcão e pedir para me acomodorem em qualquer poltrona vaga no vôo da TAP. Simples assim. Tão simples que bastava eu ter um problema qualquer por aqui (não foram poucos) pra eu dar um chilique, pegar meu passaporte, dizer que ia embora para casa e sair arrastando a mala pela rua maldizendo o frio, as pessoas, a cidade, o país e a Europa inteira até alguém ir correndo atrás pra me lembrar da faculdade, do trabalho, do aluguel e do fato de eu não ter mais 12 anos de idade. Enfim. Não que eu desistisse, eu adiava. E nunca terminei de desarrumar a mala.

Só que a passagem expira hoje. E, de amanhã em diante, voltar pra casa significa consultar os vôos, escolher uma nova data e comprar uma nova passagem. Decisões que exigem vontade, algum dinheiro, organização, planejamento e maturidade. Na falta do resto, fica só a vontade.

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No fim da aula, meu professor resolve me emprestar um livro da biblioteca pessoal dele: um clássico precioso, obra-prima da Literatura, texto arrojado, completo, inteligente e todo escrito em alemão. Massa. Agradeço sorridente, saio da sala me sentindo a vassoura do estábulo do cavalo do bandido varrendo o chão do inferno e pego o elevador. Lá fora chove canivetes e ficam todos no saguão esperando o dilúvio passar, falando sobre qualquer coisa para matar o tempo, a tempestade, o clima, a novela e, por fim, a profissão.

O colega que queria viver de jazz abriu um estúdio para a gravação de jingles, o ator que não decolou virou produtor cultural. O ilustrador de histórias agora desenha logomarcas, moça que estudou cinema clássico edita comerciais e, por fim, meu professor, que era escritor de romances épicos virou (adivinha?) professor de Edição de Texto. Como se todos coubessem na mesma história do cara que, na impossibilidade de casar com a mulher dos sonhos, aceita noivar com a prima mais nova e menos interessante, só pra manter certa proximidade. Tudo para a falta doer menos, pra manter a porta entreaberta. Raspas e restos me interessam.

Freud chamaria isso de sublimação, mas eles chamam de realidade. Fico calada ouvindo as histórias e penso que, de certa forma, essas coisas acontecem por que a Arte é um mito democrático: todos acreditam que o grande gênio pode aparecer em qualquer lugar. Tipo craque de futebol. Para algumas profissões não existe este limbo, ou é ou não é: nunca conheci ninguém que, um dia, descobriu um dom e, de repente, virou físico quântico. Um físico quântico se constrói ao longo de anos de estudo e não depende tanto da sorte pra isso. Acho que ninguém teve notícia de nenhum astronauta que topasse vender picolé na porta do laboratório à espera de uma oportunidade, um cirurgião que vivesse esperançoso na periferia da profissão. Só na Arte o povo acredita em bilhete de loteria por que, no fundo, ninguém sabe explicar ao certo por que o talentoso A faz sucesso e o talentoso B continua nos circuitos alternativos. Diante do mistério, o êxito é improvável, mas não impossível.

É como quando você vai a uma loja e vê aquele objeto de desejo por um preço caro, mas não proibitivo. Se custasse 5 reais você pagava, se custasse 500 reais você deixava pra lá. Mas ele custa 50. Você não compra, mas não consegue esquecer o assunto.

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Antes, eu gostava do filme O Diabo veste Prada. É uma história sobre Andrea,  uma jornalista recém-formada que foi contratada pela revista de moda Runway (metáfora para Vogue) e passa por todos os tipos de assédio moral com sua nova chefe, a editora Miranda. Gostava especialmente da cena em que ela comenta sobre as suas insatisfações com um colega de trabalho e ele responde: “Querida, não faça drama. Milhões de garotas se matariam para estar no seu lugar”.

No cinema, tudo fazia sentido, tudo era engraçado e divertido, até o dia em que eu mesma me formei em Jornalismo, fui contratada por uma grande empresa de moda e tenho uma chefe que faz a personagem Miranda parecer uma mãe. Trata-se de uma companhia de recrutamento de modelos para revistas e tv: um edifício com auditórios para workshops de desfile, nutrição e estilo, com salões de maquiagem, longos cabides com roupas e sapatos, além de um andar só com estúdios de fotografia. E é aí que entro eu.

No mais, o ambiente é ótimo: homens e mulheres adultos pesando 40 quilos, elas com escarpans salto quinze e meio, eles com camisas estampadas em braile, todos afogando-se em pó campacto como se não houvesse amanhã – ainda não estamos falando dos modelos, estes são só os meus colegas – música eletrônica tocando o tempo todo, paredes cobertas de espelho, tapete vemelho em todos os corredores – o que me obriga a comentar que eu aceitaria pacificamente a hipótese do prédio ter outras funcionalidades durante a noite, mas isso não vem ao caso – telefones tocando, computadores piscando, bips bipando e eu editando fotos escondida atrás do PC para que ninguém desconfie que eu uso óculos de grau para ler. Ops, falei.

Os dias foram passando. Depois do estranhamento inicial, alguma integração: primeiro um rímel azul, depois umas botas cano-alto, depois uma saia mais curta e eu, que sempre achei que estava para a moda assim como o avestruz está para o patins, tenho que apertar a mão de Aluísio de Azevedo: realmente o ambiente errado na circunstância errada pode transformar qualquer mortal num ícone da depravação, qualquer São Francisco de Assis em um Latino, qualquer Madre Tereza em Madame Bovary e qualquer Madame Bovary em Lady Gaga. Mesmo que ele não tenha dito isso assim, com essas palavras. E o que comprova a teoria? A minha pessoa. Agora acordo cedo, dou uma lida na Vogue, intero-me de todas as notícias fúteis publicadas na rede mundial de computadores, escolho alguma coisa imoral no guarda-roupas e saio pra trabalhar. E inicio o expediente, mas não antes de ter um pit-stop de meia hora na sala de maquiagem, outro no figurinista e outro na malharia para escolher a cinta-liga do dia. Alguém chame um médico!!!

Eu disse que o caso era grave. Já fui a festas de luxo, já furei com todos os amigos para ir trabalhar, já cheguei atrasada ao aniversário do meu namorado e já domino inutilidades estéticas, como a diferença entre branco-beje, branco-marfim e branco-pérola – ou seja, incorri em todos os clichês do filme. Agora, para eu acreditar que a minha vida é um completo lugar comum, só falta algum gênio da raça querer me convencer de que, apesar de tudo, “milhões de garotas se matariam para estar no meu lugar”. E nem me olhe com essa cara por quê eu sei que você estava pensando em dizer algo assim.


Para você viveu numa caverna durante os últimos dez anos e não teve acesso aos filmes mais batidos de Hollywood, tá aí o trailler.

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