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Archive for the ‘havaiana de pau (day life)’ Category

Antes, eu gostava do filme O Diabo veste Prada. É uma história sobre Andrea,  uma jornalista recém-formada que foi contratada pela revista de moda Runway (metáfora para Vogue) e passa por todos os tipos de assédio moral com sua nova chefe, a editora Miranda. Gostava especialmente da cena em que ela comenta sobre as suas insatisfações com um colega de trabalho e ele responde: “Querida, não faça drama. Milhões de garotas se matariam para estar no seu lugar”.

No cinema, tudo fazia sentido, tudo era engraçado e divertido, até o dia em que eu mesma me formei em Jornalismo, fui contratada por uma grande empresa de moda e tenho uma chefe que faz a personagem Miranda parecer uma mãe. Trata-se de uma companhia de recrutamento de modelos para revistas e tv: um edifício com auditórios para workshops de desfile, nutrição e estilo, com salões de maquiagem, longos cabides com roupas e sapatos, além de um andar só com estúdios de fotografia. E é aí que entro eu.

No mais, o ambiente é ótimo: homens e mulheres adultos pesando 40 quilos, elas com escarpans salto quinze e meio, eles com camisas estampadas em braile, todos afogando-se em pó campacto como se não houvesse amanhã – ainda não estamos falando dos modelos, estes são só os meus colegas – música eletrônica tocando o tempo todo, paredes cobertas de espelho, tapete vemelho em todos os corredores – o que me obriga a comentar que eu aceitaria pacificamente a hipótese do prédio ter outras funcionalidades durante a noite, mas isso não vem ao caso – telefones tocando, computadores piscando, bips bipando e eu editando fotos escondida atrás do PC para que ninguém desconfie que eu uso óculos de grau para ler. Ops, falei.

Os dias foram passando. Depois do estranhamento inicial, alguma integração: primeiro um rímel azul, depois umas botas cano-alto, depois uma saia mais curta e eu, que sempre achei que estava para a moda assim como o avestruz está para o patins, tenho que apertar a mão de Aluísio de Azevedo: realmente o ambiente errado na circunstância errada pode transformar qualquer mortal num ícone da depravação, qualquer São Francisco de Assis em um Latino, qualquer Madre Tereza em Madame Bovary e qualquer Madame Bovary em Lady Gaga. Mesmo que ele não tenha dito isso assim, com essas palavras. E o que comprova a teoria? A minha pessoa. Agora acordo cedo, dou uma lida na Vogue, intero-me de todas as notícias fúteis publicadas na rede mundial de computadores, escolho alguma coisa imoral no guarda-roupas e saio pra trabalhar. E inicio o expediente, mas não antes de ter um pit-stop de meia hora na sala de maquiagem, outro no figurinista e outro na malharia para escolher a cinta-liga do dia. Alguém chame um médico!!!

Eu disse que o caso era grave. Já fui a festas de luxo, já furei com todos os amigos para ir trabalhar, já cheguei atrasada ao aniversário do meu namorado e já domino inutilidades estéticas, como a diferença entre branco-beje, branco-marfim e branco-pérola – ou seja, incorri em todos os clichês do filme. Agora, para eu acreditar que a minha vida é um completo lugar comum, só falta algum gênio da raça querer me convencer de que, apesar de tudo, “milhões de garotas se matariam para estar no meu lugar”. E nem me olhe com essa cara por quê eu sei que você estava pensando em dizer algo assim.


Para você viveu numa caverna durante os últimos dez anos e não teve acesso aos filmes mais batidos de Hollywood, tá aí o trailler.

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Passárgada

O problema é que eu nunca tive pra onde voltar. Pense comigo: a gente sabe que quase todo mundo que mora em Salvador nasceu em outro lugar – numa cidade de interior, num distrito, numa beira de estrada qualquer. Daí o cara cresce e vai morar na capital, mas basta ter um feriado, um São João, um batizado-de-cachorro-louco pra ele querer voltar lá, rever a família, os amigos, festejar os velhos tempos e, depois, retornar de Passárgada batendo no peito e dizendo que aquele sim é lugar bom pra se viver. E eu me perguntando: se tudo isso é verdade, então por que raios o cara não vive lá?

Mas essa novela é antiga. Quando eu estudava no colégio primário, a volta às aulas era o reinado dos imigrantes interioranos saudosos do paraíso perdido. Horas e horas de relatos mirabolantes sobre as férias na cidadezinha não-sei-de-quê, que fica não-sei-aonde, um desses lugares que eu não conhecia e, provavelmente, não iria conhecer nunca. Daí, se um coleguinha dizia que em Cabuçu só tem peixe de duas cabeças, que em Paramirim só tem árvore de mil anos, que em Tabocas do Velho Brejo tem lobisomem, saci, caipora, enterro de anão e máquina de dinheiro, só me restava acatar, afinal, quem ia lá pra conferir? Na faculdade, a coisa piorou. Era fulano ter um problema, uma nota baixa, uma unha quebrada e pronto: voltava para a casa dos pais pra chorar suas mágoas no tal oásis bucólico no fim do mundo com direito a ovações de filho pródigo e bandinha tocando no coreto. Ou, se o recall de prestígio andava baixo na capital, era hora do cidadão viajar e retornar destilando novidades – o fim de semana foi ótimo, muita festa, muitos amigos, namoros e aventuras bombando lá em Boa Vista do Tupim enquanto vocês estavam aqui, levando essa vidinha insossa – mesmo que não fosse necessariamente com essas palavras, mesmo que não fosse necessariamente verdade. Todo mundo fazia isso, menos eu, afinal, eu ia fugir pra onde, meu Deus?

O problema é que eu nasci em Salvador, cresci em Salvador, passei as férias nos arredores de Salvador, ou seja, meu território era o quintal de todo mundo, conhecido demais, pisado demais – nenhuma aura de mistério, nenhum fato desconhecido que eu pudesse aumentar, piorar e distorcer com toda a minha capacidade criativa. Afinal, se um peixe de duas cabeças resolvesse aportar na praia de Amaralina, isso já teria dado no jornal, no Bocão e no Varela. Enfim, um talento desperdiçado.

Daí, pra poder contar que a minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, o jeito é viajar. E alguém que já nasceu numa capital tem dificuldades de transformar a gran-urben-natal num potinho perdido o mapa, mas consegue: viaja pra longe, monta residência do outro lado do oceano e já pode mentir à vontade, certo? Errado.

Errado por que a capital em questão é Salvador e nada que eu invente vai ser mais absurdo do que a versão real. E é só dizer que eu nasci numa cidade onde o instrumento musical típico tem uma corda só, onde existe uma praça chamada Terreiro de Jesus, onde as vésperas de feriados são enforcadas e os nativos são capazes de gastar até três salários mínimos num abadá de Carnaval para a história ganhar tons apoteóticos de lenda urbana. Entendem? E cá estou eu, de novo, sem oportunidade de dar vazão a minha prodigiosa e recalcada capacidade imaginativa, já que é só contar a verdade pra ver o queixo do povo rolando no chão. Tédio.

E o pior nem é ser tolida desta oportunidade única de mentir descaradamente. É não inventar nada e ainda ter que ouvir essa gente perguntando desconfiada: mas se tudo isso é verdade, então por que raios você não vive lá?

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Quando eu penso que já vi tudo nesta vida, aparece um colega meu de faculdade pichando a cidade inteira com a frase Pedro procura Inês. Quis saber por fontes oficiosas o que estava acontecendo e explicação veio antecedida por uma rápida contextualização político-cultural: aquela era um referência a um fato acontecido em Portugal nos tempos do reinado, quando o então príncipe D. Pedro I apaixonou-se por uma mulher sem sangue azul, a Inês de Castro. O pai de D. Pedro, para evitar problemas diplomáticos, exilou Inês num castelo perto da Espanha, mas o cara não desistiu da moça. Daí o rei não viu outra alternativa se não mandar assassinar a plebéia, por que, como todo mundo sabe, na briga do mar com o rochedo quem se acaba é o camarão. Pedro, desinformado, continuava a procurá-la e, quando soube do acontecido, ficou revoltado: arrependeu-se de não ter enfrentado o pai antes, levou o cadáver ao reino e obrigou toda a corte a uma cerimônia de coroação e beija-mão à rainha morta. Episódio verídico que entrou para os Lusíadas, de Camões.

Depois deste parêntese histórico, a fofoca em si: meu colega havia namorado durante muito tempo com uma Inês, sendo conhecido por ser um namorado ciumento e chato. Daí, quando a Inês desta história resolveu tirar o cavalinho da chuva e amarrar em outras paragens, o cara endoidou: rabiscou os muros da cidade toda e até fez uma página na internet para falar sobre sua dor de cotovelo, suas saudades, coisa e tal. Ou seja, ao invés do cara guardar o arrependimento dele e ir sofrer calado num rancho fundo bem pra lá no fim do mundo, o cidadão faz um blog aonde todos possam opinar sobre o seu infortúnio, lamentar, dar tapinha nas costas. Bem, eu imagino que esse tipo de comunicação nem seja usado para mobilizar a piedade alheia, mas só obter um feed-back, tipo um eco da própria consciência, onde todo mundo lê e comenta: cara, a culpa é sua, você foi irresposável, você merece tudo o que está passando e a gente só está aqui se solidarizando por que gostamos de ver a justiça sendo feita. O que pode ser mais compreensível?

Eu compreendo. E, na verdade, só lembrei dessa história do Pedro por que cheguei do serviço agora e sentei decidida a dissertar sobre o meu novo e cansativo trabalho, mas daí lembrei que havia publicado no Orkut as fotos da última viagem. E concluí que, necessariamente, uma coisa contradiz a outra. Afinal, não dá pra posar ao lado da Fontana di Trevi e, no dia seguinte, chegar em casa com cara de paisagem maldizendo a minha situação financeira, os meus subempregos de segunda a segunda até as 21 horas e a minha geladeira cheia de garrafas d’água sem ouvir: cara, a culpa é sua, você foi irresposável, você merece tudo o que está passando e a gente só está aqui se solidarizando por que gostamos de ver a justiça sendo feita. Eu sei, eu sei, pode bater por que eu mereço.

Então, hoje não me sinto no direito de reclamar da vida, o que me tole do meu assunto predileto: reclamar da vida. Acho que só vai me restar recomendar o blog-muro-de-lamentações do Pedro, afinal, ele está arrependido. E, eu, nem isso.

http://www.pedro-procura-ines.blogspot.com

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Aula II

– Epa, estou a precisar de uma imagem para este editorial. Algo poluído, denso, algo porreiro. Em preto e branco. Acaso, dúvidas?

– Bem … eu tenho, quer dizer… fotografar em PB é como pedir um músico para compor com duas notas, é jogar com duas peças de xadrez. Talvez a gente esteja empobrecendo o que poderia ser rico e…

– Olha, gaja, pois que somos pobres. Só dois olhos, só duas pernas. Pareço incompleto sem um terceiro braço? Duas cores. E não se está a falar mais nisso.

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Limítrofes

– Professor, há como indicar uma bibliografia para este assunto dado?
– Sim meu caro, mas, infelizmente, apenas em idioma estrangeiro. Há problema?
– Não.
– O rapaz prefere em francês, italiano ou alemão?
– Tanto faz.

Diálogos como estes no fim da aula me dão a medida exata do abismo intelectual entre eu e os meus colegas. E me fazem crer fervorosamente que as minhas boas notas devem-se a mais autêntica evidência da generosidade divina. Amém.

Como prova de uma fé inabalável no poder do milagre, este semestre a mobral aqui matriculou-se em dois cursos, ou seja, pega mais matérias do que qualquer aluno normal. É que uma pessoa andava sem muitos problemas na vida e resolveu encomendá-los em atacado. Metade das matérias são em Jornalismo, metade em Edição de Texto – em edição de quê? – Edição de Texto, aquele curso direcionado a quem não foi cético-capitalista o suficiente pra cursar Publicidade, nem hippie-romântico o suficiente pra cursar Artes. Pra quem quer ser editor – aquele cara que recebe pilhas de material artístico todo dia, lê, analisa, separa o joio do trigo e publica o joio.

Hoje foi o segundo dia de aula. Curioso estudar numa classe limítrofe. Notei que meus colegas, além dos óculos de acetato e do casaco Adidas, possuem outra coisa em comum: um projeto na gaveta. Um projeto de filme, de livro, de exposição, de bomba nitrogenada, de qualquer coisa que continua lá, na eminência. Se esses projetos tivessem sido tirados da gaveta para a vida real, esses alunos estariam cursando Cinema, Literatura, Artes. Se tivessem sido tirados da gaveta para o lixo, estariam cursando Direito, Engenharia, Medicina. Mas se a pessoa insiste em deixar um projeto na gaveta, não tem jeito: é colocar os óculos, vestir o casaco e fazer uma matricula lá.

Quando sobrar uma vaga.

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Burocratas

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
(Drummond de Andrade / Confidência do Itabirano)


É nessas horas que dá vontade de voltar. Pelo menos por uns cinco minutos. Depois de uma discussão de meia hora com seu professor por motivo acadêmico-burocrático-idiota, onde você nem ele resolvem nada, você sai com a sensação de que, além de não resolver nada, ganhou um inimigo e vai ter que rebolar pra passar na matéria. Massa. Você precisa desabafar. Desce as escadas, vai para o pátio enfurecida e encontra os colegas. Todos norte-europeus. Todos educados, arianos que não falam nomes feios, não usam hipérboles desabonadoras e nem dizem que vão matar o professor, amordaçar os funcionários, quebrar as salas de aula e destruir a faculdade toda até o prédio virar arte moderna. Não, essa gente não me entende.

Para não bancar a subdesenvolvida primata urrando na jaula, não digo nada. Volto pra casa com isso entalado. Aliás, sempre volto com alguma coisa entalada, uma grande alegria ou uma grande tristeza, por que essa avalanche diária de sentimentos extremados é herança latina maledita, não têm lugar nestas terras civilizadas. Onde o povo é sóbrio e ponderado. Onde faz frio por fora e por dentro, nas mãos e na alma.

A burocracia é isso: quando as palavras precisam passar por triagem antes de vir à boca. E espontaneidade é anarquia involuntária. Todo dia, carimbo e autentico minhas frases mais bobinhas. E nunca pensei que bater numa mesa para emendar uns dez palavrões pudesse fazer tanta falta.

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Sexta-feira:

– Bom dia, a lavanderia fecha aos domingos, senhor?
– Não.

Domingo:

Eu carregando quilos de roupas e a droga da lavanderia fechada.

Segunda-feira:

– Meu caro, estive aqui em vão ontem. O senhor não disse que a lavanderia não fechava aos domingos?
– Pois. Se nem chego a abrir, por que haveria de fechar?

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Cassino

As pessoas não nascem grandes. Os vícios também não. Primeiro, um amigo pede pra você parar. Depois, outro diz que isso pode te prejudicar, que pode terminar mal, mas você já começou e não quer ouvir mais ninguém. Quando se dá conta, você já está morando ao lado do cassino, passando noites loucas à frente da roleta, frequentando aquele ambiente aonde o uso de qualquer equipamento eletrônico pode ocasionar multa e\ou detenção. Tudo conspira contra, mas você não desiste. E continua fotografando por lá assim mesmo.

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Num dos restaurantes, o chão é móvel como um disco de vinil. Os círculos de mesas giram em sentidos contrários.

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Um dos andares de jogos eletrônicos, onde há exposições, bares, shows e mais de cem máquinas.

Extravagância é isso: o povo fumando sobre o chão de carpete, garçom acendendo vela com nota de um dólar e uma enorme escada rolante que vai direto do térreo à cobertura – uma ascensão rápida e sem etapas que deixa os clientes, literalmente, nas alturas. Extravagância é o chão ir se iluminando dois metros à sua frente quando você anda e, mesmo assim, você não andar olhando para o chão. É jantar debaixo de um lustre do tamanho de um carro e, mesmo assim, não comer olhando para o teto. É comprar fichas, fazer apostas e ir embora antes da primeira rodada. E entrar no táxi argumentando que o melhor do cassino é aquele antepasto de gengibre e funghi. Puro glamour.

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Subst. Fem. (grego sundrome, -es, reunião) Significa uma tendência ao acúmulo voluntário de grandes quantidades de materiais inúteis em determinado local.

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Exemplo: mudar de país com apenas uma mala e, em pouco tempo, acumular o suficiente para preencher uma pick-up.

Especialistas garantem: há cura.

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Eu não espero pelo dia
em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas
possíveis sem juízo final.
(Caetano Veloso / Fora da Ordem)


(Polar Bear / Coleção National Geographic Kids)

(Polar Bear / Coleção National Geographic)

 

A nova coleção de bichinhos de pelúcia da National Geographic é o máximo. O conceito é o seguinte: produzir brinquedos que tenham semelhança com a realidade. Afinal, como a gente sabe, o Snoopy não se parece com um cachorro, o Garfield não se parece com um gato e, se você apresentar aos seus filhos o Zé Colméia, eles jamais vão reconhecer um urso no zoológico. Os personagens humanóides são ótimos, mas deixam as crianças confusas. E com referências fantasiosas, estereotipadas, distantes da realidade.

E crescer é isso: chegar mais perto da realidade. Por exemplo, há seis meses atrás, concluí que o meu entendimento sobre certa espécie exótica – a espécie humana – estava a quilômetros da realidade. Talvez estacionado no degrau Feira das Nações. Lembra daquele evento da escola onde cada classe representava um país, montava uma barraquinha com comidas típicas e dançava uma música do lugar? Pois é. A turma da Rússia usando gorro, a turma do México dançando com maracas e o povo da China oferecendo rolinhos primavera. Minha curta compreensão sobre a diversidade humana estava neste estágio até hoje – no evento que os colégios promovem para aumentar a nossa cultura geral e nos lembrar que o mundo não se encerra no quarteirão da nossa casa. Só que o tempo passa, a gente sai da escola, vira adulto e nada muda. Nosso mundo continua se encerrando no quarteirão da nossa casa.

Até o dia em que a pessoa vai morar em Ameixoeira. Um bairro recém-construído para abrigar uma multidão de imigrantes recém-chegados – de onde? – de qualquer lugar. Você chega do trabalho e tem um vizinho queniano acendendo uma fogueira na calçada, um grupo de romenos armando uma tenda mais à frente, chilenos comprando mantas, mulheres de burca estacionando seus Mercedes e uns primos barburdos do Bin Laden trazendo seus 352 filhinhos para brincar no parque. Meu prédio fica exatamente entre o condomínio angolano e o cigano, uma zona de fronteira. Fica em frente a uma praça infantil – que parece um vídeo-clipe da UNICEF – e ao lado de um café – que não deve nada aos anúncios da Benneton. Aonde está o Toscani que não vê isso?

E, no meio de tanta diversidade, uma brasileira. E ninguém entende mais de imigração e diversidade do que os brasileiros, certo? Errado. A gente não sabe nada sobre isso. Quem sabia eram os nossos bisavós! Quando a gente nasceu, as raças já estavam misturadas, todo mundo já falava a mesma língua, usava garfo, faca e calça jeans. Já eram todos da mesma nação. Daí por que  hoje você senta, pede uma esfiha, uma Coca-Cola e um petit-gâteau sem achar que está fazendo uma grande absurdo gastronômico. Um momento histórico 300 anos à frente de quem acabou de sair de sua tribo/cidade, ainda fala o seu dialeto/idioma e parece não ter nenhuma intenção de flexibilizar seus costumes. Ainda. Os indianos com seus véus, os quenianos com seus torços, as polacas com seus coques, como se toda pessoa que nascesse em Salvador saísse pra trabalhar vestido de capoerista ou baiana de acarajé. Culturas genuínas. Uma injeção de realidade que faz as minhas referências anteriores parecerem com os bichinhos de pelúcia bem-intencionados.

Adoro morar em Ameixoeira. Adoro ver o mapa mundi ficar pequeno debaixo da minha janela. E adoraria dizer que esse ambiente de multiplicidade cultural me faz acreditar na tolerância, na justiça e na integração planetária ao som de We are the world, mas não é bem assim. Os grupos humanos – essa espécie de origem primata – encontra-se em lento processo de evolução. Em outras palavras: a paz ligou e mandou um abraço. Mesmo em nações desenvolvidas, o contato direto entre povos diferentes segue o padrão ancestral: incluindo a delimitação de territórios, a criação de lideranças, a troca de manufaturas e – eventualmente – as guerras. Uma prática antiga e inútil que o homo sapiens preserva consigo, assim como o cóccix, o apêndice e o dente do siso.

Assim caminha a humanidade. Não temos petróleo, não temos ogivas e, mesmo assim, uma miniatura de guerra mundial vem esquentando o clima por aqui. Por religião, por política, por espaço, por dinheiro. Por desavenças milenares que amarelam nos livros história, por heranças de ódio, revanche e separatismo. Não importa. Depois dos ciganos fazerem arrastão pelo mercado (comigo dentro), dos colombianos quebrarem as lojas (comigo dentro) e dos nigerianos apedrejarem os ônibus (comigo dentro!!!), achei que era hora de cair fora. Comuniquei à vizinhança e todos compreenderam sem alarde. É que emigrar para fugir de uma guerra não é novidade para ninguém por aqui.

Hora de arrumar as malas. Outra vez. Por que a Feira das Nações de gente grande é diferente. Hora de pesquisar outros bairros, outra vizinhança, outro modo de vida. Quando se precisa entender a cultura do outro para sobreviver é que a gente aprende de vez a olhar mais adiante. E o mundo não se encerra mais no quarteirão da nossa casa.

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