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Archive for the ‘havaiana de pau (day life)’ Category

Tudo o que é verdadeiro,
tudo o que é respeitável,
tudo o que é justo, tudo o que é puro,
tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama,
se alguma virtude há e se algum louvor existe,
seja isso o que ocupe o vosso pensamento.
(Filipenses 4:8)

Se houve uma coisa que me marcou neste semestre no mestrado foi uma frase de Perelman, na aula de Retórica: “Mais importante do que saber quais são as suas prioridades, é saber em que ordem você as coloca”. Sim, porque, graças à criatividade humana, as pessoas têm muitas prioridades. Por exemplo, em toda virada de ano a gente promete muitas coisas: parar de fumar, ler mais livros, fazer uma atividade física, ganhar mais dinheiro, iniciar novas amizades, resgatar as antigas, visitar a Grécia, fazer coleta seletiva, plantar uma árvore, rezar pelas baleias – tudo bem, tudo bem, são todos desejos sinceros. Mas, o que vem primeiro?

Num jornal também é assim. Para conhecer a filosofia de uma editoria, nem é prioritário analisar que matérias compõe a edição – de maneira geral, todos publicam os mesmos assuntos. Importante é saber em que ordem as notícias entram na página. A gradação de assuntos é decisiva, é o caminho que alguém utiliza para chegar a determinado lugar. Sim, os jornais sabem aonde querem chegar. E a gente? Nem sempre. Enumerar prioridades é uma tarefa que exige um elemento precioso da nossa cognição: foco. Clareza de objetivo, meta, alvo. E a falta deste mesmo elemento precioso também pode ter muitos sinônimos, sendo que um deles leva a alcunha de: Síndrome do Eu Mereço.

Identifiquei os primeiros sintomas desse mal epidêmico num colega meu. Certa vez ele arranjou um emprego muito ruim por um salário muito bom. Ele não gostava da atividade, não gostava do lugar, não gostava dos colegas, mas a remuneração era excelente e ele foi ficando. A idéia era fazer uma poupança, comprar um carro ou algo assim. Ficou lá por dois anos e saiu sem um tostão no bolso. O motivo? Sindrome do Eu Mereço.

Era assim: ele labutava muito e, no fim de semana, era hora de compensar. Oferecer a si mesmo mimos e extravagâncias que ele, certamente, não precisaria se estivesse feliz no trabalho. Se voltava exausto na sexta-feira à noite e, no caminho de casa, tropeçava numa vitrine qualquer, o estrago estava feito: perfume importado em promoção? Bem, eu trabalho num lugar que eu odeio, então, eu mereço. Computador Mac Duo Core? Eu dou duro para isso, ora, eu mereço. Celular que filma, fotografa, toca música, acessa internet, passa fax, faz suco de laranja e até telefona? Depois de tanto sacrifício, ah, nada mais justo. Daí o contrato se encerrou e me liga ele lamentando os dois anos desperdiçados num lugar que ele não gostava, fazendo o que não gostava, com pessoas que ele não gostava. Pois é, o tempo não volta. E o fato dele estar me ligando de um celular caríssimo, convenhamos, não muda nada neste contexto.

Nenhuma apologia a uma vida franciscana, nenhuma campanha contra pequenos arroubos financeiros – nada melhor para a saúde do que uma boa dose de irresponsabilidade em aplicações homeopáticas:  fazer toda semana algo ótimo que possa resultar em consequências péssimas. Recomendo.

A questão nem é essa. É a falta de foco. É quando a falta de objetividade faz a pessoa negociar a própria felicidade por outra coisa, trocar seus dias por outro benefício qualquer. É selar um contrato de risco com o único cidadão que não aceita contratos, não faz trocas e nem sabe negociar: o tempo. Ninguém ensinou contabilidade para este cara.

Não importa o quanto a nossa vida esteja sendo dura: a Síndrome do Eu Mereço só acontece quando a gente perde o foco. E deixa de enumerar o que é importante, quem é importante e qual o degrau de importância de cada coisa. Atualmente, tarefa difícil para quem é geminiano, tem poucos recursos e muitas decisões a tomar. E não pode colocar prioridades no fim da fila. Não pode selar tratados com o tempo. Quando o sócio não é de confiança, o jeito é ficar de olho aberto. A gente nunca sabe quando ele pode encerrar o contrato.

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O telefone tocou. Desespero. E nem deu tempo de correr. O meu novo trabalho é o seguinte: circulo num shopping fardada e maquiada para promover os serviços telefônicos de uma holding. Só isso. Eu não posso vender celulares aos clientes, eu não posso vender créditos aos clientes, aliás, eu não posso nem informar as horas aos clientes por que qualquer atividade de cunho mental me é vetada. Tenho que sorrir e pronto. Além de circular, às vezes eu vou ao stand, que fica em frente a um supermercado. Zona perigosa. É que, por algum motivo, o povo daqui acha que t-o-d-a-s as pessoas que andam fardadas num raio de 1 km de distância de um supermercado trabalham só e unicamente para o supermercado. E te puxam pelo braço fazendo perguntas, bradando pelos direitos do consumidor, te acusando de propaganda enganosa, te arrastando para a prateleira tal para mostrar não sei o que que está pelo preço não sei qual enquanto eu sorrio desesperada tentando fugir e levantando uma legenda enorme onde está escrito: 1-eu não trabalho para o mercado; 2-eu não sei onde fica a sessão de laticínios; 3-eu não sou a moça do cartaz. Sim, por que, além de tudo, só uma mente insana poderia enxergar alguma semelhança entre mim e a garota propaganda do supermercado. E o problema é justamente este: o mundo está repleto de mentes insanas.

Em alguns minutos, sou resgatada do stand e enviada de volta aos corredores. Sã e salva, fico posando de outdoor ambulante a tarde inteira e, no fim do dia, depois de percorrer a São Silvestre em círculos, calculo que, daqui para setembro, já terei dado a volta ao mundo.

E é aí que a pessoa compreende por que o ordenado para este trabalho acéfalo é uma pequena fortuna: por que ele é muito chato!!! E uma criatura que topa um sacrifício desses (sorrindo!) merece mesmo grandes recompensas. Em dinheiro. Euros portugueses, por favor.

O fato é que o salário de agosto poderia financiar o pagamento de contas, a aquisição de bens supérfulos e a visita da cucaracha ao seu habitat natural. E passar o Natal em casa seria ótimo. Tudo se eu sobreviver a um mês de rímel, blush e simpatia andando em volta de um mesmo ponto feito irrigação de jardim. E conseguir voltar ao normal depois disso.

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E, a cada julho,
não sei se suportarei o próximo agosto.
(Caio F.)

Tem gente que acha que decadência acontece quando a pessoa perde a grana, quando perde o poder ou deixa de ser famosa. Bobagem. Acho que ela só acontece quando o cidadão, por qualquer motivo, tem que abandonar o senso do ridículo. Por exemplo: digamos que uma criatura passe a vida inteira trabalhando de maneira séria, para empresas sérias, que lapide um currículo de três páginas e, na sua atual entrevista de emprego, ela precise dar uma voltinha. Isso mesmo: que a empresa empregadora peça para a pessoa dar uma voltinha na sala para avaliação visual. Pronto, isso é decadência.

Meu amigo, minha amiga: se você chegou a este estágio da sua existência profissional, alerta máximo – depois disso, você nunca sabe o que mais eles podem pedir. Dar três pulinhos? Imitar um bicho? Não arrisque. Na dúvida, apresse a sua aposentadoria.

Ontem saí da entrevista lembrando de uma conversa antiga com uma colega jornalista que, certa vez, caiu do Caderno de Cultura para o Populares. O mundo se acabando, o mar pegando fogo e ela dizendo – não faz mal, amiga, eu vou me adaptar. Isso não é decadência, é versatilidade.

Concordo. E acrescento: versatilidade é passar o julho inteiro desfilando no mais alto dos saltos pela Europa Oriental e terminar o mês dando uma voltinha na entrevista de emprego. Claro. Isso é versatilidade. Isso é flexibilidade, é capacidade de reformular perspectivas e adaptar-se a novos ambientes. Gosto disso. E o meu nome é Poliana.

Acho que a única coisa que me falta acontecer agora é eu passar na tal seleção. Sim, eu sou o único ser humano do universo que faz entrevista de emprego e, muitas vezes, torce para o telefone não tocar. Sabe quando você precisa perguntar algo desagradável a alguém, faz a pergunta por obrigação e tem vontade de sair correndo na hora da resposta? Pois é. Eu deveria ter corrido ao invés de dar a voltinha.

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CV

Sol no céu, dia lindo e eu aqui imprimindo currículo de novo. Chato. Coloca papel, digita enter, retira a página, grampeia, coloca papel, digita enter, Tempos Modernos for ever. As dificuldades para me fixar num emprego variam: a) por que eu não me agrado da atividade ou b) por que eu não me agrado do salário ou c) por que eu não me agrado do chefe ou d) todas as alternativas anteriores. Bem, ninguém disse que seria fácil.

Daí, volta e meia recomeça a panfletagem de currículos e o agendamento de entrevistas que, depois de um tempo, parecem todas iguais. Você chega lá com cara de conteúdo, uma figura te recebe e oferece um café, depois o/a dono/a da bola aparece para fazer as perguntas: experiências anteriores, documentação, formação acadêmica… sono. No dia seguinte, o telefone toca – ou não. Daí vem a proposta financeira e é a sua vez de dizer que sim ou de dizer que, infelizmente, não será possível aceitar a remuneração oferecida por que você recebeu uma proposta irrecusável da empresa concorrente. Mesmo que isso não seja verdade.

Depois é voltar para a impressora e gastar mais uma resma de papel. Por que quem trabalha de graça é relógio e quem trabalha quase de graça é besta. Aliás, toda vez que recebo uma destas propostas de trabalho indecorosas, penso na importância da criação de um mecanismo que nos permitisse eletrocutar a pessoa do outro lado da linha. Nada violento, apenas uma descarga educativa que ensinasse o indivíduo a pensar com mais cautela antes de requisitar um profissional por salários irônicos. Mas a tecnologia nunca está onde se precisa dela.

Na falta deste importante equipamento pedagógico, basto-me em dizer não. Não, obrigada. Princesa Isabel mandou lembranças.

Agora senta e escuta porque que hoje eu resolvi despejar minha rabugice na internet e vou contar mais uma: a dos classificados de emprego. Anúncio número um: precisa-se profissional de nacionalidade européia capacitado para trabalhar sob pressão, executar multiatividades e atender a prazos mínimos. Ou seja, o indivíduo passa por assepsia étnica, assédio moral e acúmulo de funções antes mesmo de se candidatar! Isso é que é agilidade coorporativa. O anúncio seguinte parece menos taylorista: precisa-se de jovens de 20 a 30 anos para loja de perfumaria, favor enviar currículo com foto de rosto, perfil e corpo inteiro. Esse até é razoável. Para uma casa de meretrício, claro. E nem pediram pra mostrar os dentes.

O último se superava: precisa-se de rapaz entre os 25 e 35 anos, com boa aparência, não-fumante, simpático, trabalhador, educado, com conhecimentos sobre comércio e atualidades para trabalhar em empresa de equipamentos hospitalares. Ah, bom. Eu já estava achando que era pra relacionamento-sério-com-moça-de-família.

Os anúncios portugueses são uma piada. A gente ganha pouco, ou nem ganha nada, mas se diverte.

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Um chefe meu dizia que jamais deveríamos começar uma conversa dando explicações. Não importa o quanto estivéssemos errados, atrasados, enrolados, o melhor era sorrir com dignidade e puxar qualquer outro assunto banal antes de falar sobre o que interessa. Aprendi rápido – até por que, no meu caso, estar errada-atrasada-e/ou-enrolada faz parte do perfil – e cá estou eu agora falando sobre meu ex-chefe ao invés de dizer logo a razão do meu sumiço…

Veja bem, meu bem: meus sumiços da rede nunca acontecem por razões usuais. Este ano, por exemplo, passei o mês de maio inteiro desaparecida por falta de… (internet? energia? computador?)… por falta de mesa. Quando se mora num lugar sem móveis, acessar a internet significa sentar no chão para teclar num notebook também no chão. Pois é, as costas doem. E isso de ter a coluna vertebral num ângulo de 45 graus só é prática popular lá pelas bandas de Notridame.

Daí eu sumi. E achei que este problema seria o bastante. Mas agora há outro: falta de espaço… (na agenda? na memória? no HD?)… falta de espaço no chão. A casa está lotada. Atualmente somos 9 e, quando Gal chegar, seremos 10. Numa casa de 50 metros quadrados, cada um tem direito a 5 metros quadrados, ainda que isso inclua a cozinha e o banheiro. Ou seja: não estique o braço para não acertar ninguém.

Cada um trouxe consigo três malas, um colchonete e, ocasionalmente, violões, pranchas de surf, gaiolas, cavaletes de pintura e outras cozitas que não calculo por que tenho dificuldade de trabalhar com valores altos. Nenhum problema quanto ao fato do apartamento ser pequeno, haver objetos demais e as pessoas ficarem grudadas umas nas outras. O problema é as pessoas ficarem grudadas em mim! Atualmente, a compra de pasta de dente da casa se dá aos litros e a produção de lixo equivale à da Mc Donalds. Socorro!

Entre residentes e visitantes, quatro chegaram da Irlanda, uma da França, dois do Brasil e o resto já estava morando por cá (Portugal), mesmo nenhum sendo português. E você entende que está vivendo numa comunidade cosmopolita quando cada shampoo do seu banheiro tem o rótulo num idioma diferente. Enquanto representante da ONU num perímetro repleto de conflitos culturais, tento promover a paz mundial: cardápio para o almoço de domingo? Não há consenso. Disco pra tocar no som da sala? Não há consenso. Filme para assistir no fim da noite? Há consenso. Mas cada um quer a legenda no seu idioma. Nova votação…

Sim, claro, por que, como em toda democracia, as decisões são votadas. Mas visitantes não votam, só residentes. Não gostou? Arrume as malas. A lavagem de pratos, chão e roupas é rotativa e todos devem participar. Não gostou? Já sabe. Ninguém, em hipótese alguma, deve mexer na comida do outro. Não gostou? Vá buscar a sua mala lá no térreo. Pulou sozinha, coitada.

Enfim, a razão do meu sumiço é essa: quem vive por aqui não tem muita chance de teclar – tranquilidade ligou e mandou um abraço. Principalmente numa república onde é necessário convocar um plebicito internacional para decidir qualquer bobagem,  os tratados de paz não duram 24 horas e vigoram interpretações pouco ortodoxas sobre as leias da física – podendo dois (dez) corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço.

Pois é, a vida na Faixa de Gaza não é facil. Não gostou? Hã? Ah, bom.

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Nostalgia

 

Carne vermelha, Nescau, feijão, frango assado, farofa, aipim, mamão, abóbora, quiabo, beterraba, banana da terra, açaí, cupuaçu, pinha, Leite Moça, moqueca, bolinho de estudante, mousse de maracujá, dendê, requeijão, tapioca, Sonho de Valsa, manga, abará, paçoca, cuscuz, leite de côco, bolo de milho, biscoito Bono.
 
Ai, que saudades eu tenho da Bahia.

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Semana passada fui fazer uma matéria na Praça de Santa Clara. Cheguei cedinho, sentei e esperei o movimento. Primeiro achei que a praça ia receber um circo: lonas e arquibancadas sendo montadas por uma multidão. Depois pressenti que estava diante do recomeço triunfal da Torre de Babel – cada grupo falando uma língua numa confusão só e a obra crescendo para cima. Por fim, me convenci de que aquilo era mesmo a Feira da Ladra: uma mistura de brechó e mercado que acontece semanalmente em Lisboa desde 1272. Velharias e artesanatos espalhados por quase 100 barracas aonde se encontra de tudo: castiçais dos tempos do império, um gramofone de manivela, o primeiro vinil de Roberto Carlos, postais de 1930, fitas cassetes de bolero, vestidos de noiva à moda renascentista e outras relíquias. Ou seja, todos os seus sonhos de consumo das três últimas encarnações num só lugar. Por preços irrisórios! Antes tarde do que nunca.

Na hora de escolher o meu primeiro entrevistado, o critério foi simples: alguém que falasse português. Quando me aproximei, o vendedor de ferragens explicou: “A feira tem esse nome por que se iniciou na região da Labra. E o trocadilho ficou. Não é por essa razão que todos imaginam”. Mas a dona da barraca ao lado entregou: “Não invente histórias, rapaz! A feira se chama assim por que era aqui que os ladrões vendiam seus roubos. Ora pois, gajo! O primeiro ladrão da feira foi você!”, todos riram. Menos eu. Como assim ladrões? Que medo.

Pois a feira havia sido reduto de piratas. Para falar mais sobre o assunto, levaram-me ao Manoel Monteiro, dono de um tabuleiro de livros, que possuía um exemplar da publicação: A História da Feira da Ladra. Não estava à venda. Argumentei, conversei, tentei negociar e, quando me dei conta, já estava sentada na calçada ouvindo uma história que, certamente, era melhor que a do livro.

Manoel Monteiro, 60 anos, vendendor de livros, português de Trás os Montes, um senhor que, quando fala, parece reunir em torno de si as atenções públicas – um jeito de quem está acostumado a microfones, câmeras e platéias. Mesmo enquanto vende os títulos, o faz com a propriedade de quem conhece cada página. Um fenômeno explicável: Manoel já foi líder revolucionário, deputado na Assembéia da República, autarca na Câmara, foi enviado à Angola durante a Gerra Colonial, viajou para a Albânia durante congressos marxistas, tornou-se referência na luta contra o fascismo e tem dois livros publicados. Desde que sua cooperativa pediu falência, ele passou a vender os exemplares de sua biblioteca pessoal na feira. Duas vezes por semana, lá está ele, acessível e bem-humorado. Sorte minha.

Como a pauta do dia era sobre a feira em si, tive que me dispersar e fazer outras entrevistas. Mas, na semana seguinte, com uma pauta de perfil na mão, não tive dúvidas: voltei ao tabuleiro de livros, onde sr. Manoel me recebeu com um cumprimento manso: “sabia que você voltaria”. Sentada na mesma calçada, copiei dezenas de páginas enquanto ele ia contando detalhes sobre as ditaduras ibéricas, os anos na África, as imigrações, os fuzilamentos, um passado sombrio que os portugueses  ainda narram com os verbos no tempo presente.

Quando nos despedimos, deixei meus contatos, um abraço agradecido e fui pensando em como trazer as lições deste passado próximo para mais perto. E também com uma sensação de ter chegado no fim da festa: às vezes penso que todas as mobilizações sociais relevantes da história se encerraram na década de 70. E que só sobrou um salão vazio para a gente varrer. Chego em casa e encontro na caixa de e-mails uma mensagem do sr. Manoel passando o link do blog dele. Uau! Uma página política atualizadíssima. Lendo um pouco e pensando melhor: ainda há muita cereja sobre o bolo.

Para quem gosta do tema, vai a bibliografia. E, para quem também acha que ainda estão rolando os dados, vai uma dica do autor: “somos tantos, porque não tomamos em nossas mãos o destino?”.
Livros Publicados:
Perder a Esperança Porquê? – Editora Centelha – Coimbra – 1982
Todas as Margens – Editora Hugin – 2003

Livros que aguardam publicação:
Os Deuses da Revolução são um tanto Obscuros – em apreciação no Círculo dos Leitores
Sei onde mora o Herberto Helder – em processo de finalização

Blog:
http://m-monteiro.blogspot.com/

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Mas eles estão lá … e eu estou aqui!
(Bukowski)

Quando a gente está se preparando para uma viagem, pensa em tudo: nos lugares que vai visitar, nas pessoas que vai conhecer, no mundo novo que vai se descortinar para nós. E só. Você nem imagina que, enquanto você vai, uma cidade que ficou para trás não pára pra te esperar. Tudo continua. Sem você.

E o Orkut é o inferno de toda pessoa que não estava lá. Seja por que viajou, se mudou, adoeceu ou por que não quis ir mesmo, não importa, o fato é que você não estava lá. Entro na internet e vejo as fotos do encontro onde todos os meus amigos se divertiram – sem mim. O aniversário do meu primo, a família toda reunida – sem mim. Meus colegas de sala num passeio de barco pelo Forte – sem mim. Casamentos, formaturas, encontros onde todo mundo se viu dançou, brindou – sem mim. E nem adianta me olhar com essa cara por que eu sei que você também foi aquela festinha ótima onde todos estavam – menos eu.

Pois é, nada como um orkut na vida de um viajante para dar a ele uma dimensão exata de quão dispensável é a sua existência sobre a Terra.

Nada contra o programa em si, ou quase nada. Enquanto estrutura, considero o Orkut uma espécie de vitrine da alma, um currículo inteligente dividido em 4 campos: o que você diz sobre você, o que seus amigos dizem sobre você, sobre o que você se interessa e quem te interessa. Em alguns casos, há também vídeos caseiros, fotos em trajes de banho, diploma scaneado, exames de raio-x, tudo o que uma pessoa quiser mostrar sobre si mesma. Pensando sobre este curioso invento, uma primeira questão é que me ocorre: a profissão de escritor biógrafo está com seus dias contados. Segunda questão: por quê razão infame a gente precisa de um programa assim?

Por que ficou impossível fazer sem ele amigos. Por exemplo: você conheceu um zé mané qualquer, bateu um papo e simpatizou. Pronto, no dia seguinte é só procurar uma criatura no Orkut, adicionar, dar uma lida sobre a vida do indivíduo para ver se aquela primeira impressão estava de acordo com uma realidade, saber aonde mora, o que faz, do que gosta, copiar o endereço de e-mail da criança e escrever marcando para assistir um filme que curte ele, no horário que ele pode, no cimena perto da casa dele. E, se for o caso, aproveitar para convidar os amigos que vocês têm em comum para irem junto. Fácil, né?

Acontece que os europeus não tem Orkut. E, cada vez que conheço alguém por aqui, me vejo na obrigação de fazer perguntas, sondar gostos, descobrir passados, anotar telefones e tomar outras iniciativas intuitivas e ultrapassadas  que dependem inteiramente da minha sensibilidade e percepção para acontecer. Ou seja: um desastre. Estamos no século XXI, o homem já foi à Lua, criou uma tv de plasma e desintegrou o átomo em milhões de infinitas micropartículas, por que raios esse povo não faz Orkut e acaba com essa vida social pré-histórica? A tecnologia nunca está aonde se precisa dela.

Pois é, uma iluminação nunca vem para todos. E se você também não conhece o programa, vai uma dica: o melhor dele não é a descrição dos perfis, são as comunidades. Não há forma conhecer melhor as preferências de alguém. Hoje, se eu fosse criar uma comunidade, ela seria assim:

Nome: Orkuteiros Anti-Sociais
Descrição: Se você entra no Orkut, responde seus scraps, sai do Orkut e volta aos seus afazeres sem nenhuma curiosidade pelas páginas alheias, se você não quer saber da vida dos outros, se você ignora solenemente os álbuns que publicam seus amigos, aqui é o seu lugar!

Esta comunidade, é claro, estaria inaugurando o meu novo comportamento virtual e seria recomendada também a todos os viajantes que tenham o mínimo de amor próprio. Unidos, teríamos um acordo de solidariedade mútua. A comunidade poderia até marcar um encontro entre os viajantes solidários em algum lugar do mundo. Todos juntos! Seria divertido. E tiraríamos ótimas fotos para publicar no Orkut.

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Domingo de sol, todo mundo na praia e eu aqui cozinhando. Quem diria, hein? Você não achou que viveria o suficiente para presenciar esta cena? Nem eu.

Fato de conhecimento público: como dona de casa eu sempre fui uma ótima amiga. Por aqui, não foi diferente. Abro as janelas, coloco para tocar um rock’in roll ótimo e sirvo biscoitos enquanto alguém lava os pratos. Levanto os sapatos e o controle remoto enquanto alguém varre o chão. Amarro o cabelo com pregador de roupa, a cintura com um avental da Marilyn Monroe, tiro fotos do povo fazendo a faxina em posições desconcertantes e ameaço publicá-las no orkut. Se o dia for chato, programo o relógio do fogão para tocar no meio da noite. Enfim, tomo iniciativas diárias para que não tenhamos uma vivência doméstica entediante. Não sei o que seria desta casa sem mim.

Mas, apesar do meu empenho em promover a boa ambiência do lar, ontem determinaram que eu teria que colaborar (mais?) com as tarefas domésticas. E que ficaria sob minha responsabilidade fazer as compras de mercado. Uma exploração, eu sei. Mas, se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, o que é que eu posso fazer?

Pego a listinha de compras e me dirijo ao Lidl, estabelecimento conhecido por seus preços populares e atendimento duvidoso. Não é exatamente um lugar bonito, não tem exatamente um público bonito, não é exatamente o lugar que eu gosto de frequentar aos sábados, mas é barato. É barato e pronto, lá vou eu para o Lidl.

Para poder usar o carrinho de compras, deposite uma moeda de um euro. Para poder utilizar sacos plásticos para as compras, deposite outra moeda de um euro. Para poder entrar com sua mochila, permita-nos revistar seus pertences. Favor manter as crianças sob controle durante as compras. Não aceitamos cartões, não aceitamos cheques, não fazemos trocas, favor não insistir. É permitida a entrada de cães e gatos no mercado – hum???

Minha listinha era sucinta: sabão, alface, morango e iogurte. Logo que saí de casa, uma observação: a primeira letra dos ítens da minha lista, se colocados em outra ordem – morango, alface, iogurte e sabão – formariam a palavra MAIS. E é claro que isso não representa nenhuma evidência lógica, além do fato de trata-se de uma mente dislexa a ler uma lista de compras. E como toda mente dislexa enxerga mensagens onde não há mensagens, a interpretação foi essa: eu deveria levar mais comida pra casa. Correto? Correto. Na verdade, outro fator também contribuiu para esta conclusão: o Lidl só vende tudo em atacado. Embalagens enomes a preços irrisórios que deixam qualquer novo cliente ficar assim, digamos: atacado.

Ataquei primeiro a prateleira dos morangos. Um caixote de dois quilos que jamais conseguiríamos consumir por inteiro, mas que estava com um preço ótimo. Depois uma caixa de cinco quilos de sabão em pó. Em seguida, um saco enorme com folhas verdes de alface e um tonel de iogurte. Na emoção do momento, somei ao carrinho outras bagatelas igualmente atrativas. Concluí que estava fazendo um excelente negócio, uma redução de custos que certamente faria diferença no orçamento doméstico. O pessoal ficaria orgulhoso. No caixa, comprei sacos plásticos para embalar as compras e ainda sobrou dinheiro – meu nome é economia! Eu sempre soube que tinha jeito para finanças e talvez fosse este o meu talento – como num time onde o cara que joga mal é mandado para o gol e acaba revelando-se um ótimo goleiro. Ponto para mim.

Depois de receber o troco, o último desafio. Ali, aos quarenta e cinco do segundo tempo, eu, a revelação doméstica do momento, tinha um último impasse, uma última questão que, até aquele exato instante, não havia passado pela minha cabeça: como chegar em casa com aqueles 15 quilos de compras para carregar se eu estava a pé?

Na trave. Tive que pegar um taxi e gastei uma fortuna. De noite, durante a prestação de contas, o sermão coletivo discorreu sobre três motes distintos:

1 – Eu havia gasto todo o dinheiro das compras do mês naquele taxi desnecessário.
2 – Ainda que partilhássemos aquela comida entre os vizinhos do prédio, do quarteirão e do bairro, ela não seria consumida em tempo hábil e iria para o lixo.
3 – Aquele saco enorme de folhas verdes continha dez repolhos e nenhuma alface.

Bem, meu único argumento era que o sabão em pó não era perecível e poderia ser aproveitado nos meses seguintes. Digno. Mas não adiantou. E já que desde ontem ninguém em casa quer falar comigo, decidi apressar a minha redenção promovendo um jantar surpresa. Sim. E do que você está rindo?

Pois foi exatamente isso que aconteceu. Passei a tarde de hoje investindo numa receita ótima: escolhi uma massa de macarrão, cobri com creme de leite, milho e outras cozitas encontradas na geladeira. Para a sobremesa, sorvete coberto com mais calda de chocolate do que a lei permite. Comprei coca-cola também. E, pronto, agora é só esperar o povo chegar. Já coloquei a massa no forno, o sorvete no congelador, a vergonha na cara e vim para a internet queimar meus poucos neurônios em sites de culinária. Isso é que é dedicação ao lar! Viva Orfélia! Amélia é que era mulher de verdade.

E por falar em queimar…

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– E aqui, ao lado da maquete do Sistema Solar, vocês têm acesso a telescópios de grande alcance.
– E dá pra enxergar alguma coisa mesmo sendo de dia?
– Sim. Os astros não são trabalhadores que operam por turno, estão lá o tempo todo. Podem olhar, se quiserem.
– Isso é uma constelação?
– Sim.
– Ah…
– Qual a maior?
– Quantas iguais a esta existem?
– Jovens, se me permitem dizer, constelações não existem de fato. O que existe é um emaranhado de astros boiando no escuro. Nós, por uma necessidade de racionalizar a realidade, é que tratamos de dividir as estrelas em sistemas, criando linhas imaginárias para lotear o infinito. Da mesma forma que dividimos a Terra em países e continentes, mesmo sabendo que estas divisões não existem concretamente. Entendam, não estamos desabonando as ciências – a astronomia, a geografia – pois estas foram criadas numa tentativa de compreender o espaço à nossa volta. Mas, enquanto conhecimento, as ciências humanas são limitadas. Visto que os próprios seres humanos classificam-se e hierarquizam-se por etnia, origem, gênero, mérito, renda e critérios diversos que não têm significado concreto. Compreendem? Enquanto essência, as estrelas também são todas iguais. São só esse emaranhado de astros boiando no escuro.

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