Dei um pulo da cadeira quando vi o e-mail. Mentira: em casa não há cadeiras. Enfim, o fato foi o seguinte: uma editora portuguesa escreveu dizendo que um texto meu foi premiado. Estavam marcando uma reunião. Esta editora procurava um autor para lançar a sua próxima publicação, eu me inscrevi e o meu sortudo nome foi o felizardo. Selecionado para escrever um livro!!! Ensandeci. Surtei. Fiquei doida.
Em pouquíssimo tempo, lá estava eu na porta da editora – óculos, agenda, cara de conteúdo. Levando em conta que o e-mail anterior ao deles era a marcação de uma entrevista de emprego para atendente, estamos falando de um progresso repentino, inesperado, inédito, fantástico, surpreendente – e adjetivos afins que me escapam agora. Nem bem entrei pelo corredor, a equipe de triagem já foi me puxando pelo braço e dando as regras do jogo – você é a Mariana? Parabéns! Escute: a primeira edição terá 500 unidades, você pode estar a opinar na capa, mas a palavra final é do editor, o material deve estar a ser escrito, revisado e aprovado até agosto, o melhor mês para lançamentos é setembro, no fim das férias, você terá que ter disponibilidade para noites de autógrafos e para fazer palestras em outras cidades depois de setembro, a assessoria de imprensa é conosco, a publicidade também, mas você pode estar a dar sugestões, você precisa começar a produzir o mais rápido possível, compreendes? – até que chegamos à sala de reunião, vários livros lançados por eles sobre a mesa, sento e pronuncio a primeira frase:
– Sim, compreendo, acho que entendi. – pronto, bastou que eu abrisse a boca e danou-se tudo.
– Espera, espera. Este sotaque… acaso és brasileira?
– Sim.
– Pois, pois!!! Não sabíamos… Aia!! Acho que estamos a ter um problema, um grande problema. És naturalizada? Quantos anos tens de residência?
– Faz um mês.
– Um mês?? Por Cristo!!! Mas o Fundo de Cultura de Portugal não patrocinaria a obra de uma estrangeira!
Como na canção de Maísa: meu mundo caiu. Nem bem comecei a acreditar que ia ganhar dinheiro, fama, status, conforto, assessores para mediar a minha comunicação com os seres humanos mortais e, não mais que de repente, no meio do caminho me aparece essa pedra aí. Nunca alguém foi tão pobre, tão rica e tão pobre de novo em apenas 20 minutos.
A reunião foi tumultuada e não deu em nada. Afinal, eu não tenho naturalidade, nem parentes portugueses, nem previsão de casamento com nenhum dono de padaria. Logo, a vaga foi cedida para o segundo lugar, certamente, um português. Agradeci pela preferência, coloquei a minha viola no saco, tirei o meu cavalinho da chuva, fui andando e pensando: meu Deus, porque a minha vida é este amontoado de clichês?
É que esta não foi a primeira vez. Em outubro, este mesmo conto ia ganhar o prêmio nacional de literatura lá da Petrobras. Eu toda confiante, praticamente de malas prontas para ir à premiação, discurso ensaiado, beca escolhida e a comissão julgadora me liga do Rio na véspera da divulgação para dizer que eu fui desclassificada.
– Mas, por quê???
– Por que só premiamos obras inéditas.
– Mas eu nunca publiquei um livro! Tudo o que eu fiz até hoje é inédito!
– Não. De acordo com as nossas fontes, a senhora tem um blog. E o conto está publicado no blog. Logo, não é inédito.
Maldita inclusão digital. Até hoje meus coleguinhas de trabalho tentavam me consolar. Dessa vez, sem tanto consolo disponível, o jeito foi pegar outro metrô e comparecer à tal entrevista para atendente. Nem lembrava mais dela. Mas aí lembrei que um balcão e um telefone para atender eram tudo que eu sonhei na vida. Desde criancinha.
Por ironia, o conto em questão nos dois episódios foi o Luxo, uma história que começa bem, fica melhor e termina mal. Logo ele, que é uma paródia sobre as pessoas que vivem na eminência, no quase. Agora fico pensando: um “quase” luxo significaria o quê? Pobreza?
Qualquer semelhança…





