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Archive for the ‘havaiana de pau (day life)’ Category

Nos anos 90, eu era adolescente e havia uma propaganda educativa na MTV com o slogan: “Camisinha, você nunca sabe quando pode precisar de uma”. E aquele anúncio me causava um profundo sentimento de inveja. Eu ficava imaginando que tipo de vida louca as pessoas levavam, por que eu conseguia imaginar perfeitamente em que tipo de situação uma camisinha poderia ser necessária. Sei lá, nunca me aconteceu de estar numa fila de banco e sentir falta de um preservativo. Minha vida devia ser mesmo muito sem graça.

Aí, ontem, eu fui procurar meu passaporte. E ele estava no porta-luvas do carro.

No porta-luvas do carro. Há meses.

Afinal, vai que estou na rua e me dá vontade de fazer um voo internacional? Resolvo emigrar e não dá tempo de passar em casa? Voltando do trabalho, sinto uma necessidade profunda e ardente de visitar alguém em Paris?

Nunca se sabe. É uma vida louca, gente.

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Há uns anos atrás, eu tive um Fiat 98. Branco, velho, ele era um sucesso entre os colegas. Só tinha um problema: meu automóvel rangia como uma motosserra amazônica desertificando o Amapá. Sim, e ele também estancava no meio da rua. Jamais saberemos o motivo. Nem os mecânicos, nem as cartas, nem os búzios desvendaram. Menção honrosa às grandes avenidas congestionadas, mas a medalha de ouro era mesmo destinada às ruas escuras, desertas e absolutamente anônimas.

– Gente, ele parou de novo. Manda uma das meninas vir me buscar.
– Certo, onde você está?
– …

O Fiat já era uma entidade ilustre quando eu entrei na faculdade. E tinha essa professora. Ela era famosa, premiada, era a imagem do êxito profissional e tudo o que eu queria na vida era que ela notasse a minha existência na sala de aula.

Acho que professor de primeiro semestre carrega uma responsabilidade que nem imagina. Por que todo calouro é um bicho assustado. Todo calouro morre de medo de descobrir que não tem talento para aquela profissão, que fez a escolha errada. Calouro só espera se sentir aceito, aprovado e tudo que eu precisava era de uma palavra de reconhecimento. Então, eu me esforcei para parecer bem sucedida.

Comecei a me vestir melhor. Passei a escrever difícil, mudei de celular, falava sobre o escritório. Mais cedo ou mais tarde ela ia perceber que estava diante de uma executiva inata. Eu era a cara do sucesso. Aí houve uma noite em que eu saí tarde da aula. O estacionamento vazio, entrei no carro e vi de longe: era aquela professora.

Fui surpreendida por um constrangedor sentimento de desonra. Eu tive vergonha do meu carro. Ele ia ranger feito uma máquina de caldo de cana na frente daquela mulher. Famosa. Reconhecida. Premiada. Tanto esforço pra nada, meu Deus. Eu tinha mesmo que sair dali arrastando meu Fiat caindo aos pedaços?

Resolvi não ligar o motor. Fingi que procurava qualquer coisa, uma estação no rádio, esperei ela ir embora. Vencida, humilhada. Ela passou, nem deu pela minha existência, entrou no automóvel dela e deu partida.

E carro dela era um Fiat.

Branco.

Velho.

Ca.in.do.aos.pe.da.ços.

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Na volta pra casa, eu passei na farmácia e comprei um protetor labial. E fui experimentando no espelho do elevador, pra ver se prestava. Aí entra uma senhorinha de coque e bengala.

– Boa noite.
– Boa noite.
– …
– …
– As coisas no seu apartamento devem estar animadas.
– Hum?
– Você está passando batom pra chegar.
– …
– Todo mundo que eu conheço passa batom para sair de casa. Você está passando batom para chegar em casa. E hoje é terça-feira. As noites no seu apartamento devem estar animadíssimas, mocinha.
– Eh…
– Juízo, hein? Boa noite.
– Boa noite.

Mariana Miranda, fazendo fama involuntariamente desde 1982.

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Mudei de médicos. E não posso deixar de achar engraçado o constrangimento dos doutores ao receber meu prontuário com indícios de envenenamento. Sentam do lado, seguram na mão, perguntam pela minha vida e sugerem uma visita da assistente social. Como lidar? Como explicar que não bebi veneno num vidrinho dourado tampouco quis dar cabo da minha existência?

Foi só uma passeata, moço. Eu estou mais pra homicida do que pra suicida.

Enfim. E já que minha única distração nesses dias é a internet, olha que legal essas montagens de cenas da manifestação mescladas com super heróis em quadrinhos. Os publicitários Alessandro Trimarco e Paulo Eugênio de Carvalho Moura que fizeram. Tem outras aqui.

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Pois é. Também não sei por que não pensei neste tipo de reforço antes.

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Viu? A gente virou até meme, rs.

mariana miranda cartaz feliciano cura eu

(Salvador, 20 de junho de 2013)

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Todo esse clima de resistência repentino – que andava meio fora de moda aqui no Brasil – voltando às ruas agora, no meio do expediente, me parece a reprise de um filme bonito que a gente não lembra muito bem como termina.

Chamo de clima “repentino” por que toda gota d’água é meio inesperada mesmo. Mês passado eu escrevia um artigo sobre o uso de mídias sociais na revolução política do Egito e tudo me parecia absolutamente distante. Talvez ainda seja. Agora estou em Salvador, a metros de uma praça lotada, faltam 20 minutos para a manifestação, um barulho ensurdecedor.

Vou deixar vocês com a reprise de um filme sobre isso: resistência e beleza. Uma história sobre outra luta de classes que, até hoje, a gente também não sabe muito bem como termina.

(A Cor Púrpura, 1985, Steven Spielberg)

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A preocupação relevante do dia é com o microondas que, depois de um mês de trabalho duro e honesto, apitou, apitou, explodiu e cuspiu tudo fora. Depois voltou ao normal com o semblante mais plácido e garboso. Quem nunca, não é mesmo? Mas o miserável manchou o fogão. Já comentei que o meu fogão é bonito e cheio de botões? Continua com as instruções no forno e certamente acredita que os humanos se alimentam de papel, mas quem dirá que não é belo e digno? Combina com a geladeira. A geladeira sobreviveu. Toda vez que abro a geladeira eu lembro que preciso comprar água. Faz umas duas semanas que eu preciso comprar água. Ou um filtro. Por hora, fico com a opção mais simples, comprar garrafas d’água no mercado, dezenas de garrafas, ainda que a atividade quase nunca me apeteça. Essa semana a água acabou. Comecei a tomar suco. E o suco acabou. Leite de caixa. Acabou. Iogurte. Espumante. Neste momento, posso dizer sem o privilégio da metáfora que só me restam os vidros de perfume.

Preocupadíssima, apenas.

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Existe um tipo de anêmona do mar que, a cada geração, precisa cruzar parte do oceano para se fixar numa pedra do litoral. Isso pode levar anos. Desde o seu nascimento, a anêmona tem este objetivo e dedica boa parte da vida ao trajeto.

Algumas conseguem chegar à praia e, quando alcançam uma rocha grande e firme, se fixam com toda força. E, imediatamente, perdem o cérebro.

E pronto.

É assim há uns cinco mil anos.

Eu estou trabalhando demais, é isso que eu acho.

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A primeira aula da faculdade começa às sete da manhã e já é preciso ligar para a enfermaria por que um dos meninos subiu na cadeira pra mexer no ar condicionado e despencou. Desminto que a professora da noite está tendo um caso com o bibliotecário, distribuo a correção das provas e garanto que não há nada de sobrenatural no fato do novo papa se parecer com o Mestre dos Magos, de Caverna do Dragão. Uma das moças se exaspera ao ouvir que o garoto propaganda da Bombril morreu e recolho a rifa para o sorteio do diário roubado de uma das colegas. Um dos alunos me pergunta, muito sério: pró, será que vai chover?

Reflito.

bombril

(E eu ainda tenho que ir para o expediente do escritório. E tenho que entrevistar um deputado – de novo. Ele mudou de opinião e quer dar outra entrevista. E tenho que sair de lá às duas para assistir a matéria especial do doutorado sobre “o estudo do objeto, da essência e da coisa”. E, depois, ir à outra faculdade para dar uma aula na graduação de Direito, depois tem orientação de tese com quatro equipes de formandos que estão em desespero e choram, choram, choram e, no fim da noite, tem outra aula na graduação de Jornalismo e três na graduação de Publicidade, onde tudo o que eu digo/faço/ensino em sala vira jingle com coreografia no Youtube).

Mas ainda são sete da amanhã. E tem esse rapaz me perguntando, afinal de contas, se vai chover.

Respondo, sorrindo, que existe uma possibilidade de 32,5% de que chova. No máximo, de 33%. Especialmente entre às treze horas e às quinze e quarenta e cinco.

Bombril (1)

É isso.
Desafetos variados, não me roguem nenhuma praga hoje. Porque, acreditem em mim, não precisa.

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O novo vizinho do andar de cima é barulhento. Ou vizinha, sei lá, nunca vi. Só conheço os eletros da casa: o liquidificador das 6h00, o microondas das 6h15, o aspirador de pó das 7h30 e o relógio cuco das 7h59. Relógio cuco. Depois das 8h00 ele desliga os eletros todos e vai ouvir música. A mesma música. Todo dia.

A música é Nuvem de Lágrimas.

Aí eu não consigo odiar essa pessoa.

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