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Archive for the ‘vasto mundo (viagens)’ Category

Amanhã eu vou receber o salário do jornal no valor de, digamos, 3x. Há muitas formas de dar um destino consequente e maduro a este dinheiro, como, por exemplo:

Pagar as contas de energia – 2x
Ou as duas contas de gás atrasadas – 1x
Ou a prestação da faculdade – 3x
Ou o conserto do microondas + lâmpadas para sala e quarto (atualmente adornados por simpáticas velas de sete dias) – 1,5x
Ou uma semana em Paris – 2x

Pago a faculdade e esqueço Paris? Pago a conta de energia, a conta de gás e também esqueço Paris? Já que comprar lâmpadas e consertar o microondas sem pagar a conta de energia iria me deixar no escuro e com fome de qualquer jeito, ignoro todas as contas e embarco com o troco para Paris? Wrjhk9jb sfjg zdsg4iuo8m hdgh otgk7ooo Paris?

(Teremos aqui uma pausa interativa para que o sagaz leitor conclua sobre o que deverá acontecer nos próximos dias)
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Palmas, muitas palmas pra você que deduziu corretamente que estarei viajando na semana que vem e que este blog ficará inativo temporariamente. Deixarei alguns posts com agendamento de publicação automática, aprovação de comentários automática, comida na geladeira e telefones úteis para caso de emergência. E velas, muitas velas. Por favor, crianças, comportem-se.

(Mariana Miranda, presenteando a humanidade com lições de planejamento financeiro responsável desde 1982).

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Gripe

Voltei. Depois de fazer drama, de dizer que não queria ir embora, que queria morar lá, embarquei choramingando. E eu sempre volto choramingando. Por que pra todo lugar que eu viajo eu decido que quero morar lá, onde quer que seja lá, Pantanal, Pólo Norte, Feira de Santana, não importa, se alguém me desse alguma osadia na vida eu já teria estabelecido residência em uns dez lugares por ano. Assim, sem nenhum tipo de critério. Num mundo tão grande, critério pra quê, né?

Pior que eu cheguei e gripei. Depois de mais de um ano absolutamente saudável, não faço idéia de aonde estão os remédios que eu trouxe do Brasil, o corpo dói, a garganta dói, a cabeça é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. Não sei em quem colocar a culpa: no fato de ter dormido no chão, na metereologia ou no picolé do aeroporto. Provavelmente, no picolé.

Mas, em segundo lugar, a culpa fica sendo da metereologia. Imagine a cena: você está num lugar onde a paisagem à sua direita é absolutamente glacial – a cordilheira do Atlas coberta de gelo, neve, granizo, Papai Noel em trenó com renas e tal. E, imediatamente à sua esquerda, nada menos que o deserto do Saara, com direito a camelos, cactos, Ali Babá e os quarenta ladrões assando lagartixas no espeto sob um calor escalifante e sol, muito sol. Uma paisagem estranhamente ao lado da outra e você ali, bem no meio, feliz, contente, congelando de noite e fritando de dia feito comida de microondas – céus, isso não é choque térmico, é eletrocutamento climático!

E nem é preciso ser muito observador pra perceber que todas as outras características do lugar também são assim: elas não têm um meio termo. Na cultura, na religião, nas relações pessoais, em tudo que há de bom e no que há de mal – ou é ou não é. Relativismo é para os fracos.

(Agora eu poderia me deter aqui em narrar as coisas mais fantásticas de Marrocos, porém: 1) acho que o wikipédia faz isso melhor do que eu e 2) eu não sei falar bem sobre as coisas. Mesmo sobre o que eu amo, meu talento é pra falar mal.)

E, por fim, chego de viagem e trago de suvenir essa gripe de derrubar muro. Putz, eu tô mal. Acho que só vai me restar ir à farmácia comprar uma vitamina C ou uma aspirina ou um anti-térmico ou adquirir todas as opções disponíveis e misturar tudo num batido genérico contra febre, constipação, chulé e mal-olhado, por que eu tô tossindo o suficiente pra cospir o pulmão.

É isso. Sem melhoras temporariamente, o pulso ainda pulsa. I will survive.

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O Jemaa El Fna

 Atendendo a pedidos…

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Essa comida está ótima. Relaxa, Yana, eu não estou dopada, a culpa é desse chá, o que vocês colocam nesse chá, hein? Menta, alecrim, patchuli? Eu estou bem, é que passou da meia-noite e meus neurônio estão virando abóbora, se eu começar a dançar Rehab e sair gritando No, No, No no meio da medina ou abandonar a sua barraca por que ESQUECI O QUE ESTAVA FAZENDO AQUI, aí sim você abstrai o drama e me dá uma Coca-Cola, ok? Mas do que a gente estava falando mesmo? Sim, da sua barraca, adoro ela. Bom vender comida na feira, né? Tem mais gamba? Coloca mais aqui pra mim, isso, gamba, carril, salsa, caracol, coloca esse troço branco aí que eu também quero, pois é, Yana, que bom que eu achei a sua barraca, sabe como eu cheguei aqui? Eu ouvi você cantando. Em português! Qualquer pessoa que está a muito tempo longe de casa reconhece alguém cantando no seu idioma a quilômetros de distância. Ostra? Quero sim, isso aqui tá bom demais.

Sabe, Yana, eu não falo árabe, não falo francês e, depois de tanto tempo tentando me comunicar com o pessoal daqui, foi batendo uma solidão. Assim, eu conheço a língua o suficiente pra cumprimentar as pessoas, comprar, pedir coisas, mas não pra conversar sobre idéias, entende? Se você não domina bem certa linguagem, só sabe algumas palavras, acaba falando sempre sobre as mesmas coisas e falar sempre sobre as mesmas coisas é uma forma de ficar em silêncio, né? O pior é que, depois do terceiro dia aqui, eu comecei a achar que nunca falei bem o idioma lá da minha terra. Sério. Nunca. Quer dizer, não é que eu não soubesse a gramática, eu falo, leio, escrevo, mas comunicar é outra coisa.

Hum. Essa Babel toda me faz lembrar daquelas cenas onde o toureiro provoca o touro com um pano vermelho até o bicho atacar. E a platéia aplaude. Todo mundo achando que é por que o touro não gosta de vermelho ou por que a cor evoca a sangue e desperta os instintos assassinos do animal, mas, na verdade, o touro só enxega em preto e branco. Aquele vermelho é pra despertar os instintos assassinos… da platéia! A mensagem era destinada a um receptor, mas os séculos de tradição nos fazem interpretar tudo ao contrário. Pois é. Quer saber o que eu acho? Eu acho que o problema desse mundo são as mensagens mal interpretadas. Quanta palavra mal expressa, mal ouvida, dita demais ou dita de menos, quanto tempo perdido com conclusões erradas até que você vai desistindo de tentar compreender e acaba deixando as coisas como estão e responde a qualquer pergunta balançando a cabeça e grunindo: hum-hum. E pronto. Finge que entende. E também finge que não queria falar mais, contar outra história, mostrar qualquer coisa preciosa para o outro que olha a tudo com a mesma cara de tédio, aquela cara de quem não entende mais nada e também balança a cabeça: hum-hum. Enfim, ver alguém dançando sempre parece meio insano pra quem não pode ouvir a música, né? Daí, se você resolve falar, abrir o coração, fica dançando sozinho, todo mundo olhando, achando que você endoidou. Oquê?

Em qual hotel eu estou hospedada? Em hotel nenhum, estou num quarto alugado numa mesquita abandonada, tá vendo aquela janela do último andar da última torre? É ali. Lá em cima tem um jardim, uns altares, o prédio deve ter uns mil anos, aquilo é um portal para o universo paralelo, você sobe as escadas e entra em outra dimensão. Páre de me olhar com essa cara, eu estou ótima, sério, você não acha que esse chá está ficando melhor a cada gole? Eu estou em excelentes condições, pode perguntar o nome de todas as capitanias hereditárias que eu acerto. O que são capitanias? Hahaha! Deixa pra lá, isso não tem importância.

Mas onde eu estava? Sim, nos idiomas. O que eu ia falando é que há pessoas que são um país com idioma próprio: você pode passar tempos pisando sobre aquele chão e continuar sem compreender nada, como eu me sinto aqui, no seu país, você conhece alguém assim? Hein? Eu sei, você precisa atender outros clientes, não se ocupe comigo, o que eu estou tentando dizer é que algumas pessoas são livros fantásticos escritos numa língua desconhecida e deixados ali, na sua prateleira, tão à altura da mão, tão próximos e absolutamente inacessíveis. E eu estou cansada, Yana. Mesmo. De tanto desencontro. De tanto diálogo mal-entendido, de tanto afeto escoando por essa torneira aberta à toa, tanto desperdício. A gente vai secando, sabe? Uma palavra na hora errada, um silêncio na hora errada, uma carta que chega cedo demais, uma carta que chega tarde demais, impressões que viram suspeitas, que viram certezas, que viram conclusões alimentando um monstro de barro capaz de soterrar tudo de um jeito que, mesmo depois que ele se desfaz, não dá mais pra voltar. Você não acha mais o caminho de volta. E só sobra o barro, barro suficiente para criar um deserto. Se o inferno são os outros, o paraíso deveria ser um deserto, né? Mas nunca é, ninguém quer ficar sozinho. Que idioma se usa no deserto, hein? Putz, esquece, hoje eu só estou falando besteira…

Hum? Tudo bem, mas não precisa ficar me olhando com essa cara de ventilador, assim, sem saber se me manda para casa, para enfermaria ou para o hospício. Eu estou ótima. Eu sei, eu sei que você nem fala português tão bem assim, que nem está entendendo muita coisa do que eu estou dizendo, mas não tem problema, quanto deu a minha conta, hein? Tranquilo. Não, não precisa me levar, eu consigo chegar em casa sem o acompanhamento de um adulto responsável, juro. Fique tranquila, eu chamo um táxi. Olha, obrigada por tudo, Yana, a noite foi ótima. Que bom ter te achado. Mesmo. Que sorte encontrar alguém com quem conversar.

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Teorias

No percurso de Casablanca à Marrakech, um trem ainda mais tosco e lento que o primeiro, absolutamente lotado. Da janela, umas paisagens de filme épico de Páscoa, cidades abandonadas, horizontes de areia onde pastores com véus e cajados guiavam rebanhos de ovelhas tirados de um presépio de Natal. Mulheres carregando água, grupos montados em camelos e todas aquelas imagens que fazem parte do imaginário de qualquer criança nascida num país cristão – e é curioso que elas só existam em países não-cristãos. Quando o trem passava, alguns nativos corriam para o topo dos montes e dançavam umas danças loucas lá longe, as pessoas acenavam da janela e eles acenavam de volta lá do alto. Aquele não era um trem turístico, éramos os únicos estrangeiros do vagão e as crianças cobertas de véus se aproximavam por curiosidade. Fazia nada menos que 45 graus e eu estava virando um cacto.

Chegando na estação de trem, tínhamos a opção de ir ao centro pegando um TÁXI. Isso mesmo: pedir um carro, sugerir ao motorista que coloque a bagagem na mala e ir bem confortavelmente no banco de trás olhando a paisagem, meu Deus, um luxo, eu não fazia nada assim a meses. Razão da extravagância: o euro está valendo DEZ vezes mais que a moeda marroquina, ou seja, é só atravessar uma fronteira que você vai de andarilho pobre à turista de luxo sem escalas. Mentalize: as moedas que me restavam eram suficientes pra eu abandonar as econômicas barrinhas de cereal européias e experimentar de TODOS os pratos da culinária marroquina de uma sentada só. Mentalizou? Algumas moedas por dez pratos? Tudo com garfo e faca e guardanapo?? Tomei muito sol, estou delirando, alguém me belisqueeee!!!

Bela e rica, muito rica, vou ao balcão e peço um táxi. Me chega um Fiat caindo aos pedaços de onde salta um homem com um metro de barba, túnica e turbante, que guarda nossos pertences no bagageiro e entra de novo no automóvel sem pronunciar uma palavra. Entramos no carro e ele segue em frente. Teoria hipotética sobre o assunto: ou ele não fala o nosso idioma ou ele é tímido ou a religião dele não permite que se comunique com pessoas que possuam o costume indecente de vestir camisas de malha que exponham seus pulsos, antebraços e cotovelos à vergonha pública. Enfim, não importa, lá estava a gente pelo deserto a caminho da cidade, pela estrada afora íamos bem sozinhos até que, de repente, o carro pára. Teoria: o carro quebrou. Ou o pneu furou. Ou ele errou o caminho. O motorista salta do carro e, ao invés de abrir o capô para olhar o motor, ele vai até o bagageiro e tira uma MALA. Uma mala preta. Mas, como assim uma mala? Pois é, uma mala grande. Ele vai andando até o acostamento, senta no chão e abre a mala. Gente, o que faz um homem parar no meio da estrada com um carro cheio de estrangeiros em pleno deserto para abrir uma mala? Teoria: ou ele é louco ou a gente se ferrou ou as duas coisas. Dessa mala ele pode tirar uma faca ou uma serra elétrica ou uma estaca de vampiros e, na melhor das hipóteses, iremos amanhecer numa banheira de gelo com uma cicatriz no lugar do rim esquerdo ou seremos escravizados pelos beduínos e puxaremos carroças pelo resto das nossas vidas ou teremos nosso couro curtido sob o sol e nossas víceras oferecidas aos pássaros, mas, de repente, o barbudo levanta e tira da mala um TAPETE. Teoria? Ele poderia abandonar o táxi e nos levar à cidade voando num tapete? Acho que não. O cara abre o tapete, ajoelha sobre ele, vira para o horizonte e faz uma reverência. Depois outra. Depois outra. No meio da estrada, sozinho, ao lado do táxi parado e com a gente olhando pra ele da janela com a maior cara de abobalhados pensando: putz, o cara é mulçumano. Só parou pra rezar pra Alá.

Teorias? Mais nenhuma. Talvez só uma: de que eu precisava esquecer todas as minhas teorias antes de pisar em Marrakech.

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Ilsa: Por onde anda o Rick?
Sam: Eu não sei.
Ilsa: Toque mais uma vez, Sam. Pelos bons e velhos tempos.
Sam: Eu não sei o que você quer dizer, senhorita Ilsa.
Ilsa: Toque, Sam. Toque “As Time Goes By”.
Sam: Eu não me lembro dessa música.
Ilsa: Eu vou te ajudar a lembrar…

(Casablanca / Michael Curtiz)

Um jantar no cenário desse filme aqui.

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Duas horas

Partimos pouco antes do vulcão da Islândia detonar e interditar os aeroportos da Inglaterra. Depois da aterrisagem, fui direto pra casa para (descansar? dormir? matar as saudades?) lavar a roupa. Não vai dar tempo de muita coisa por hoje de noite tem outro vôo. Se não interditarem o de cá também.

Será uma madrugada agitada: vôo com escalas, mais pernoite no chão do aeroporto, mais 3 horas de trem, talvez uma balsa, café da manhã em Madrid, almoço em Marrakech, jantar em Casablanca – falo em refeições por força de expressão, tenho uma memória vaga do que seja um garfo ou uma faca – e o céu de chumbo desabando. No caminho pra casa, a água ultrapassando o asfalto, invadindo as calçadas e subindo os degraus das escadas das igrejas, os carros buzinando, gente correndo, pais carregando crianças já grandes nas costas. Lisboa está meio deserta. Depois dos desastres na Rússia, na China, no Chile e no Mexico, as pessoas saem cada vez menos de casa, os supermercados pedem doações para a Madeira e ninguém nem fala mais do Haiti. Por aqui o chão voltou a tremer, mas o epicentro foi no mar, nada grave. Só chove muito. Um dilúvio. Não foi o sertão, foi o céu quem virou mar.

No caminho de volta para o aeroporto dá para lembrar de 2012 e de tantas coisas loucas que a gente ouve por aí, da janela do ônibus dá pra ver dentro de uma farmácia os funcionários colocando os remédios na prateleira mais alta. Um acidente de carro derrubou uma caixa do correio e as cartas seguiram boiando feito barcos de papel, todo mundo olhando tudo de atrás do vidro, todo mundo calado, o trânsito parado. Um homem de gravata salta de um taxi e sai andando até um edifício alto – enquanto o mundo inunda ainda há gente pensando em ganhar dinheiro? Sempre há. Os ônibus desligam os motores, depois os carros desligam os motores. Não há muito o que fazer. Confiro o relógio. Faltam 2 horas para o embarque.

Nesse momento, impossível não pensar nas incontáveis vezes em que esta viagem quase aconteceu. Em anos diferentes, por motivos diferentes, eu sou o ser humano que mais quase foi à Àfrica. Um desses enredos de obsessão e desencontros que fazem a pessoa acreditar em palavras evazivas como destino, sina ou predestinação. Sim, por que as justificativas racionais já estão esgotadas. E acho que, pior do que conviver com tantas tentativas frustradas, é ter que atender à curiosidade alheia: mas por que é mesmo que você quer ir para lá? Por que sim. (Nessas horas, eu disponho de 2 ou 3 segundos para escolher que justificativa dar): por que, segundo os cientistas, a Pangéia, o mega continente ancestral que originou os outros 5, ficava lá. Ou por que, segundo as coordenadas cartográficas do livros do Gênesis, o paraíso de Adão e Eva ficava lá. Ou por que, também segundo as coordenadas cartográficas do Apocalipse, o paraíso vai ser de novo lá. Ou por que, um dia, um tal Jesus Cristo, o filho de Deus, nasceu lá. Por que o mundo começa e termina lá. E eu poderia ficar aqui enumerando milhares de fatos (ainda que reais e relevantes) como se eles fossem necessários, como se o melhor argumento do universo não fosse: por que eu quero. Como se querer algo absoluta, burra e cegamente não fosse o único propulsor para tudo o que as pessoas fazem de relevante na vida. A maioria das pessoas que eu conheço não casaram por que tinham um bom motivo. Nem tiveram filhos graças a um bom argumento. Não amaram nem odiaram por razão explicável e, mesmo em escolhas banais como gostos ou compras, o quesito necessidade não estava em pauta. Mas a gente sempre precisa citar um motivo. E a questão é que, quanto menos clichês forem os seus desejos, mais você vai ter que gastar tempo e imaginação para inventar as justificativas.

Agora uma árvore caiu na pista, bloqueou o entroncamento e as pessoas estão abandonando os carros. Da janela dos edifícios uns meninos desenham nos vidros embaçados como se nada disso estivesse acontecendo, o semáforo abre, o semáforo fecha, meu ônibus não se move. Faltam uma hora e quarenta minutos. Tudo caminha para o caos, mas, por algum motivo, dessa vez eu acho que as coisas vão dar certo. Amanhã eu vou à Àfrica. Depois de amanhã, o mundo já pode acabar.

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Tostas

– Mariana, você precisa agir de uma maneira mais madura, não se pode ter tudo na vida.

Essa frase dita assim, hoje, no aeroporto, me lembrou um episódio de uns três anos atrás num bar na Amaralina. O pessoal reunido lá e um amigo do amigo me contando sobre o período que ele passou na Europa. O cara ganhou dos pais uma viagem de 15 dias na França. Chegando lá, gostou tanto do lugar que resolveu esticar o passeio por três meses. Simples assim. O orçamento previsto, é claro, apertou. E ele contando: “Foi um período muito difícil na minha vida. Passei fome. Havia dias em que nem dava para almoçar, eu tinha que comer tostas!”, dizia ele narrando uma saga dura e comovente enquanto eu continuava ali, ouvindo, com o passe de ônibus no bolso, a mesma lata de refrigerante na mão a noite inteira, olhando pra ele e imaginando o cidadão na França, sozinho, sofrendo, tolido de entrar nos restaurantes de Paris, obrigado a frequentar os cafés às margens do rio Sena para conseguir almoçar. Coitado.

Nem sei por que lembrei do caso do mauricinho das tostas, mas a conversa desta tarde girava sobre esse tema: insatisfação. E o interlocutor em questão hoje era… eh… minha mãe. Então a coisa era séria. Por que mães costumam ser criaturas especialmente otimistas quanto às deficiências e potencialidades das suas crias, inclusive quanto às potencialidades inexistentes. O filho vai mal na escola? Não é por que o menino é burro, é por que o professor é ruim, o livro didático não presta, o método de ensino não está adequado. A figura não pára num emprego? Não é irresponsabilidade, a culpa é da crise, do patrão explorador, do colega invejoso. O cara mentiu, roubou, matou? A culpa é das más companhias, desses garotos perdidos que andam por aí desencaminhando os meninos de família. Entende? Os garotos perdidos são os outros, os que não têm mãe. (E a que se deve o crescimento exponencial do número de gente burra, irresponsável e perdida no mundo? Ao uso de chocadeiras elétricas, suponho). Mas, o que eu quero dizer é que, bem, no momento em que a sua progenitora conclui que o  seu comportamento não está sendo adequado, provavelmente é por que você já ultrapassou todos os limites do socialmente aceitável e está capotando sobre o terreno do absurdo há muitos e muitos quilômetros. É uma espécie de alarme de incêndio depois do incêndio: mesmo que você aja imediatamente após o sinal, já vai ser meio tarde. Roma já estará virando fumaça há séculos.

Daí, hoje, depois dessa frase, eu me senti meio a um passo da camisa de força e resolvi parar. Chega, né? Chega de ligar pra casa chorando pitangas a cada unha quebrada. Chega de chorar durante o telejornal, de pedir pra voltar, de posar de Scarlett O’Hara que não passará fome nem trocará extensão de chuveiro nunca mais. Eu posso reclamar à vontade, posso falar mal de tudo o que eu quiser, mas não posso querer rasgar os pulsos cada vez que alguma coisa desanda, até por que, no fundo, as coisas nem desandam. As coisas, simplesmente, têm um preço.

É isso. Às vezes a gente esquece que a nossa tosta nem foi fruto de uma sina irremediável. Que foi uma escolha.

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Minha máquina fotográfica doméstica sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu. Dei falta durante um vôo e não sei mais se continuo ligando para o aeroporto, para a companhia aérea, para a polícia ou para o cvv. Desespero. Vale dizer que a irmã mais velha dela, a Canon, está quebrada com um problema qualquer no obturador que nem o técnico, nem a assistência autorizada, nem Jesus Cristo conseguiram resolver e, na falta de um milagre, eu tive que pegar uma outra máquina emprestada pra não ficar sem nenhuma. Passei a semana me distraindo com o brinquedo alheio e o que acontece? Hein? Hein? O chip quebra. Implode, queima, poca, sei lá. Do nada!

Voodooooo!!!

Eu estava na rua, tinha acabado de armar o tripé. Saio pra comprar outro chip, mas já é noite e as lojas estão fechadas. Me indicaram um armazém num endereço indefinido e, pela distância que andei, suponho que ficava em Dublin. Levo uma hora pra voltar e armo o tripé de novo. Tiro a primeira foto. Na segunda, a bateria sim-ples-men-te descarrega.

Voodoooooooooooo!!!

Vou atrás de pilha. A neblina cai, eu congelando, as lojas fechadas e eu carregando o maldito tripé nas costas escadaria acima, certamente pagando alguma promessa feita nesta estrada longa da vida. Compro a pilha. Volto para a praça e, na primeira fotografia, de repente, não mais que de repente, AS LUZES SE APAGAM. Por que? Por que já é tarde e a prefeitura resolveu APAGAR A ILUMINAÇÃO DOS MONUMENTOS à meia-noite por razões econômicas-ecológicas-solidárias. Sério. Gente, o que pensar?

Voodoooooooooooooooooooo!!!!

No fim, sem nenhuma razão para viver, lá estava eu, parada, congelada, no escuro, com cara de Bob Esponja. Detalhe: a praça em questão era o Picadilly Circus, o monumento ao Cupido. Conhecidência? Presságio? Destino?

SÓ PODE SER VOODOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!

Picadilly Circus, Londres. Em 12/04/2010, às 23h58.

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