Essa comida está ótima. Relaxa, Yana, eu não estou dopada, a culpa é desse chá, o que vocês colocam nesse chá, hein? Menta, alecrim, patchuli? Eu estou bem, é que passou da meia-noite e meus neurônio estão virando abóbora, se eu começar a dançar Rehab e sair gritando No, No, No no meio da medina ou abandonar a sua barraca por que ESQUECI O QUE ESTAVA FAZENDO AQUI, aí sim você abstrai o drama e me dá uma Coca-Cola, ok? Mas do que a gente estava falando mesmo? Sim, da sua barraca, adoro ela. Bom vender comida na feira, né? Tem mais gamba? Coloca mais aqui pra mim, isso, gamba, carril, salsa, caracol, coloca esse troço branco aí que eu também quero, pois é, Yana, que bom que eu achei a sua barraca, sabe como eu cheguei aqui? Eu ouvi você cantando. Em português! Qualquer pessoa que está a muito tempo longe de casa reconhece alguém cantando no seu idioma a quilômetros de distância. Ostra? Quero sim, isso aqui tá bom demais.
Sabe, Yana, eu não falo árabe, não falo francês e, depois de tanto tempo tentando me comunicar com o pessoal daqui, foi batendo uma solidão. Assim, eu conheço a língua o suficiente pra cumprimentar as pessoas, comprar, pedir coisas, mas não pra conversar sobre idéias, entende? Se você não domina bem certa linguagem, só sabe algumas palavras, acaba falando sempre sobre as mesmas coisas e falar sempre sobre as mesmas coisas é uma forma de ficar em silêncio, né? O pior é que, depois do terceiro dia aqui, eu comecei a achar que nunca falei bem o idioma lá da minha terra. Sério. Nunca. Quer dizer, não é que eu não soubesse a gramática, eu falo, leio, escrevo, mas comunicar é outra coisa.
Hum. Essa Babel toda me faz lembrar daquelas cenas onde o toureiro provoca o touro com um pano vermelho até o bicho atacar. E a platéia aplaude. Todo mundo achando que é por que o touro não gosta de vermelho ou por que a cor evoca a sangue e desperta os instintos assassinos do animal, mas, na verdade, o touro só enxega em preto e branco. Aquele vermelho é pra despertar os instintos assassinos… da platéia! A mensagem era destinada a um receptor, mas os séculos de tradição nos fazem interpretar tudo ao contrário. Pois é. Quer saber o que eu acho? Eu acho que o problema desse mundo são as mensagens mal interpretadas. Quanta palavra mal expressa, mal ouvida, dita demais ou dita de menos, quanto tempo perdido com conclusões erradas até que você vai desistindo de tentar compreender e acaba deixando as coisas como estão e responde a qualquer pergunta balançando a cabeça e grunindo: hum-hum. E pronto. Finge que entende. E também finge que não queria falar mais, contar outra história, mostrar qualquer coisa preciosa para o outro que olha a tudo com a mesma cara de tédio, aquela cara de quem não entende mais nada e também balança a cabeça: hum-hum. Enfim, ver alguém dançando sempre parece meio insano pra quem não pode ouvir a música, né? Daí, se você resolve falar, abrir o coração, fica dançando sozinho, todo mundo olhando, achando que você endoidou. Oquê?
Em qual hotel eu estou hospedada? Em hotel nenhum, estou num quarto alugado numa mesquita abandonada, tá vendo aquela janela do último andar da última torre? É ali. Lá em cima tem um jardim, uns altares, o prédio deve ter uns mil anos, aquilo é um portal para o universo paralelo, você sobe as escadas e entra em outra dimensão. Páre de me olhar com essa cara, eu estou ótima, sério, você não acha que esse chá está ficando melhor a cada gole? Eu estou em excelentes condições, pode perguntar o nome de todas as capitanias hereditárias que eu acerto. O que são capitanias? Hahaha! Deixa pra lá, isso não tem importância.
Mas onde eu estava? Sim, nos idiomas. O que eu ia falando é que há pessoas que são um país com idioma próprio: você pode passar tempos pisando sobre aquele chão e continuar sem compreender nada, como eu me sinto aqui, no seu país, você conhece alguém assim? Hein? Eu sei, você precisa atender outros clientes, não se ocupe comigo, o que eu estou tentando dizer é que algumas pessoas são livros fantásticos escritos numa língua desconhecida e deixados ali, na sua prateleira, tão à altura da mão, tão próximos e absolutamente inacessíveis. E eu estou cansada, Yana. Mesmo. De tanto desencontro. De tanto diálogo mal-entendido, de tanto afeto escoando por essa torneira aberta à toa, tanto desperdício. A gente vai secando, sabe? Uma palavra na hora errada, um silêncio na hora errada, uma carta que chega cedo demais, uma carta que chega tarde demais, impressões que viram suspeitas, que viram certezas, que viram conclusões alimentando um monstro de barro capaz de soterrar tudo de um jeito que, mesmo depois que ele se desfaz, não dá mais pra voltar. Você não acha mais o caminho de volta. E só sobra o barro, barro suficiente para criar um deserto. Se o inferno são os outros, o paraíso deveria ser um deserto, né? Mas nunca é, ninguém quer ficar sozinho. Que idioma se usa no deserto, hein? Putz, esquece, hoje eu só estou falando besteira…
Hum? Tudo bem, mas não precisa ficar me olhando com essa cara de ventilador, assim, sem saber se me manda para casa, para enfermaria ou para o hospício. Eu estou ótima. Eu sei, eu sei que você nem fala português tão bem assim, que nem está entendendo muita coisa do que eu estou dizendo, mas não tem problema, quanto deu a minha conta, hein? Tranquilo. Não, não precisa me levar, eu consigo chegar em casa sem o acompanhamento de um adulto responsável, juro. Fique tranquila, eu chamo um táxi. Olha, obrigada por tudo, Yana, a noite foi ótima. Que bom ter te achado. Mesmo. Que sorte encontrar alguém com quem conversar.
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