Feeds:
Posts
Comentários

Do topo à bancarrota em 400 páginas. Recomendo.

“A felicidade, observou certa vez Maury Noble, é apenas a primeira hora depois de nos livrarmos de um sofrimento particularmente intenso. Mas o rosto de Anthony ao caminhar pelo corredor do décimo andar do Plaza naquela noite! Seus olhos brilhavam, estava mais belo do que nunca, destinado a um daqueles momentos imortais que acontecem de forma tão radiante que sua luz é suficiente para iluminar anos.” (pág. 125)

“Ocorreu-lhe que todas as classes muito distintas, como a classe militar, dividiam os homens em dois gêneros: os que a ela pertenciam e os que estavam de fora. Para os padres, havia sacerdotes e leigos. Para os católicos, os católicos e não-católicos. Para os negros, pretos e brancos. Para os presos, os presos e os livres. Para os doentes, os enfermos e os sãos. Assim, sem jamais ter pensado nisso, fora civil, leigo, não-católico, branco, livre e são.” (Pág. 314)

“Acho que em determinado período eu poderia ter obtido qualquer coisa que quisesse, dentro de limites, mas aquilo era a única coisa que eu já quisera ardentemente. Meu Deus! E isso me ensinou que a gente não pode ter nada, não pode ter nada mesmo. Por que o desejo simplesmente te engana. É como um raio de sol que pula para lá e para cá dentro de um quarto. Quando pára e doura algum objeto sem importância, pobres tolos que somos, tentamos pegá-lo; mas quando conseguimos, o raio muda para outra coisa, e você fica com a parte sem valor, pois o brilho que lhe fez querê-la foi embora.” (Pág. 319)

“- O que foi feito de todos que conhecíamos e que tinham tanto em comum conosco?
– Afastaram-se – disse Muriel, com o olhar devidamente sonhador.
– Mudaram – disse Glória – Todas as qualidades que não são usadas na vida diária acabam se deteriorando.” (Pág. 380)

(F. Scott Fitzgerald / Os Belos e Malditos)

Toy Story

IMG_5981 com lomo

(Salvador, 20 de abril de 2013)

Eu tinha que mostrar pra vocês. Né?
De nada.

As duas mãos

“Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.”

(Clarice Lispector / Felicidade Clandestina)

A primeira aula da faculdade começa às sete da manhã e já é preciso ligar para a enfermaria por que um dos meninos subiu na cadeira pra mexer no ar condicionado e despencou. Desminto que a professora da noite está tendo um caso com o bibliotecário, distribuo a correção das provas e garanto que não há nada de sobrenatural no fato do novo papa se parecer com o Mestre dos Magos, de Caverna do Dragão. Uma das moças se exaspera ao ouvir que o garoto propaganda da Bombril morreu e recolho a rifa para o sorteio do diário roubado de uma das colegas. Um dos alunos me pergunta, muito sério: pró, será que vai chover?

Reflito.

bombril

(E eu ainda tenho que ir para o expediente do escritório. E tenho que entrevistar um deputado – de novo. Ele mudou de opinião e quer dar outra entrevista. E tenho que sair de lá às duas para assistir a matéria especial do doutorado sobre “o estudo do objeto, da essência e da coisa”. E, depois, ir à outra faculdade para dar uma aula na graduação de Direito, depois tem orientação de tese com quatro equipes de formandos que estão em desespero e choram, choram, choram e, no fim da noite, tem outra aula na graduação de Jornalismo e três na graduação de Publicidade, onde tudo o que eu digo/faço/ensino em sala vira jingle com coreografia no Youtube).

Mas ainda são sete da amanhã. E tem esse rapaz me perguntando, afinal de contas, se vai chover.

Respondo, sorrindo, que existe uma possibilidade de 32,5% de que chova. No máximo, de 33%. Especialmente entre às treze horas e às quinze e quarenta e cinco.

Bombril (1)

É isso.
Desafetos variados, não me roguem nenhuma praga hoje. Porque, acreditem em mim, não precisa.

Meus vizinhos II

O novo vizinho do andar de cima é barulhento. Ou vizinha, sei lá, nunca vi. Só conheço os eletros da casa: o liquidificador das 6h00, o microondas das 6h15, o aspirador de pó das 7h30 e o relógio cuco das 7h59. Relógio cuco. Depois das 8h00 ele desliga os eletros todos e vai ouvir música. A mesma música. Todo dia.

A música é Nuvem de Lágrimas.

Aí eu não consigo odiar essa pessoa.

Lisboa em Pessoa

Este livro, do João Correia Filho, é um guia turístico-literário que conta a história de cada bairro de Lisboa através de poemas, músicas e trechos de romances. Há, por exemplo, fotos e mapas de como chegar às casas citadas por Eça de Queiroz. Ou onde fica o bar do livro do Baptista-Bastos, o miradouro do poema de Bocage ou a esplanada descrita por Inês Pedrosa. E aonde comer as sardinhas fritas da história do Saramago. E todos os cafés e esquinas e estradas de Fernando Pessoa.

Olha, os lusitanos que me perdoem, mas eu não quero mais ir à Lisboa.
Eu quero morar dentro desse livro.

sintra com efeito

“Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me esforço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir
Se não parar, mas seguir?
Vou passar a noite em Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena
De não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito,
Sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre
Esta angústia excessiva do espírito
Por coisa nenhuma
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho,
Ou na estrada da vida…”

(Álvaro de Campos, Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra)

lisboa tratada 5

“E o policial perguntou para a criança:
– De onde és?
– De Lisboa.
– Sim, mas de onde, de que sítio?
– De toda.”

(Baptista-Bastos, Lisboa Contada pelos Dedos)

lisboa tratada 4

“Se, na manhã seguinte, Lisboa não estivesse mergulhada naquela luz deslumbrante, pensou Gregorius mais tarde, as coisas talvez tivessem tomado outro rumo. Talvez tivesse seguido diretamente para o aeroporto e tomado o primeiro avião para casa. Mas aquela luz impedia qualquer movimento de retorno. Seu brilho transformava tudo o que pertencesse ao passado em algo extremamente distante, quase irreal.”

(Pascal Mercier / Comboio Noturno para Lisboa)

lisboa tratada 10
lisboa tratada 7
lisboa tratada 12
lisboa tratada 11
lisboa tratada 2

(Fotos feitas de janeiro de 2013)

#39

filme cachorro

#38

trecho drummond

Meus vizinhos I

garrafa com vela

Meus amigos resolveram promover uma festinha veneziana e eu fiquei responsável por levar umas garrafas de vinho vazias para a decoração. Consegui umas sessenta. A festa aconteceu e, depois, era preciso jogar as tais garrafas no lixo.

Antes de ir trabalhar, todo dia eu levo três ou quatro garrafas para jogar no tonel do meu condomínio. Todo dia. Sob a audiência atenta de porteiros, zeladores e vizinhos.

Desde então, a minha caixa postal está bombando de auto-ajuda e mensagens bíblicas.

Fim.

Juno

juno

– Seus pais devem estar preocupados, provavelmente querendo saber onde você está.
– Acho que não. Quer dizer, eu já estou grávida, que outro tipo de preocupação eles poderiam ter?

juno_03

– Eu pensei que você fosse o tipo de garota que sabia o que dizer e quando dizer.
– Hum? Eu não sei que tipo de garota eu sou.

c-col-jksimons1_r

– Pai, eu estou perdendo minha fé na humanidade…
– Você já pensou em restringi-la a mim?

juno-6

– Acho que eu estou gostando de você.
– Você quer dizer, como amigos?
– Não, eu quero dizer, de verdade. Você é a pessoa mais legal que eu conheço e nem precisa se esforçar para ser assim…
– Talvez eu me esforce. Ou até tenha me dedicado muito a isso.

(Juno / Jason Reitman)