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Posts Tagged ‘carro’

Eu emprestei o carro por uns tempos e peguei de volta ontem. Ao dar a partida, achei que tinha algo diferente: ele estava ligeiramente pesado. Assim, como se houvesse um volume extra. Olhei no porta-malas, no banco de trás, no motor. Nada. Estranho. Dei partida outra vez e fiquei observando.

Era o peso do tanque cheio.

Fim.

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Nesta quarta-feira, interminável quarta-feira:

– Alô, Mari? Bom dia: bati seu carro.
– OQUÊ?
– Ontem de noite.
– MEU CARRO NOVO?????????????
– Mas eu conserto!
– EU NEM FIZ O EMPLACAMENTO AINDA!!! PQP!!!
– Inexperiência…
– Você dirige a DEZ ANOS!
– Eu nunca aprendi direito.
– FUI EEEEEU quem te ensinou a dirigir, SUA BISCA ÉBRIAAA!!!! CACHAÇA é uma merda. É. UMA. MER. DA!
– Mas eu vou consertar.
– CLARO que vai. Alguém se machucou?
– Só eu. Mas aí apareceu um amigo meu na rua e ele ajudou. Aí ele me levou na famácia, a gente conversou. Depois eu levei ele em casa. Acho que a gente está namorando.
– Oquê??
– É. Acho que a gente está namorando.
– Já?
– Já!!! Ele é lindo!!
– …
– É sempre assim, né?
– O quê?
– Adoro usar suas coisas. É incrível. Sempre me aparece alguém.
– …

Ciganinha Miranda, trago seu amor em três dias. Um peguete solto na pista ou o seu dinheiro de volta. Ligue djá.

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Há uns anos atrás, eu tive um Fiat 98. Branco, velho, ele era um sucesso entre os colegas. Só tinha um problema: meu automóvel rangia como uma motosserra amazônica desertificando o Amapá. Sim, e ele também estancava no meio da rua. Jamais saberemos o motivo. Nem os mecânicos, nem as cartas, nem os búzios desvendaram. Menção honrosa às grandes avenidas congestionadas, mas a medalha de ouro era mesmo destinada às ruas escuras, desertas e absolutamente anônimas.

– Gente, ele parou de novo. Manda uma das meninas vir me buscar.
– Certo, onde você está?
– …

O Fiat já era uma entidade ilustre quando eu entrei na faculdade. E tinha essa professora. Ela era famosa, premiada, era a imagem do êxito profissional e tudo o que eu queria na vida era que ela notasse a minha existência na sala de aula.

Acho que professor de primeiro semestre carrega uma responsabilidade que nem imagina. Por que todo calouro é um bicho assustado. Todo calouro morre de medo de descobrir que não tem talento para aquela profissão, que fez a escolha errada. Calouro só espera se sentir aceito, aprovado e tudo que eu precisava era de uma palavra de reconhecimento. Então, eu me esforcei para parecer bem sucedida.

Comecei a me vestir melhor. Passei a escrever difícil, mudei de celular, falava sobre o escritório. Mais cedo ou mais tarde ela ia perceber que estava diante de uma executiva inata. Eu era a cara do sucesso. Aí houve uma noite em que eu saí tarde da aula. O estacionamento vazio, entrei no carro e vi de longe: era aquela professora.

Fui surpreendida por um constrangedor sentimento de desonra. Eu tive vergonha do meu carro. Ele ia ranger feito uma máquina de caldo de cana na frente daquela mulher. Famosa. Reconhecida. Premiada. Tanto esforço pra nada, meu Deus. Eu tinha mesmo que sair dali arrastando meu Fiat caindo aos pedaços?

Resolvi não ligar o motor. Fingi que procurava qualquer coisa, uma estação no rádio, esperei ela ir embora. Vencida, humilhada. Ela passou, nem deu pela minha existência, entrou no automóvel dela e deu partida.

E carro dela era um Fiat.

Branco.

Velho.

Ca.in.do.aos.pe.da.ços.

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