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Posts Tagged ‘fernando monteiro’

“Por que o cinema não filma um rio? Um rio inteiro, um rio sem fim, um Amazonas que encontrasse o Tejo e se misturasse ao Nilo? Esse supergrande rio dos rios, fluindo em sua fuga, passando como um trem passa pela água escura dos túneis, esse rio não seria um sucesso de bilheteria?”

(Fernando Monteiro / Aspades)

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(Lisboa, 01 de janeiro de 2013, 7 graus)

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Foi a primeira vez em que eu ouvi falar sobre o “dourado vago de Istambul”. Eu sabia que, depois daquele livro, iria procurar pela “Cabeça de Calcário”.

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“Apaixonara-se, na juventude, por uma pequena cabeça de pedra calcária branca. Tinha um nariz inteiro e uma coroa alta, intacta. / A cabeça parecia trazer, do muito remoto, o rumor de pequenos pés descalços em pisos decorados e noites de silêncio à margem de um rio esquecido. / Agora que comprara a cabeça, tinha algumas dúvidas dentro da sua, dormia menos e não sabia onde colocar aquela coisa que perturbava a mente com pensamentos novos. /

/ Era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava enterrar o que não viria mais do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas, e seria o modo de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio com o objeto no meio da serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio que o tanque de peixes do parque abandonado. / Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa.”

(A Cabeça de Calcário / Fernando Monteiro)

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Depois que Fernando Monteiro ganhou o prêmio de Literatura da revista Bravo, eu passei a respeitar um pouco mais a Bravo. Entendem? O conto mais bonito que eu li este ano é dele.  São dez páginas de filosofia que se passam entre o Egito e a Turquia, entre os “Alexandres da Alexandria” e o “dourado vago de Istambul”. Tinha mesmo a obrigação de ser perfeito.

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“A geração desses homens da passagem do século dezenove para o vinte conheceu uma modernidade trazida pelo senso de passado, de modo que as suas ações – e mesmo alegrias – eram toldadas por uma sombra sem idade e alguma porção daquela melancolia dos que esperam a morte, porém não a desejam, é claro.”

 “E ele também já não era jovem, não podia agradar às mulheres, que recuavam do seu amor sem forças, afastadas pela mágica do inferno que torna um homem mais idoso que um pai já morto, na meia idade, quando se faz contas com o tempo, com as cidades deixadas para trás, com os amigos mortos e com o silêncio que nos cerca.”

“Lembrava a tarde pintada na sua memória de velho: era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava encerrar o que não viria mais do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas e seria a oportunidade de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio como o objeto no meio da serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio do que o tanque de peixes do parque abandonado, a piscina invertida, o céu sem limite.”

“Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa. A caixa estava em casa – uma ausência dentro de outra – e a casa estava no planeta que rolava no abismo do Universo sem fim e sem começo cujo oco lhe dava náusea, naquele momento de um dia cujo traço iria desaparecer na noite. Cúpulas, minaretes, muralhas e muros, telhados e toldos, janelas e portas douradas, o lago na sua calma, a lua na sua cisma, tudo se afastava do pai de Abdul-Qadir naquela hora de dor feita do conhecimento de todas as ausências que estavam no lugar das coisas em fuga como a cabeça longe dos ombros pesados que o levaram para o último sono na cama.”

(A Cabeça de Calcário/Fernando Monteiro)

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