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Posts Tagged ‘mariana miranda’

Há uns anos atrás, eu tive um Fiat 98. Branco, velho, ele era um sucesso entre os colegas. Só tinha um problema: meu automóvel rangia como uma motosserra amazônica desertificando o Amapá. Sim, e ele também estancava no meio da rua. Jamais saberemos o motivo. Nem os mecânicos, nem as cartas, nem os búzios desvendaram. Menção honrosa às grandes avenidas congestionadas, mas a medalha de ouro era mesmo destinada às ruas escuras, desertas e absolutamente anônimas.

– Gente, ele parou de novo. Manda uma das meninas vir me buscar.
– Certo, onde você está?
– …

O Fiat já era uma entidade ilustre quando eu entrei na faculdade. E tinha essa professora. Ela era famosa, premiada, era a imagem do êxito profissional e tudo o que eu queria na vida era que ela notasse a minha existência na sala de aula.

Acho que professor de primeiro semestre carrega uma responsabilidade que nem imagina. Por que todo calouro é um bicho assustado. Todo calouro morre de medo de descobrir que não tem talento para aquela profissão, que fez a escolha errada. Calouro só espera se sentir aceito, aprovado e tudo que eu precisava era de uma palavra de reconhecimento. Então, eu me esforcei para parecer bem sucedida.

Comecei a me vestir melhor. Passei a escrever difícil, mudei de celular, falava sobre o escritório. Mais cedo ou mais tarde ela ia perceber que estava diante de uma executiva inata. Eu era a cara do sucesso. Aí houve uma noite em que eu saí tarde da aula. O estacionamento vazio, entrei no carro e vi de longe: era aquela professora.

Fui surpreendida por um constrangedor sentimento de desonra. Eu tive vergonha do meu carro. Ele ia ranger feito uma máquina de caldo de cana na frente daquela mulher. Famosa. Reconhecida. Premiada. Tanto esforço pra nada, meu Deus. Eu tinha mesmo que sair dali arrastando meu Fiat caindo aos pedaços?

Resolvi não ligar o motor. Fingi que procurava qualquer coisa, uma estação no rádio, esperei ela ir embora. Vencida, humilhada. Ela passou, nem deu pela minha existência, entrou no automóvel dela e deu partida.

E carro dela era um Fiat.

Branco.

Velho.

Ca.in.do.aos.pe.da.ços.

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A paisagem vista da minha mesa de trabalho.
mural de fotos
mural mapa
fica k7 pingente mariana miranda
IMG_3026

(Salvador, 28 de novembro de 2012)

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anuncio varig2

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#48

admita voce esta esperando por algo

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No cruzamento da avenida de Berna
Na calçada onde a gente trabalhava
Quando chovia granizo e era preciso correr
Nos abrigávamos debaixo do viaduto
Fardados, batendo os dentes de frio
E falávamos sobre coisas distantes

Na cidade onde eu nasci
O rio cortava os campos de trigo
Na cidade onde eu nasci
Havia figos no alto da serra
Na cidade onde eu nasci
Eu tinha carro, emprego, amigos
Eu tinha uma mãe, eu tinha um amor
Eu tinha um cachorro e uma canoa
Na cidade que eu abandonei
Para estar aqui, debaixo do viaduto

Às vezes, alguém cantava uma canção de longe
Às vezes, alguém chorava de cabeça baixa
Falando de Delhi, Praia, Luanda
E aquele inverno parecia que não ia terminar nunca

(Existe qualquer coisa de cimento concreto
Cansaço, fuligem, betume
Que grifa a pele de quem já trabalhou pelas ruas)

Anos depois, cada um voltou
Para a sua cidade de berço
E houve fogos e choro e festa
E silêncio
Às vezes, chega carta de alguém

E eu sempre tenho o pressentimento
(Mentira, uma certeza severa)
Que nenhum de nós conseguiu
Voltar para o que deixou
Nem aos figos, ao trigo, ao campo
Nem aos braços do amor perdido
Nem à terra que foi prometida
No cruzamento da avenida de Berna

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quadrinhos sono

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sob o sol de toscana

“Entre a Áustria e a Itália, há uma parte dos Alpes chamada Semmering. É uma parte incrivelmente difícil de subir, no alto das montanhas. Eles construíram um trilho nestes Alpes para ligar Viena e Veneza, mesmo antes de haver um trem que pudesse fazer a viagem. Mas eles construíram porque sabiam que, algum dia, o trem chegaria.”

(Audrey Wells/Sob o Sol de Toscana)

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pássaro credito debito

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Em 1600, todo mundo gostava dos quadros de Caravaggio por que eles eram quase reais, pareciam uma fotografia. Aí, dois séculos depois, inventaram a fotografia e aquelas pinturas que ficavam tentando imitar a realidade já não faziam mais tanto sentido para o público.

Aí os pintores resolveram fazer pintura abstrata. Só que os fotógrafos inventaram a manipulação de negativos e o Photoshop e a fotografia também fugiu da realidade – de repente, a pintura abstrata também já não fazia mais tanto sentido para o público.

Nos últimos anos, a tendência é fazer fotos que parecem pinturas. Como neste trabalho de Christy Lee, que fotografa debaixo d’água, utiliza técnicas de iluminação modernas, um elenco de vinte dançarinos aquáticos, piscinas especiais e câmeras de última geração submarinas para imitar as obras barrocas. Mais exatamente imitar as obras de Caravaggio.

De fato, ficou parecido. Ficou sofisticado, ficou bonito. Ok.

Mas o cara não fazia exatamente a mesma coisa em 1600, absolutamente sozinho, usando um mísero pincel?

Rs. \o/

O mundo anda muito complicado, é isso que eu acho.

Rogers_0513_The Heart is a Lonely Hunter
Rogers_0133_Reckless Unbound
Rogers_9890_Unbreathe Me (1)
Rogers_9994_The Innocents

(Christy Lee Rogers / Reckless Unbound)

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