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Mas eles estão lá … e eu estou aqui!
(Bukowski)

Quando a gente está se preparando para uma viagem, pensa em tudo: nos lugares que vai visitar, nas pessoas que vai conhecer, no mundo novo que vai se descortinar para nós. E só. Você nem imagina que, enquanto você vai, uma cidade que ficou para trás não pára pra te esperar. Tudo continua. Sem você.

E o Orkut é o inferno de toda pessoa que não estava lá. Seja por que viajou, se mudou, adoeceu ou por que não quis ir mesmo, não importa, o fato é que você não estava lá. Entro na internet e vejo as fotos do encontro onde todos os meus amigos se divertiram – sem mim. O aniversário do meu primo, a família toda reunida – sem mim. Meus colegas de sala num passeio de barco pelo Forte – sem mim. Casamentos, formaturas, encontros onde todo mundo se viu dançou, brindou – sem mim. E nem adianta me olhar com essa cara por que eu sei que você também foi aquela festinha ótima onde todos estavam – menos eu.

Pois é, nada como um orkut na vida de um viajante para dar a ele uma dimensão exata de quão dispensável é a sua existência sobre a Terra.

Nada contra o programa em si, ou quase nada. Enquanto estrutura, considero o Orkut uma espécie de vitrine da alma, um currículo inteligente dividido em 4 campos: o que você diz sobre você, o que seus amigos dizem sobre você, sobre o que você se interessa e quem te interessa. Em alguns casos, há também vídeos caseiros, fotos em trajes de banho, diploma scaneado, exames de raio-x, tudo o que uma pessoa quiser mostrar sobre si mesma. Pensando sobre este curioso invento, uma primeira questão é que me ocorre: a profissão de escritor biógrafo está com seus dias contados. Segunda questão: por quê razão infame a gente precisa de um programa assim?

Por que ficou impossível fazer sem ele amigos. Por exemplo: você conheceu um zé mané qualquer, bateu um papo e simpatizou. Pronto, no dia seguinte é só procurar uma criatura no Orkut, adicionar, dar uma lida sobre a vida do indivíduo para ver se aquela primeira impressão estava de acordo com uma realidade, saber aonde mora, o que faz, do que gosta, copiar o endereço de e-mail da criança e escrever marcando para assistir um filme que curte ele, no horário que ele pode, no cimena perto da casa dele. E, se for o caso, aproveitar para convidar os amigos que vocês têm em comum para irem junto. Fácil, né?

Acontece que os europeus não tem Orkut. E, cada vez que conheço alguém por aqui, me vejo na obrigação de fazer perguntas, sondar gostos, descobrir passados, anotar telefones e tomar outras iniciativas intuitivas e ultrapassadas  que dependem inteiramente da minha sensibilidade e percepção para acontecer. Ou seja: um desastre. Estamos no século XXI, o homem já foi à Lua, criou uma tv de plasma e desintegrou o átomo em milhões de infinitas micropartículas, por que raios esse povo não faz Orkut e acaba com essa vida social pré-histórica? A tecnologia nunca está aonde se precisa dela.

Pois é, uma iluminação nunca vem para todos. E se você também não conhece o programa, vai uma dica: o melhor dele não é a descrição dos perfis, são as comunidades. Não há forma conhecer melhor as preferências de alguém. Hoje, se eu fosse criar uma comunidade, ela seria assim:

Nome: Orkuteiros Anti-Sociais
Descrição: Se você entra no Orkut, responde seus scraps, sai do Orkut e volta aos seus afazeres sem nenhuma curiosidade pelas páginas alheias, se você não quer saber da vida dos outros, se você ignora solenemente os álbuns que publicam seus amigos, aqui é o seu lugar!

Esta comunidade, é claro, estaria inaugurando o meu novo comportamento virtual e seria recomendada também a todos os viajantes que tenham o mínimo de amor próprio. Unidos, teríamos um acordo de solidariedade mútua. A comunidade poderia até marcar um encontro entre os viajantes solidários em algum lugar do mundo. Todos juntos! Seria divertido. E tiraríamos ótimas fotos para publicar no Orkut.

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