Não sei como deu nisso, nunca fui de enfeitar pavão de ninguém, mas o certo é que a lagoa tá secando pra você, man, você sabe. Não tinha nada que dar uma de joão-sem-braço, fugir da raia, ficar na moita, isso não. Olha, todo dia de manhã eu fico aqui no espelho, você olha pra minha cara, eu olho pra tua, tu escova os dentes, tal e nada. Vai embora. Me olhar aqui dentro do espelho te deixa cabreiro, man, você tem medo de mim, tem medo de você, sei lá. Não faz nada. Você fica assim por que tem esse bicho te comendo por dentro, essa coisa, você não se perdoa, cara, é isso, você sabe que sua gente não é essa, que teu canto sempre foi outro, tu faz que não sabe mas sabe: você odiava tudo isso aqui, essa babaquice toda. Só que agora é diferente. Agora tu tá aqui. Esse mundo dá é volta, né, man? Pois é. Daí fica nessa pose de pinto pelado, rei-da-cocada-preta-e-podre como se seu pessoal não existisse. Nem mais, nem nunca. Qualquer dia esse povo vai embora, essa gente morre, sabia, man? Todo mundo. Vem um carro ou um tiro ou um tijolo que cai do nada e acabou, você abotoa o paletó e aí já era, danou-se tudo e, quer saber? Né ruim morrer não, man, ruim é quando morre alguém da gente. Por que quem vai não sente nada não, só dói pra quem fica aqui nessa miséria, cara, você vai ficar na maior nóia se alguém seu morrer agora, ninguém tá livre disso não, ó, eu nem quero ver quando você cair na real e a real desabar em cima de você, moleque. Eu sei que tu pira cada vez que eu digo essas coisas e que tu só não me quebra todo por que acha que dá azar, mas é tudo mentira, pilha, isso de azar não existe, só existe sina, sina de palma da mão marcada, tá tudo traçado desde o comecinho e você não se toca: tu anda, anda e não sai de onde veio. Isso não desaparta. Tu pode correr, chiar, pode bancar o menestrel e se acabar todo. Pode até fazer isso que tu tá fazendo, pode fugir. Mas tua gente fica no espelho, man, todo dia.
Esse cara é foda!
É por isso que eu raspei a cabeça: para não precisar encarar o espelho na hora de pentear os cabelos…
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Por razões completamente diferentes, mas com resultados similares. Última frase do post mais recente no fotolog: “Há estradas que até vão na direção contrária, mas no fim levam de volta ao ponto de partida”.
Coincidência ou estamos girando em torno do “inescapável” esses dias?
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Efeito Caio, assim, permita-me: do caralho.
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