“O passado nunca conhece o seu lugar
O passado está sempre presente.”
(Mário Quintana)
Precisava lembrar de comprar fósforos. Empurrando o carrinho de compras, ela se perguntava por que sempre esquecia as coisas. Pensava também no jantar daquela noite, não poderia pedir pizza novamente, que sempre chegava fria e desarrumada. Hoje faria um filé com creme de queijo, receita sofisticada para alguém que jantaria sozinha num dia comum.
A dispensa vazia denunciava: nunca lembrava de fazer as compras. O delivery quase sempre salvando a noite, a pizza fria – mas não dessa vez. Seria um filé especial, porção bem apanhada, queijo mussarela, muito molho. Toalha de renda, talheres à mesa, guardanapo de pano. Tudo de primeira. Só pra ela.
Passando pela gôndola de frios, suspeitou: talvez não fosse culpa sua. Talvez esquecer das coisas de vez em quando tivesse sido seu escape para sobreviver a um passado que não conseguia enterrar. Pois sempre soube: não se pode fazer nada pelo passado. Mentalmente, foi enumerando episódios, circunstâncias, causas diversas. Mas, enfim, quando foi mesmo que começou a abandonar as próprias lembranças? Primeiro foram se apagando os fatos tristes, as más recordações. Era a memória se despoluindo, abrindo espaço no meio do lixo. Depois foram números de telefones, nomes de ruas e aquela receita que só ela sabia fazer. Tudo bem. Até que deu para perder as chaves de casa.
Chamava um chaveiro, arrombava a porta, entrava e quando ia buscar o pagamento do rapaz, onde é mesmo que estava a carteira? Os médicos garantiam que não havia nada de errado – talvez a vida moderna, tanto trabalho, tanto stress. Aceitou. Até aquele dia.
Nem comida nem fósforos em casa. Já era demais. No caminho para o mercado, decidiu: tomaria complementos de cálcio. Faria ioga, meditação, qualquer coisa que a centrasse sobre o próprio eixo. Teria cópias das chaves, agendas e mapas. E nesta nova fase não caberia mais o delivery, a pizza fria, a vida de improvisos que estava levando – atrasos, trapalhadas, anotações perdidas. Altiva, deslizava o carrinho pelos corredores – e assim iria conduzir a sua mente. Sem erro. Se seu passado confuso ressurgisse? Faria análise, terapia, regressão. Iria enfrentá-lo. E pronto.
Enquanto a moça do caixa passava as compras, concluiu – o jantar era só o começo.
– Carne, alho, queijo, extrato. Doze reais. Algo mais, senhora?
– Não, obrigada.
Pronto criei coragem,aqui estou
Amo seus textos, em especial este.Alem de uma nora linda, maravilhosa uma escritora SUPER TALENTOSA,que DEUS conserve esse talento SEMPRE.bjs minha querida.
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