“Yo adivino el parpadeo
De las luces que a lo lejos
Van marcando mi retorno.”
(Carlos Gardel / Volver)
Portugal, 26 de março de 2009,
Faz tanto tempo, mas eu me lembro. No início do ginásio, eu era a única aluna da minha classe que sabia andar de ônibus. Em parte por que eu gostava, em parte por força das diferenças econômicas mesmo: a maioria dos colegas tinha motorista, um luxo que eu, definitivamente, não dispunha. Mas dispunha daquela liberdade rara. Como esquecer o olhar dos colegas, nariz contra o vidro, cada um dentro do seu carro. Todos seguindo-me de longe pegar o meu próprio ônibus, com o meu próprio arbítrio, com as minhas próprias pernas. Se, aos 11 anos, eu tinha alguma vaidade na vida, era esta. Mochila nas costas, passe no bolso e um ar de quem sabe como, onde e de que jeito. Dona da rua e dona do mundo. Até que chegou o inverno.
Um dilúvio bíblico. Eu não esperava. As meias encharcadas dentro do tênis, o uniforme cheio de barro e eu escorregando sobre as poças enquanto veículos caros levantavam ondas de lama. Ensopada e suja, a dona da rua era agora um pavão molhado, uma criatura miúda com jeito de cachorro sem dono procurando abrigo sob qualquer marquise. Enquanto os colegas passavam mudos, nariz contra o vidro, cada um dentro do seu carro.
Lembro de entrar revoltada na cozinha do velho edifício Lisboa, casa de minha avó materna, preguejando contra tudo: a meteorologia louca do Nordeste, o transporte público lotado, as ruas sem calçamento, sem esgoto, sem guarida, e, principalmente, contra a minha infeliz condição de proletária andarilha naquela maldita cidade tropical onde eu precisava andar trezentos milhões de metros para chegar a qualquer lugar. E minha avó, serena, trazendo uma toalha e perguntando – mas, minha filha, me diga, isso não era tudo o que você queria?
E era. Eu havia passado as férias inteiras pedindo, suplicando, usando todo tipo de argumento emocional e financeiro para convencer minha mãe a me deixar andar sozinha de ônibus. Dizendo que era a ordem natural das coisas, um degrau, uma sina biológica e inevitável, uma casca de ovo quebrada. E lá estava agora, um semestre depois, tentando remendar os pedacinhos daquela cápsula onde eu, certamente, já não caberia mais.
Não sei se por isso ou por alguma outra razão – há tantas razões possíveis para o inexplicável – mas, desde então, a cada dia de chuva me invade um sentimento ancestral de desamparo. Uma certeza dura e corrosiva de ser a responsável por mim mesma, por cada degrau vencido, por cada queda na lama. Bicho adulto andando sozinho, mesmo que perdido, mesmo que ensopado. É quando chove que me vem essa vontade urgente de entrar pela mesma cozinha, de praguejar de novo, de pedir abrigo. De ouvir outra vez qualquer coisa que me acalme o peito ainda machucado. De não ter crescido. De voltar.
Agora chove. E eu acho que, no fundo, eu sempre soube que voltaria para Lisboa.
PQP.
Esse é um dos seus melhores!
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Mari,
Ler o seu texto me fez lembrar da chuva (num calor em que tudo que quero é ela), de você, das nossas conversas e do efeito que elas tinham em mim. É como se eu pudesse te ouvir. Que bom.
Beijo
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Querida! Um abraço bem quentnho pra ti!
Ótimo fim de semana!
Beijos.
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E veja, perceba como talvez a infância seja mesmo esse ferro em brasa que deixa inscritas certas iniciais no couro de toda a gente, para sempre.
Quando eu tinha a mesma idade, onze anos, vivia em Fortaleza, ilha cercada por aridez por todos os lados. Para falar a verdade, o agreste não poupava nem a ilha. Anos sem uma gota de água despencando do céu. Cada dia sem chuva era um agricultor a mais na esquina com a mão em cuia, pedindo o que quer que fosse. As calças curtas, o chapéu gasto e a sacolinha de algodão que antes guardava os grãos colhidos denunciavam o sertanejo fugitivo da morte, parceiro da fome, com aquela inevitabilidade toda no olhar.
Então pode cair o dilúvio que for, eu não me importo. Antes morrer afogado de que sede.
Mas entenda: não estou dizendo que uma impressão ou lembrança é mais forte ou desoladora que outra. Nada disso. Cada um sabe onde a cicatriz lhe dói e seu desamparo de chuva é tão legítimo quanto bonito. Rito de passagem de primeira grandeza.
Seja no molhado, seja no seco, entre as flores e os frutos ou na falta deles, a vida seleciona, esculpe e arremessa seus dados com uma pontaria infalível. Adversária soberba, atiradora de elite e chacal que só recua quando a presa encontra sua toca. Então que bom, que lindo você ter achado um lugar-agasalho. Torço para que Lisboa seja, para você, impermeável, inteira e com textura de lã.
“E se acaso distraído eu perguntasse ‘para onde estamos indo?’ – não importava que eu alçasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ‘estamos indo sempre para casa’.” (Raduan Nassar)
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