– Ah, quer dizer que você é brasileira?
– Sim, sou.
– Oh, mais uma estrangeira em Portugal!
– Pois é.
– Aqui estamos a ter muitos estrangeiros, muitos mesmo. Inclusive brasileiros.
– Hum…
– O Brasil é bonito, pá. E eu pergunto-me: o que tanto os brasileiros vem a fazer em Portugal?
– Você não sabe?
– Não.
– Colônia de exploração.
– …
– Mas você parece legal. Eu não vou te escravizar.
Droga. Odeio quando eu faço isso. Por sorte, o interlocutor em questão deu risada, todos riram também, promoveram brindes aos forasteiros, acharam graça. Depois eu pedi licença para ir ao toilet, a turma continuou conversando na mesa, desviei do toilet, fui para a janela repetindo pra mim mesma: segura o veneeeeno, marianaaa!
Alguma vez eu já disse que era uma pessoa de fácil convívio? Disse? Pois devo ter dito que mentia um pouco também. Depois de quase um mês fora da minha casinha tendo que recomeçar a minha vida social do zero, entendi o abismo entre as expressões ‘ter amigos’ e ‘fazer amigos’.
Quando você chega a um lugar aonde não conhece absolutamente ninguém, 90% dos seus diálogos diários se iniciam com o mesmo roteiro – Como é o seu nome? Prazer. Você veio de onde? Ah, que bacana! Você faz o que? Que interessante… – e se alguém me perguntar de novo sobre o Pelé ou sobre a magia-contagiante-do-Carnaval-brasileiro e vou surtar, insandecer, rasgar dinheiro!!!
Sempre me orgulhei de ter longas amizades. Mês passado, na minha festinha de despedida, contabilizei: praticamente todos convivas à volta do bolo estavam passando pela experiência engrandecedora de desfrutar da minha convivência há, no mínimo, dez anos. Quase metade de nossas existências. Fora a família, este grupo seleto que trocou as suas fraldas e, certamente, te conhece mais do que você mesmo. Dancei quadrilha, cantei seresta, fiz discurso, soltei veneno à vontade e não me perguntei hora nenhuma se aquilo estava bonito. E a essa absoluta falta de senso do ridículo eu costumo chamar, convenientemente, de intimidade.
É como sair de um casamento longo e estável para voltar aos campos de batalha da paquera. Esta etapa da vida aonde valores ancestrais como primeira-impressão, simpatia e política-da-boa-vizinhança valem mais que um bilhete de loteria. Não é exagero: você toparia viver na solidão em troca de um prêmio em dinheiro? Então você entendeu do que eu estou falando.
E eu tenho me esforçado. Sorrisão na cara, ponto batido assiduamente nos encontros da galera e assunto sobre tudo: mídia, culinária, Bush, briga de galo, ginástica para bebês e o que mais ocorrer. Só não consigo segurar a língua. Putz. Pergunta cretina, tolerância zero. E, se a descrição costumeira de que eu “perco o amigo mas não perco a piada” estiver correta, não vai sobrar ninguém. O pior é que, sem uma vida social, eu não vou sobreviver. Eu e Laika. Sozinhas. Pra sempre.
– Sim, continuando, mas você está aqui a quanto tempo?
– Três semanas.
– Mas quer dizer que você veio mesmo do Brasil?
– Pois é.
– Que bacana. E o Pelé, ainda joga?
– Olha, na verdade…
Bem, eu tentei. E, pensando melhor, eu quero a minha parte em dinheiro.
Daria meu dedo mindinho pra presenciar essa cena !! hauhauahauaha
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Oi Mari,
No começo é assim mesmo amiga, daqui a pouco essas coisas passarão e a convivência será mais branda. O novo sempre estiga a busca pelas diferentes informações. Tente se divertir e conviver harmonicamente, dentro de algum tempo você será quase uma nativa (kkkkkkkkkkkkkkkk).
Ah!! torço muito por você, aproveite o máximo esta oportunidade.
Beijocas,
Lari
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kkkkkkk, diz que aqui os problemas são se entender com o mau humos dos macacos e lidar com a nudez dos que insistem em viver de tanga. Se faz de maluca que talvez você se divirta com a cara de quem quer se divertir com a sua 🙂
beijo de quem ainda convive com os macacos.
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Laika não é aquela cadela russa que orbitou na Sputink II?
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