Domingo de sol, todo mundo na praia e eu aqui cozinhando. Quem diria, hein? Você não achou que viveria o suficiente para presenciar esta cena? Nem eu.
Fato de conhecimento público: como dona de casa eu sempre fui uma ótima amiga. Por aqui, não foi diferente. Abro as janelas, coloco para tocar um rock’in roll ótimo e sirvo biscoitos enquanto alguém lava os pratos. Levanto os sapatos e o controle remoto enquanto alguém varre o chão. Amarro o cabelo com pregador de roupa, a cintura com um avental da Marilyn Monroe, tiro fotos do povo fazendo a faxina em posições desconcertantes e ameaço publicá-las no orkut. Se o dia for chato, programo o relógio do fogão para tocar no meio da noite. Enfim, tomo iniciativas diárias para que não tenhamos uma vivência doméstica entediante. Não sei o que seria desta casa sem mim.
Mas, apesar do meu empenho em promover a boa ambiência do lar, ontem determinaram que eu teria que colaborar (mais?) com as tarefas domésticas. E que ficaria sob minha responsabilidade fazer as compras de mercado. Uma exploração, eu sei. Mas, se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, o que é que eu posso fazer?
Pego a listinha de compras e me dirijo ao Lidl, estabelecimento conhecido por seus preços populares e atendimento duvidoso. Não é exatamente um lugar bonito, não tem exatamente um público bonito, não é exatamente o lugar que eu gosto de frequentar aos sábados, mas é barato. É barato e pronto, lá vou eu para o Lidl.
Para poder usar o carrinho de compras, deposite uma moeda de um euro. Para poder utilizar sacos plásticos para as compras, deposite outra moeda de um euro. Para poder entrar com sua mochila, permita-nos revistar seus pertences. Favor manter as crianças sob controle durante as compras. Não aceitamos cartões, não aceitamos cheques, não fazemos trocas, favor não insistir. É permitida a entrada de cães e gatos no mercado – hum???
Minha listinha era sucinta: sabão, alface, morango e iogurte. Logo que saí de casa, uma observação: a primeira letra dos ítens da minha lista, se colocados em outra ordem – morango, alface, iogurte e sabão – formariam a palavra MAIS. E é claro que isso não representa nenhuma evidência lógica, além do fato de trata-se de uma mente dislexa a ler uma lista de compras. E como toda mente dislexa enxerga mensagens onde não há mensagens, a interpretação foi essa: eu deveria levar mais comida pra casa. Correto? Correto. Na verdade, outro fator também contribuiu para esta conclusão: o Lidl só vende tudo em atacado. Embalagens enomes a preços irrisórios que deixam qualquer novo cliente ficar assim, digamos: atacado.
Ataquei primeiro a prateleira dos morangos. Um caixote de dois quilos que jamais conseguiríamos consumir por inteiro, mas que estava com um preço ótimo. Depois uma caixa de cinco quilos de sabão em pó. Em seguida, um saco enorme com folhas verdes de alface e um tonel de iogurte. Na emoção do momento, somei ao carrinho outras bagatelas igualmente atrativas. Concluí que estava fazendo um excelente negócio, uma redução de custos que certamente faria diferença no orçamento doméstico. O pessoal ficaria orgulhoso. No caixa, comprei sacos plásticos para embalar as compras e ainda sobrou dinheiro – meu nome é economia! Eu sempre soube que tinha jeito para finanças e talvez fosse este o meu talento – como num time onde o cara que joga mal é mandado para o gol e acaba revelando-se um ótimo goleiro. Ponto para mim.
Depois de receber o troco, o último desafio. Ali, aos quarenta e cinco do segundo tempo, eu, a revelação doméstica do momento, tinha um último impasse, uma última questão que, até aquele exato instante, não havia passado pela minha cabeça: como chegar em casa com aqueles 15 quilos de compras para carregar se eu estava a pé?
Na trave. Tive que pegar um taxi e gastei uma fortuna. De noite, durante a prestação de contas, o sermão coletivo discorreu sobre três motes distintos:
1 – Eu havia gasto todo o dinheiro das compras do mês naquele taxi desnecessário.
2 – Ainda que partilhássemos aquela comida entre os vizinhos do prédio, do quarteirão e do bairro, ela não seria consumida em tempo hábil e iria para o lixo.
3 – Aquele saco enorme de folhas verdes continha dez repolhos e nenhuma alface.
Bem, meu único argumento era que o sabão em pó não era perecível e poderia ser aproveitado nos meses seguintes. Digno. Mas não adiantou. E já que desde ontem ninguém em casa quer falar comigo, decidi apressar a minha redenção promovendo um jantar surpresa. Sim. E do que você está rindo?
Pois foi exatamente isso que aconteceu. Passei a tarde de hoje investindo numa receita ótima: escolhi uma massa de macarrão, cobri com creme de leite, milho e outras cozitas encontradas na geladeira. Para a sobremesa, sorvete coberto com mais calda de chocolate do que a lei permite. Comprei coca-cola também. E, pronto, agora é só esperar o povo chegar. Já coloquei a massa no forno, o sorvete no congelador, a vergonha na cara e vim para a internet queimar meus poucos neurônios em sites de culinária. Isso é que é dedicação ao lar! Viva Orfélia! Amélia é que era mulher de verdade.
E por falar em queimar…
Mari vc viu essa matéria? Vc tá lá!
http://correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp?codigo=25745&mdl=49
Beijos.
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Mari, vc realmente surpreende. Quem diaria q vc seria essa “excelência” como dona de casa? kkkkkk
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Mari você não existe!! Espero que o Rata ajude nas próximas investidas!!
Beijão!
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espero q tenha ficado delicioso. será q um dia ainda provo??
numa outra oportunidade experimente preparar um peixe…
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Maricota, VC É ÍMPAR!!!! Eu adoraria provar desse macarrão…vc sabe que essa sua dinda aqui é “fera” neste assunto! hehehehehehe. Diga a galera ai, que a próxima tentativa será melhor….pelo menos estamos todos aqui de dedos cruzados, para vc não ser expulsa da casa!!!!
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Amigaaaaa
Ameiiiiii
Temos dotes parecidos para o lar….rsrsrsrs
Me divertir mt lendo esse texto…quero mais!!!
Bjs!!
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