A mala de volta é sempre assim, cheia, por que a gente sempre volta com mais bagagem do que trouxe. Dessa vez, tô levando uma coisa pra você. Um conselho. Senta aí e escuta, por que este é de graça e porque conselhos, às vezes, podem beliscar a gente como certos toureiros beliscam o touro. E o touro reage.
Nada contra o cafezinho, nada contra o escritório, nada contra mergulhar neste concreto de secagem lenta. O problema é Barcelona. Você acorda de manhã, vai dormir de noite e, entre uma coisa e outra, do outro lado do planeta acontece Barcelona. Todos os dias. Mesmo que as pessoas não entendam o que é viver, o que é ir levando e nem por que deveriam marcar um xzinho na primeira opção. O problema é estar ocupado demais pra notar que o mundo tem porta de emergência – se tudo mais der errado, ainda há Barcelona.
Eu só aprendi depois cheguei. Nos labirintos de pedra do Gótico, nas casas de açúcar do Guel, bolo confeitado de cimento e cal. No povo descendo outro miradouro, outra noite quente, outra multidão, fontes luminosas, marcha caribenha, tinta e purpurina, fumaça e neon, me perco e me encontro pela Catalunya, centro da acrópole inpiradora, quadros de Dalí, torres de Gaudí, formas de Miró, cores de Almodóvar. Depois, toda noite, trazendo a mochila, dormindo pesado no chão do aeroporto, chorando no pé da Sagrada Família e rindo de novo da Novia del Mar. Desfilo nas Hamblas de chale e chapéu, saio com os amigos para conversar – em inglês com os espanhóis e em espanhol com os portugueses e em português com os indianos só pra complicar a Babel barulhenta, trinta e dois graus, hoje é quarta ou quinta? Eu também não sei, mas faz um sol de domingo, então tanto faz.
Eu subo a Ronda com as mãos no bolso, vejo tanta gente pelos calçadões, grupos marroquinos, ciclistas pelados, estátuas humanas, surfistas de trem, tudo acontecendo entre os prédios azuis, amarelos, vermelhos, estranhos, perfeitos, glace derretendo em doce de gesso, castelo de areia em tamanho real, a forma disforme dos arranha-céus na arquitetura dos loucos de pedra, eu olho pra cima de outro edifícil, vela derretida sobre o castiçal. À noite, o veludo dos anfiteatros, flamenco e ópera nos festivais, a dança inflamável dos casais ciganos, duelo de cores, briga de pavão. Alta madrugada na beira da praia, os pés ancorados na ponta do cais – o Mediterrâneo é um mar fechado, feito pra quem não quer mesmo embarcar.
Sair de Barcelona é sempre sair no melhor da festa: a gente nunca está pronto, a mala nunca fecha e a gente acaba indo embora tendo que deixar uma parte nossa. E já que eu não planto árvores, não uso embalagens bio-degradáveis e preciso fazer algo pela humanidade, vou te deixar um conselho: não esqueça de Barcelona. Se você vier pra cá, lembre que o tempo passa voando e a viagem é sempre curta. Curta. E se você nunca na vida vier pra cá? Também.
lindo muito lindo,so vc so vc,bjssss
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Me senti lá. Oxe!
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Você me fez lembar daquele filme “Albergue Espanhol”. Já assistiu?
Saudades!!
Beijos
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Amiga vc entrou totalmente no ritmo da cidade….quase n reconheço o texto….rsrsrs
Adorei!!
Bjs!!
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E Eu tia? Eu também estava lá… Não ganho um bj?
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Queria muito aprender a ver como seus olhos vêem e a traduzir o olhar como seus dedos e mãos fazem numa folha de papel (jurássico!) A cada dia te admiro e me orgulho mais de você. Parabéns Nana. Minha Nana Banana!
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Eu quero ir tb.
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