Eu não espero pelo dia
em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas
possíveis sem juízo final.
(Caetano Veloso / Fora da Ordem)

(Polar Bear / Coleção National Geographic)
A nova coleção de bichinhos de pelúcia da National Geographic é o máximo. O conceito é o seguinte: produzir brinquedos que tenham semelhança com a realidade. Afinal, como a gente sabe, o Snoopy não se parece com um cachorro, o Garfield não se parece com um gato e, se você apresentar aos seus filhos o Zé Colméia, eles jamais vão reconhecer um urso no zoológico. Os personagens humanóides são ótimos, mas deixam as crianças confusas. E com referências fantasiosas, estereotipadas, distantes da realidade.
E crescer é isso: chegar mais perto da realidade. Por exemplo, há seis meses atrás, concluí que o meu entendimento sobre certa espécie exótica – a espécie humana – estava a quilômetros da realidade. Talvez estacionado no degrau Feira das Nações. Lembra daquele evento da escola onde cada classe representava um país, montava uma barraquinha com comidas típicas e dançava uma música do lugar? Pois é. A turma da Rússia usando gorro, a turma do México dançando com maracas e o povo da China oferecendo rolinhos primavera. Minha curta compreensão sobre a diversidade humana estava neste estágio até hoje – no evento que os colégios promovem para aumentar a nossa cultura geral e nos lembrar que o mundo não se encerra no quarteirão da nossa casa. Só que o tempo passa, a gente sai da escola, vira adulto e nada muda. Nosso mundo continua se encerrando no quarteirão da nossa casa.
Até o dia em que a pessoa vai morar em Ameixoeira. Um bairro recém-construído para abrigar uma multidão de imigrantes recém-chegados – de onde? – de qualquer lugar. Você chega do trabalho e tem um vizinho queniano acendendo uma fogueira na calçada, um grupo de romenos armando uma tenda mais à frente, chilenos comprando mantas, mulheres de burca estacionando seus Mercedes e uns primos barburdos do Bin Laden trazendo seus 352 filhinhos para brincar no parque. Meu prédio fica exatamente entre o condomínio angolano e o cigano, uma zona de fronteira. Fica em frente a uma praça infantil – que parece um vídeo-clipe da UNICEF – e ao lado de um café – que não deve nada aos anúncios da Benneton. Aonde está o Toscani que não vê isso?
E, no meio de tanta diversidade, uma brasileira. E ninguém entende mais de imigração e diversidade do que os brasileiros, certo? Errado. A gente não sabe nada sobre isso. Quem sabia eram os nossos bisavós! Quando a gente nasceu, as raças já estavam misturadas, todo mundo já falava a mesma língua, usava garfo, faca e calça jeans. Já eram todos da mesma nação. Daí por que hoje você senta, pede uma esfiha, uma Coca-Cola e um petit-gâteau sem achar que está fazendo uma grande absurdo gastronômico. Um momento histórico 300 anos à frente de quem acabou de sair de sua tribo/cidade, ainda fala o seu dialeto/idioma e parece não ter nenhuma intenção de flexibilizar seus costumes. Ainda. Os indianos com seus véus, os quenianos com seus torços, as polacas com seus coques, como se toda pessoa que nascesse em Salvador saísse pra trabalhar vestido de capoerista ou baiana de acarajé. Culturas genuínas. Uma injeção de realidade que faz as minhas referências anteriores parecerem com os bichinhos de pelúcia bem-intencionados.
Adoro morar em Ameixoeira. Adoro ver o mapa mundi ficar pequeno debaixo da minha janela. E adoraria dizer que esse ambiente de multiplicidade cultural me faz acreditar na tolerância, na justiça e na integração planetária ao som de We are the world, mas não é bem assim. Os grupos humanos – essa espécie de origem primata – encontra-se em lento processo de evolução. Em outras palavras: a paz ligou e mandou um abraço. Mesmo em nações desenvolvidas, o contato direto entre povos diferentes segue o padrão ancestral: incluindo a delimitação de territórios, a criação de lideranças, a troca de manufaturas e – eventualmente – as guerras. Uma prática antiga e inútil que o homo sapiens preserva consigo, assim como o cóccix, o apêndice e o dente do siso.
Assim caminha a humanidade. Não temos petróleo, não temos ogivas e, mesmo assim, uma miniatura de guerra mundial vem esquentando o clima por aqui. Por religião, por política, por espaço, por dinheiro. Por desavenças milenares que amarelam nos livros história, por heranças de ódio, revanche e separatismo. Não importa. Depois dos ciganos fazerem arrastão pelo mercado (comigo dentro), dos colombianos quebrarem as lojas (comigo dentro) e dos nigerianos apedrejarem os ônibus (comigo dentro!!!), achei que era hora de cair fora. Comuniquei à vizinhança e todos compreenderam sem alarde. É que emigrar para fugir de uma guerra não é novidade para ninguém por aqui.
Hora de arrumar as malas. Outra vez. Por que a Feira das Nações de gente grande é diferente. Hora de pesquisar outros bairros, outra vizinhança, outro modo de vida. Quando se precisa entender a cultura do outro para sobreviver é que a gente aprende de vez a olhar mais adiante. E o mundo não se encerra mais no quarteirão da nossa casa.
Adorei, Mira. Tinha tempo que não passava por aqui, confesso. Mas, é sempre bom ler o que vc anda aprontando… e em que vc anda “viajando”…. Vou, inclusive, usar esse texto como base do manifesto em repúdio às Barbies! rs
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Amiga linda!!!
Amei o texto!!!
Saudades de ti.
Bjs!!
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Continua ótima…
Sempre bom passar por aqui e saborear bons textos!
Bjo e boa sorte aí!
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Arrepiei… Boa sorte no seu novo lar!
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Muito bom Mari.
Aliás, ótimo como tudo q vc escreve.
Bjs
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