É o avesso do sentimento:
Oceano sem água.
(C. Veloso / Queixa)
Esta semana soube de uma notícia terrível – a Puma e a Adidas fizeram as pazes. Fiquei chocada. Pra quem não sabe, a história é a seguinte: na década de 20, na Alemanha, uma empresa de calçados desportivos foi fundada na lavanderia da casa dos irmãos Adolf e Rudolf Dassler. Um dia, os dois irmãos brigaram, desfizeram a sociedade e cada um montou a sua fábrica: uma se chamava Puma, a outra se chamava Adidas. Cada uma de um lado do rio, dividindo também os moradores locais, que tinham que ser fiéis a um ou a outro empregador. Por despeito, por competição, por mágoa, o fato é que as duas empresas chegaram ao topo das marcas mundiais. Juntas.
Um história famosa, intrigante e bilionária que me faz pensar sobre a inimizade nossa de cada dia. Não, não esperem deste espírito elevado nenhum discuso pacifista por que, como todos sabem, eu gosto é do estrago. Afinal, amizade pode desgastar, afeto pode esfriar, consideração pode virar esquecimento – só inimizade é pra sempre.
Minha teoria é a seguinte: inimigo é aquele cara que tinha tudo pra ser seu amigo mas, por algum motivo, não é. Por que te traiu, arranhou seu carro, bagunçou seu cabelo. Alguém que você conhece bem, que você até adimira, mas, por qualquer razão, a coisa descambou – e, provavelmente, ficou muito mais interessante. Para isso, é necessária certa equivalência entre as partes – se você não gosta de alguém e se sente muito superior à criatura, o que você sente é desprezo, antipatia. A torcida de futebol do Brasil compra brigas com a da Argentina, não com a torcida da seleção de Feira de Santana, se é que existe.
Por exemplo: graças ao ódio entre os Montecchio e os Capuleto, ambas famílias ricas, respeitadas e ex-aliadas, o romance de Romeu e Julieta virou um clássico. Os Capuleto não resolveram brigar com os Da Silva, entende? E mais: se os dois clãs vivessem às boas, reunindo-se em churrascos aos domingos, aquele seria um namorico de playground, sem ódio, sem lugar nas prateleiras da posteridade. Sem o glamour da maledicência.
Pessoalmente, acho que sou uma ótima inimiga. Do tipo que dá o tapa, bate a porta e depois liga pra perguntar se doeu. Do tipo entra sem convite na festa de aniversário e, de preferência, com um vestido idêntico. Daquelas que quebra o vidro, arromba a janela, amordaça o poodle e rouba o CD do Chico. Dessas que não negocia. Se o rival não tem defeitos, a gente inventa. Se o rival não tem problemas, a gente providencia. E a medida da maldade é sempre a medida do afeto extinto – inversamente e milimetricamente proporcional.
Repare: inimigos são sempre íntimos. Natural que Darth Vader seja pai de Luke Skywalker, natural que Lex Luthor seja amigo de infância de Clark Kent, que Caim seja irmão de Abel, que a mãe de Hitler seja judia, que a maçã tenha sido envenenada pela madrasta da Branca de Neve e não por uma bruxa qualquer que antipatizou com a coitada sem melanina. A verdade é que eu não acredito em rancor à primeira vista. Talvez por isso ignore tão solenemente quem me ofende de graça – nem virou meu amigo e já quer ser promovido a desafeto? Gentalha, gentalha.
Inimizades não acontecem todo dia. E é aí que está o problema: depois que seus antigos rivais resolvem despencar dois (dez) degraus no quesito vida interessante, passam a postar coisas bizarras na internet e desafiar todos os limites da mediocridade, a pessoa fica sem parâmetro, sem espelho, sem meta na vida! Não sei o que fazer. Tenho conhecido muita gente inteligente, emotiva e feladaputa, gente que ainda vai me render ótimos barracos futuros, mas ainda coloco fé nas velhas rivalidades. Amigos vão e vem, mas inimigos se acumulam. Um dia eles saem da sargeta da vida banal, voltam à atividade cognitiva e recuperam o prestígio dos meus instintos homicidas. Desafetos desaparecidos, favor reaparecerem. A Puma não seria quem é sem a Adidas.
Adorei a cara nova do blog!
Show, Mari!
bjo
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kkkkkkkkkk
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Desejo sorte a todos os meus inimigos! Sempre tem-se assunto quando se tem inimigos! hehe Ótimo texto Mari! bjo
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Maravilhoso Marai.
Bjs
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kkkkkkkkkk
Amei!!!
Bjs!!
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A paratir de agora, prometo amar e respeitas todos os meus inimigos. Eles é que me fazer melhor! Adorei! Saudades e bjokas
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