
Quando eu penso que já vi tudo nesta vida, aparece um colega meu de faculdade pichando a cidade inteira com a frase Pedro procura Inês. Quis saber por fontes oficiosas o que estava acontecendo e explicação veio antecedida por uma rápida contextualização político-cultural: aquela era um referência a um fato acontecido em Portugal nos tempos do reinado, quando o então príncipe D. Pedro I apaixonou-se por uma mulher sem sangue azul, a Inês de Castro. O pai de D. Pedro, para evitar problemas diplomáticos, exilou Inês num castelo perto da Espanha, mas o cara não desistiu da moça. Daí o rei não viu outra alternativa se não mandar assassinar a plebéia, por que, como todo mundo sabe, na briga do mar com o rochedo quem se acaba é o camarão. Pedro, desinformado, continuava a procurá-la e, quando soube do acontecido, ficou revoltado: arrependeu-se de não ter enfrentado o pai antes, levou o cadáver ao reino e obrigou toda a corte a uma cerimônia de coroação e beija-mão à rainha morta. Episódio verídico que entrou para os Lusíadas, de Camões.
Depois deste parêntese histórico, a fofoca em si: meu colega havia namorado durante muito tempo com uma Inês, sendo conhecido por ser um namorado ciumento e chato. Daí, quando a Inês desta história resolveu tirar o cavalinho da chuva e amarrar em outras paragens, o cara endoidou: rabiscou os muros da cidade toda e até fez uma página na internet para falar sobre sua dor de cotovelo, suas saudades, coisa e tal. Ou seja, ao invés do cara guardar o arrependimento dele e ir sofrer calado num rancho fundo bem pra lá no fim do mundo, o cidadão faz um blog aonde todos possam opinar sobre o seu infortúnio, lamentar, dar tapinha nas costas. Bem, eu imagino que esse tipo de comunicação nem seja usado para mobilizar a piedade alheia, mas só obter um feed-back, tipo um eco da própria consciência, onde todo mundo lê e comenta: cara, a culpa é sua, você foi irresposável, você merece tudo o que está passando e a gente só está aqui se solidarizando por que gostamos de ver a justiça sendo feita. O que pode ser mais compreensível?
Eu compreendo. E, na verdade, só lembrei dessa história do Pedro por que cheguei do serviço agora e sentei decidida a dissertar sobre o meu novo e cansativo trabalho, mas daí lembrei que havia publicado no Orkut as fotos da última viagem. E concluí que, necessariamente, uma coisa contradiz a outra. Afinal, não dá pra posar ao lado da Fontana di Trevi e, no dia seguinte, chegar em casa com cara de paisagem maldizendo a minha situação financeira, os meus subempregos de segunda a segunda até as 21 horas e a minha geladeira cheia de garrafas d’água sem ouvir: cara, a culpa é sua, você foi irresposável, você merece tudo o que está passando e a gente só está aqui se solidarizando por que gostamos de ver a justiça sendo feita. Eu sei, eu sei, pode bater por que eu mereço.
Então, hoje não me sinto no direito de reclamar da vida, o que me tole do meu assunto predileto: reclamar da vida. Acho que só vai me restar recomendar o blog-muro-de-lamentações do Pedro, afinal, ele está arrependido. E, eu, nem isso.
kkkkkkkkkkkkkk
Amei!! Divino!!!
Bjs!!
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Mari você é ótima!! Já disse isso, né?!
Beijão!
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