O problema é que eu nunca tive pra onde voltar. Pense comigo: a gente sabe que quase todo mundo que mora em Salvador nasceu em outro lugar – numa cidade de interior, num distrito, numa beira de estrada qualquer. Daí o cara cresce e vai morar na capital, mas basta ter um feriado, um São João, um batizado-de-cachorro-louco pra ele querer voltar lá, rever a família, os amigos, festejar os velhos tempos e, depois, retornar de Passárgada batendo no peito e dizendo que aquele sim é lugar bom pra se viver. E eu me perguntando: se tudo isso é verdade, então por que raios o cara não vive lá?
Mas essa novela é antiga. Quando eu estudava no colégio primário, a volta às aulas era o reinado dos imigrantes interioranos saudosos do paraíso perdido. Horas e horas de relatos mirabolantes sobre as férias na cidadezinha não-sei-de-quê, que fica não-sei-aonde, um desses lugares que eu não conhecia e, provavelmente, não iria conhecer nunca. Daí, se um coleguinha dizia que em Cabuçu só tem peixe de duas cabeças, que em Paramirim só tem árvore de mil anos, que em Tabocas do Velho Brejo tem lobisomem, saci, caipora, enterro de anão e máquina de dinheiro, só me restava acatar, afinal, quem ia lá pra conferir? Na faculdade, a coisa piorou. Era fulano ter um problema, uma nota baixa, uma unha quebrada e pronto: voltava para a casa dos pais pra chorar suas mágoas no tal oásis bucólico no fim do mundo com direito a ovações de filho pródigo e bandinha tocando no coreto. Ou, se o recall de prestígio andava baixo na capital, era hora do cidadão viajar e retornar destilando novidades – o fim de semana foi ótimo, muita festa, muitos amigos, namoros e aventuras bombando lá em Boa Vista do Tupim enquanto vocês estavam aqui, levando essa vidinha insossa – mesmo que não fosse necessariamente com essas palavras, mesmo que não fosse necessariamente verdade. Todo mundo fazia isso, menos eu, afinal, eu ia fugir pra onde, meu Deus?
O problema é que eu nasci em Salvador, cresci em Salvador, passei as férias nos arredores de Salvador, ou seja, meu território era o quintal de todo mundo, conhecido demais, pisado demais – nenhuma aura de mistério, nenhum fato desconhecido que eu pudesse aumentar, piorar e distorcer com toda a minha capacidade criativa. Afinal, se um peixe de duas cabeças resolvesse aportar na praia de Amaralina, isso já teria dado no jornal, no Bocão e no Varela. Enfim, um talento desperdiçado.
Daí, pra poder contar que a minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, o jeito é viajar. E alguém que já nasceu numa capital tem dificuldades de transformar a gran-urben-natal num potinho perdido o mapa, mas consegue: viaja pra longe, monta residência do outro lado do oceano e já pode mentir à vontade, certo? Errado.
Errado por que a capital em questão é Salvador e nada que eu invente vai ser mais absurdo do que a versão real. E é só dizer que eu nasci numa cidade onde o instrumento musical típico tem uma corda só, onde existe uma praça chamada Terreiro de Jesus, onde as vésperas de feriados são enforcadas e os nativos são capazes de gastar até três salários mínimos num abadá de Carnaval para a história ganhar tons apoteóticos de lenda urbana. Entendem? E cá estou eu, de novo, sem oportunidade de dar vazão a minha prodigiosa e recalcada capacidade imaginativa, já que é só contar a verdade pra ver o queixo do povo rolando no chão. Tédio.
E o pior nem é ser tolida desta oportunidade única de mentir descaradamente. É não inventar nada e ainda ter que ouvir essa gente perguntando desconfiada: mas se tudo isso é verdade, então por que raios você não vive lá?
kkkkkkkk, muito bom!!!!
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kkkkkkkkkk
Hilário!!!
Amiga vc é jornalista!!! Nada de mentira…rsrsrsrs..conte os fatos.
Bjs!!
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Rapaz…num fala destas cidades como se elas não existissem não. PARAMIRIM, TABOCAS DO BREJO VELHO, BOA VISTA DO TUPIM, fazem parte do meu roteiro mensal e insólito na minha agenda de trabalho.
E me diga lá…onde vc foi desencavar estes municipios tão pitorescos?
kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
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