Cansei de convidar. Já tô apelando…
Archive for dezembro \25\+00:00 2009
8 motivos
Posted in choro baldes (arte) on dezembro 25, 2009| 1 Comment »
Abalou
Posted in gêmea má (maledicências) on dezembro 17, 2009| 3 Comments »
Hoje à noite, Portugal, Espanha e Marrocos passaram por um abalo sísmico de 6 graus na escala Richter. Na verdade, foram 16 abalos, mas esse foi o mais sentido e, segundo as autoridades, não será o último. Alguns muros desabando, algumas pessoas correndo pela rua, nada grave. Grave é ver a previsão da National Geographic, feita em 2004, se concretizando: “Lisboa poder vir a sofrer um novo sismo, em tudo semelhante ao de 1755, que praticamente arrasou o capital portuguesa. Segundo alguns especialistas, o terremoto de 1755 terá sido consequência da actividade do sistema de placas subterrâneas, cujo movimento continua a ser detectado, deixando no ar a possibilidade de que um novo abalo, de consequências devastadoras, possa voltar a repetir-se na Península Ibérica”.
Alguém lembra do abalo de 1755? Segundo relatos da época: “O terremoto ocorreu na manhã de Festa de Todos os Santos, durou de três a seis minutos, causando fissuras de cinco metros de largura no chão do centro da cidade. Os sobreviventes fugiram em busca de espaço aberto e foram capazes de observar o recuo das águas, revelando o fundo do mar coberto de destroços e navios submersos por séculos. Quarenta minutos depois do terremoto, três ondas de seis a vinte metros subiram o rio Tejo e deixaram vítimas também em Marrocos. Nas áreas não afetadas pelo tsunami, o fogo se levantou e as chamas varreram a cidade durante cinco dias”.
Conclusão: o mundo está se acabando. Pelo menos do lado de cá. Achei que seria em 2012, como sugeriu, garantiu e prometeu Nostradamus, mas a festa já começou. Música, maestro.
Raspas e restos me interessam
Posted in havaiana de pau (day life) on dezembro 15, 2009| Leave a Comment »
No fim da aula, meu professor resolve me emprestar um livro da biblioteca pessoal dele: um clássico precioso, obra-prima da Literatura, texto arrojado, completo, inteligente e todo escrito em alemão. Massa. Agradeço sorridente, saio da sala me sentindo a vassoura do estábulo do cavalo do bandido varrendo o chão do inferno e pego o elevador. Lá fora chove canivetes e ficam todos no saguão esperando o dilúvio passar, falando sobre qualquer coisa para matar o tempo, a tempestade, o clima, a novela e, por fim, a profissão.
O colega que queria viver de jazz abriu um estúdio para a gravação de jingles, o ator que não decolou virou produtor cultural. O ilustrador de histórias agora desenha logomarcas, moça que estudou cinema clássico edita comerciais e, por fim, meu professor, que era escritor de romances épicos virou (adivinha?) professor de Edição de Texto. Como se todos coubessem na mesma história do cara que, na impossibilidade de casar com a mulher dos sonhos, aceita noivar com a prima mais nova e menos interessante, só pra manter certa proximidade. Tudo para a falta doer menos, pra manter a porta entreaberta. Raspas e restos me interessam.
Freud chamaria isso de sublimação, mas eles chamam de realidade. Fico calada ouvindo as histórias e penso que, de certa forma, essas coisas acontecem por que a Arte é um mito democrático: todos acreditam que o grande gênio pode aparecer em qualquer lugar. Tipo craque de futebol. Para algumas profissões não existe este limbo, ou é ou não é: nunca conheci ninguém que, um dia, descobriu um dom e, de repente, virou físico quântico. Um físico quântico se constrói ao longo de anos de estudo e não depende tanto da sorte pra isso. Acho que ninguém teve notícia de nenhum astronauta que topasse vender picolé na porta do laboratório à espera de uma oportunidade, um cirurgião que vivesse esperançoso na periferia da profissão. Só na Arte o povo acredita em bilhete de loteria por que, no fundo, ninguém sabe explicar ao certo por que o talentoso A faz sucesso e o talentoso B continua nos circuitos alternativos. Diante do mistério, o êxito é improvável, mas não impossível.
É como quando você vai a uma loja e vê aquele objeto de desejo por um preço caro, mas não proibitivo. Se custasse 5 reais você pagava, se custasse 500 reais você deixava pra lá. Mas ele custa 50. Você não compra, mas não consegue esquecer o assunto.
Foto de família
Posted in raspas e restos (crônicas) on dezembro 10, 2009| 3 Comments »
– Bom dia, crianças. Como vocês já sabem, a mamãe de vocês vai ficar lá fora enquanto eu tiro uma foto de vocês três aqui no estúdio. Podem ficar em pé bem aí na frente. Vamos colocar uma beca pra fazer uma pose bem bonita?
– Tia, o que é beca?
– É… tipo um enfeite. Você coloca essa rosa no cabelo, o menino maior coloca o casaco e o menino menor põe esse chapéu, certo?
– Meu nome é Jonatha.
– Certo, Jonatha, você é o menor e fica com esse chapéu. Todos prontos?
– O Júnior pegou meu chapéu!!!
– Júnior, devolve o chapéu do menino menor agora!
– Meu nome é Jonatha.
– Isso, o chapéu do Jonatha.
– Mas, tia, esse chapéu é meu.
– Pode ser seu, querido, mas agora, só pra tirar a foto, você vai ficar com o casaco e emprestar o chapéu ao seu irmão, certo? Pronto, vamos lá. Cadê a menina?
– O nome dela é Rosa.
– Isso, cadê a Rosa?
– Tô aqui, tia.
– E cadê a flor que eu te dei? Aquela rosinha amarela pra colocar no cabelo?
– Eu não sei.
– Você perdeu?
– Eu não sei.
– Ah, meu Deus… gente, alguém viu a rosinha?
– Eu tô aqui.
– Não, querida, a rosa que estava no seu cabelo.
– Eu não sei.
– Meninos, vocês viram… mas o que é isso??? Larguem essa máquina agora!!
– Foi ele quem começou, tia, e pegou o meu chapéu.
– Não interesa quem começou, venha cá você, dá aqui essa máquina. Isso aqui é caro, entendido?? Não toque mais nisso. Cadê o chapéu do seu irmão?
– O chapéu é meu.
– NÃO IMPORTAAA!!!!
– Manhêêêêê!!!!
– Brincadeira, brincadeira, querido, a tia estava brincando. Olha pra mim: eu já sei que o chapéu é seu. Mas você que sempre foi um menino tão bom, tão generoso, não pode emprestar?
– Como a senhora sabe que eu sou bom se me conheceu hoje, tia?
– Sabendo! Olha, não interessa. Eu só quero que você empreste o chapéu ao seu irmão por um minuto, ok? Combinado?
– Combinado.
– Vamos lá. Cadê os outros dois? Ei, fiquem aí no meio, vamos posar para a foto, tá? Sem a rosinha mesmo, só com o chapéu e o casaco, todos prontos? Ninguém achou mesmo a rosinha?
– Eu estou aqui.
– Sim, querida, volte pra lá, fique no meio dos seus irmãos. Isso, todo mundo sorrindo. Por que você não está sorrindo?
– Ele não sorri por que perdeu os dentes de leite, tia. Só tem trave.
– Sorria, querido, está lindo assim mesmo.
– …
– Olha aqui, se você não sorrir eu vou ter que arrancar os outros dentes todos.
– Manhêêêêê!!!!
– Pronto, pra mim chega. Vocês vão ficar quietos e eu vou tirar essa foto agora, entendido??? Chega! Vamos lá, olha o passarinho!
– Que passarinho?
– Não tem passarinho nenhum, é para olhar para a câmera. Ei, você, devolve o chapéu para o menino menor agora!! AGORAAA!!!
– Mas, tia, já passou um minuto!
– NÃO IMPORTA!!!!
– Tia…
– O QUE ÉÉÉ???
– Meu nome é Jonatha.
O Diabo não veste quase nada
Posted in havaiana de pau (day life) on dezembro 8, 2009| 4 Comments »
Antes, eu gostava do filme O Diabo veste Prada. É uma história sobre Andrea, uma jornalista recém-formada que foi contratada pela revista de moda Runway (metáfora para Vogue) e passa por todos os tipos de assédio moral com sua nova chefe, a editora Miranda. Gostava especialmente da cena em que ela comenta sobre as suas insatisfações com um colega de trabalho e ele responde: “Querida, não faça drama. Milhões de garotas se matariam para estar no seu lugar”.
No cinema, tudo fazia sentido, tudo era engraçado e divertido, até o dia em que eu mesma me formei em Jornalismo, fui contratada por uma grande empresa de moda e tenho uma chefe que faz a personagem Miranda parecer uma mãe. Trata-se de uma companhia de recrutamento de modelos para revistas e tv: um edifício com auditórios para workshops de desfile, nutrição e estilo, com salões de maquiagem, longos cabides com roupas e sapatos, além de um andar só com estúdios de fotografia. E é aí que entro eu.
No mais, o ambiente é ótimo: homens e mulheres adultos pesando 40 quilos, elas com escarpans salto quinze e meio, eles com camisas estampadas em braile, todos afogando-se em pó campacto como se não houvesse amanhã – ainda não estamos falando dos modelos, estes são só os meus colegas – música eletrônica tocando o tempo todo, paredes cobertas de espelho, tapete vemelho em todos os corredores – o que me obriga a comentar que eu aceitaria pacificamente a hipótese do prédio ter outras funcionalidades durante a noite, mas isso não vem ao caso – telefones tocando, computadores piscando, bips bipando e eu editando fotos escondida atrás do PC para que ninguém desconfie que eu uso óculos de grau para ler. Ops, falei.
Os dias foram passando. Depois do estranhamento inicial, alguma integração: primeiro um rímel azul, depois umas botas cano-alto, depois uma saia mais curta e eu, que sempre achei que estava para a moda assim como o avestruz está para o patins, tenho que apertar a mão de Aluísio de Azevedo: realmente o ambiente errado na circunstância errada pode transformar qualquer mortal num ícone da depravação, qualquer São Francisco de Assis em um Latino, qualquer Madre Tereza em Madame Bovary e qualquer Madame Bovary em Lady Gaga. Mesmo que ele não tenha dito isso assim, com essas palavras. E o que comprova a teoria? A minha pessoa. Agora acordo cedo, dou uma lida na Vogue, intero-me de todas as notícias fúteis publicadas na rede mundial de computadores, escolho alguma coisa imoral no guarda-roupas e saio pra trabalhar. E inicio o expediente, mas não antes de ter um pit-stop de meia hora na sala de maquiagem, outro no figurinista e outro na malharia para escolher a cinta-liga do dia. Alguém chame um médico!!!
Eu disse que o caso era grave. Já fui a festas de luxo, já furei com todos os amigos para ir trabalhar, já cheguei atrasada ao aniversário do meu namorado e já domino inutilidades estéticas, como a diferença entre branco-beje, branco-marfim e branco-pérola – ou seja, incorri em todos os clichês do filme. Agora, para eu acreditar que a minha vida é um completo lugar comum, só falta algum gênio da raça querer me convencer de que, apesar de tudo, “milhões de garotas se matariam para estar no meu lugar”. E nem me olhe com essa cara por quê eu sei que você estava pensando em dizer algo assim.
Para você viveu numa caverna durante os últimos dez anos e não teve acesso aos filmes mais batidos de Hollywood, tá aí o trailler.