O que me mata é o cotidiano.
Eu quero só excessões.
(Clarice Lispector)
A primeira novidade do dia é que eu continuo tendo aulas. Até onde eu sei, quem frequenta escola em janeiro é o povo da recuperação. Mas eu nunca fiz recuperação e o único ganho que eu tinha nisso era não passar os primeiros dias do ano em sala de aula. Estamos em janeiro e a meta da minha vida é encontrar um outro bom motivo para não ingressar na recuperação, na repetência e nas reprovações em geral. Chego à faculdade e a segunda novidade do dia é que meu querido colega assisti-Glossip-e-lembrei-de-você hoje não sentou do meu lado, não ofereceu drops nem perguntou mais por que eu não quero acompanhá-lo ao cinema – por que eu não estou interessada, por que meu namorado é ciumento, por que você usa moccassim, por que hoje é terça-feira, por que, por que… eu continuaria esta lista indefinidamente, mas costumo resumir num não – só que hoje ele fez diferente. Apareceu na aula de mãos dadas com uma colega e disse que está NAMORANDO. Como assim, meu filho? Você não estava mendigando a minha atenção em troca do céu, da lua e das estrelas diante da faculdade inteira, tipo, anteontem? Hã? Esquizofrenia, a gente vê por aqui. E como já é o segundo caso nessa sala, minha teoria sobre o assunto é:
a) Eu atraio gente precavida. Gente que observa o meu temperamento difícil, prevê poucas chances de êxito e já se aproxima de mim com um plano B. Aí é só eu dar um espirro que eles tiram a carta dourada da manga – a-ha! não contavam com minha astúcia!
b) Eu atraio gente carente. Gente que precisa de um namoro urgentemente na veia em doses verticais sem prescrição médica nem exames de segurança – alguém me diz sim se não eu morrooooo!!!
c) Eu tenho jeito pra cupido. Não, não tenho.
d) Hipótese mais provável: eu tenho um dom! Ciganinha Miranda, trago o seu amor em 3 dias! É só chegar perto que a sua alma gêmea aparece! Ligue-jah!
Enfim, vida acadêmica é assim, a gente não aprende nada, mas se diverte. A aula começa e o professor distribui o calendário do próximo semestre, onde me foi possível antever os feriados que caem em dias de sábado (pânico!) e em dias de domingo (horror!). E o mestre ainda adianta que teremos aulas extras devido as recentes festas de Natal e Ano Novo. Claro. Afinal, estes feriados não poderiam estar previstos no calendário por que não são fixos, aliás, eles podem acontecer a qualquer momento, você está no meio do expediente e sai um comunicado institucional – por determinação do poder público, estão todos liberados a partir das 12h e hoje serão comemorados os festejos de Natal. E pronto. Ou imagino que não poderia ser diferente por uma questão de adaptação, já que meus professores já têm seus cronogramas de trabalho definidos desde o período pré-cristão e essas mudanças estruturais, a gente sabe, são lentas mesmo. Mas os alunos não concordaram e reclamaram muito. Meu colegas são assim mesmo, incompreensivos.
Aproveito o tumulto pra escapar da aula, dar uma volta no pátio e encontro por lá a aluna de Letras que me apresentaram outro dia. É um ser humano exótico que usa um óculos laranja e só veste preto com uma meia-calça lilás, fato que, por si só, já era o suficiente pra eu querer ser amiga da figura de graça, mas, além disso, ela escreve artigos sobre um tal Francisco Buarque de Holanda (quem? quem?) e eu realmente acho que a humanidade deve esticar um tapete vermelho pra gente assim. Tento alguma aproximação:
– Oi, tudo bem?
– Tudo.
– Aula vaga?
– Pois é, o professor não veio.
– Sei como é. O meu também não. (Mentira)
– Pois é.
– …
– …
– Mas sabe que eu bem imaginava?
– O quê?
– Que não era pra eu vir. Antes de sair de casa, tinha um gnominho no meu ombro me dizendo que hoje não ia ter aula.
– Sei…
(Gnominho? De onde eu tirei isso? Tudo bem que eu sou aluna de Comunicação e devo estar apta a ver gnomos, duendes e unicórnios, mas daí falar pra uma pessoa que eu mal conheço que tem um gnominho no meu ombro?)
– E você, escrevendo muito?
– Sim. Tinha um artigo pra apresentar hoje, pois, mas o professor não veio.
– Poxa, que pena.
– É…
– …
– …
(Não deixe o samba morreeeeeer, não deixe o samba acabaaaaaaar)
– Bom, eu acho que vou pra casa.
– E eu vou pra aula. Quer dizer, ver se vai ter aula.
– Certo, até mais.
– Até.
E a cada dia eu me convenço mais da minha pouca habilidade pra me relacionar com as pessoas. Tudo bem que eu não saiba lidar bem com silêncios nos diálogos e que eu também não saiba lidar bem com as palavras nos diálogos, mas, o que é isso, minha gente? Precisava chegar à lisergia onírica de um gnominho no ombro? Não, não precisava. Volto pra aula. Lá acontece um debate sobre o movimento separatista ibérico, que ocasionou a fundação de Portugal, depois a discussão resvala para o movimento que separou o Brasil de Portugal e outro que, agora, quer separar o Sudoeste e o Sul do resto do país. Participo ativamente do debate por que sou grande simpatizante dos movimentos separatistas. Se eu morasse em Portugal naquela época, também ia querer que o país se separasse da Espanha. E ia querer que a minha cidade se separasse do resto de Portugal. E que o meu bairro se separasse da minha cidade e que o meu prédio se separasse do meu bairro e que o meu apartamento se separasse do meu prédio. Claro. Os separatistas estão certos: o ser humano precisa é de espaço! Para comprovar a minha tese eu poderia renunciar à proximidade física com os meus colegas, pegar minha mochila e ir mais cedo pra casa exercer o meu direito à individualidade geográfica, mas fiquei para assistir à briga no fim do debate. Até por que são momentos como este que me fazem investir em matrícula de faculdade: seis meses de entretenimento garantido ou seu dinheiro de volta! Eu paguei inteira e quero ver até o final!
Daí voltei pra casa repensando aquela história de que eu só vivo aos fins-de-semana e que nos dias úteis eu morro de tédio. Não é verdade. Mas é quase verdade. Olhando para o meu dia de hoje, eu realmente acho que só 2/7 do meu tempo é interessante. Os dias comuns é que me matam.
Muito bom!!!!
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kkkkkkkkkk
Adorei o post!!!
Bjs!
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Oi, Mari.
Thayane me deu seu blog e adorei a forma com escreve. Vou aparecer sempre por aqui. Se der, dê um pulinho no meu tmb: http://www.sermulher-luna.blogspot.com.
Bj,
Paty
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“Dias iguais
Avareza de Deus”
(C. Buarque)
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