Acho que um dos aspectos mais despropositados da vida é a capacidade de algumas pessoas nos magoarem sem nenhuma intenção de nos fazer sofrer. É algo que se aproxima do meu terrível medo de morrer atropelada: tipo, que morte mais estúpida, o cara nem queria te fazer mal, você era só um obstáculo na pista. Eu ficaria conformada de ser boicotada por alguém que tivesse qualquer tipo de ódio, antipatia, inveja, instintos assassinos por mim. Que me quisesse mal por que eu sou especial, possuo um dom, nasci com uma cicatriz em forma de holograma no braço direito e posso interferir no curso da humanidade. Mas é difícil explicar para o próprio ego que alguém só molhou os seus fósforos por que estava distraído. A vida real não tem nenhum glamour.
A minha, principalmente. Mesmo que eu não seja uma pessoa facilmente decepcionável. Não por altruísmo, mas por desatenção, é preciso o carro já ter perdido o controle, ter saído da estrada e estar despencando precipício abaixo há muito tempo pra eu tirar os fones de ouvido e perguntar: como assim? Seu cão morreu, você está demitida, sua casa pegou fogo, eu quero o divórcio, sou travesti – e eu com cara de monalisa: como assim? Tragédia pouca é bobagem. No fundo, a gente cresce sendo preparado para as epopéias gregas, já espera por situacões inusitadas, roteiros apocalípticos. Mas não cogita ficar invisível no filme só por que o resto do mundo estava olhando para o outro lado.
Não devia doer, mas dói. E, antes de eu me conformar com o papel de árvore de cenário atrás do último coadjuvante mudo de uma história ruim, uma musiquinha bonita para salvar a vida dos seres humanos que passaram a semana inteira fazendo sombra na sombra.
Incrível como me identifico com seus textos… Obrigada por me fazer sentir que sou normal!!
Um abraço e sucesso sempre!
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