No percurso de Casablanca à Marrakech, um trem ainda mais tosco e lento que o primeiro, absolutamente lotado. Da janela, umas paisagens de filme épico de Páscoa, cidades abandonadas, horizontes de areia onde pastores com véus e cajados guiavam rebanhos de ovelhas tirados de um presépio de Natal. Mulheres carregando água, grupos montados em camelos e todas aquelas imagens que fazem parte do imaginário de qualquer criança nascida num país cristão – e é curioso que elas só existam em países não-cristãos. Quando o trem passava, alguns nativos corriam para o topo dos montes e dançavam umas danças loucas lá longe, as pessoas acenavam da janela e eles acenavam de volta lá do alto. Aquele não era um trem turístico, éramos os únicos estrangeiros do vagão e as crianças cobertas de véus se aproximavam por curiosidade. Fazia nada menos que 45 graus e eu estava virando um cacto.
Chegando na estação de trem, tínhamos a opção de ir ao centro pegando um TÁXI. Isso mesmo: pedir um carro, sugerir ao motorista que coloque a bagagem na mala e ir bem confortavelmente no banco de trás olhando a paisagem, meu Deus, um luxo, eu não fazia nada assim a meses. Razão da extravagância: o euro está valendo DEZ vezes mais que a moeda marroquina, ou seja, é só atravessar uma fronteira que você vai de andarilho pobre à turista de luxo sem escalas. Mentalize: as moedas que me restavam eram suficientes pra eu abandonar as econômicas barrinhas de cereal européias e experimentar de TODOS os pratos da culinária marroquina de uma sentada só. Mentalizou? Algumas moedas por dez pratos? Tudo com garfo e faca e guardanapo?? Tomei muito sol, estou delirando, alguém me belisqueeee!!!
Bela e rica, muito rica, vou ao balcão e peço um táxi. Me chega um Fiat caindo aos pedaços de onde salta um homem com um metro de barba, túnica e turbante, que guarda nossos pertences no bagageiro e entra de novo no automóvel sem pronunciar uma palavra. Entramos no carro e ele segue em frente. Teoria hipotética sobre o assunto: ou ele não fala o nosso idioma ou ele é tímido ou a religião dele não permite que se comunique com pessoas que possuam o costume indecente de vestir camisas de malha que exponham seus pulsos, antebraços e cotovelos à vergonha pública. Enfim, não importa, lá estava a gente pelo deserto a caminho da cidade, pela estrada afora íamos bem sozinhos até que, de repente, o carro pára. Teoria: o carro quebrou. Ou o pneu furou. Ou ele errou o caminho. O motorista salta do carro e, ao invés de abrir o capô para olhar o motor, ele vai até o bagageiro e tira uma MALA. Uma mala preta. Mas, como assim uma mala? Pois é, uma mala grande. Ele vai andando até o acostamento, senta no chão e abre a mala. Gente, o que faz um homem parar no meio da estrada com um carro cheio de estrangeiros em pleno deserto para abrir uma mala? Teoria: ou ele é louco ou a gente se ferrou ou as duas coisas. Dessa mala ele pode tirar uma faca ou uma serra elétrica ou uma estaca de vampiros e, na melhor das hipóteses, iremos amanhecer numa banheira de gelo com uma cicatriz no lugar do rim esquerdo ou seremos escravizados pelos beduínos e puxaremos carroças pelo resto das nossas vidas ou teremos nosso couro curtido sob o sol e nossas víceras oferecidas aos pássaros, mas, de repente, o barbudo levanta e tira da mala um TAPETE. Teoria? Ele poderia abandonar o táxi e nos levar à cidade voando num tapete? Acho que não. O cara abre o tapete, ajoelha sobre ele, vira para o horizonte e faz uma reverência. Depois outra. Depois outra. No meio da estrada, sozinho, ao lado do táxi parado e com a gente olhando pra ele da janela com a maior cara de abobalhados pensando: putz, o cara é mulçumano. Só parou pra rezar pra Alá.
Teorias? Mais nenhuma. Talvez só uma: de que eu precisava esquecer todas as minhas teorias antes de pisar em Marrakech.
kkkkkkkkkkk(não paro de rir por minutos..) texto perfeito.. talento admirável… história hilariante.. essas vivências é que tornam nossa existência interessante( em contrapartida ao aspecto mateiral) P A RA B É N S!!
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