Ano passado, uma amiga minha estava visitando Lisboa e se hospedou uns dias na minha casa. Uma hospedagem tosca, é bem verdade, onde a pessoa teve que dividir o chão da sala com uma pequena multidão, mas, enfim, essa não é a questão. O fato é que, lá para o terceiro dia, ela entrou na cozinha, sentou no banquinho da janela, suspirou e disse: mariana, está na hora de você se mudar. Nessa época eu ainda morava em Ameixoeira e tinha lá as minhas insatisfações com o bairro, mas nunca tinha chegado a essa conclusão, assim, de maneira concreta. Argumentei que o apartamento era lindo, confortável, essas coisas. E ela insistiu: você precisa se mudar. Por que a maior lembrança que você vai levar de uma cidade vai ser sempre o bairro em que você morou – os outros bairros aparecerão como pano de fundo, os monumentos, os pontos turísticos, mas a imagem mais nítida que você vai guardar de uma cidade ao longo dos anos será a paisagem da sua janela. Olhei para a janela. E compreendi o que ela estava dizendo.
É fato que, em Salvador, o cidadão que mora na Barra, o que mora na Ribeira e o que mora em Cajazeiras-dois-mil-e-um-uma-odisséia-fantástica habitam cidades completamente diferentes. Ainda que circulem por algumas ruas em comum de vez em quando. E eu não tinha percebido que, em Lisboa, eu não estava escolhendo a cereja do bolo. Vinte dias depois dessa conversa, o táxi do carreto já estava na porta.
E, hoje, como eu vou sair pra olhar um novo apartamento, procurar casa outra vez, me lembrei deste dia. Lembrei de como uma opinião externa pode ajudar a gente a enxergar o óbvio.
E, talvez por que eu esteja novamente às portas de outra mudança – e mudança nenhuma vem desacompanhada – me veio hoje uma gratidão tão boa e sincera por todas as pessoas que, em algum momento, viraram pra mim e disseram qualquer coisa assim. Que eu precisava mudar. Que a minha vida podia ser diferente, de uma maneira melhor, mais fácil ou mais bonita, qualquer coisa que, naquele momento, eu não conseguia enxergar. Mesmo sendo o ser humano mais teimoso do universo e quase nunca seguindo as sugestões dadas, acho que eu nunca me recusei a ouvir um conselho por que, por mais absurdo que seja o conselho, ele é sempre uma prova de que alguém se importa. E eu respeito e admiro pessoas que se importam. Por que é sempre mais fácil, cômodo e educado simplesmente não se envolver.
E me dá uma alegria enorme lembrar de todo mundo que já se meteu na minha semana trazendo soluções brilhantes e planos infalíveis, que interferiu nas minhas decisões, gente que já me pegou pelo colarinho pra gritar que eu estava sendo louca, burra, egoísta, psicopata, por todo mundo que já comprou briga comigo para mudar a minha vida. De alguma forma, mudaram. Mesmo que eu nunca tenha dito isso assim, de maneira clara. Que eu nunca tenha dito muito obrigado. Eu sou grata. A vocês que melhoram as paisagens da minha janela.
Mari,
Desejo que estejas feliz na nova morada.. nem precisa dizer que me divirto muito lendo seus textos. Continue feliz..bjs
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Oi Mari, não quero ser pretencioso mas me identifiquei com o seu texto – uhauhauhaha
Lembra quando eu falei: “Só vou falar com você quando estiver fora do Brasil!” uahuahuahah
Bem, fico emocionado a cada texto seu, vedo que você está feliz e que eu não te incentivei para uma enrrascada! ehehe
Curta a sua nova paisagem e continue sendo “paisagem fantástica” para a janela de nossa vida também!
Abraço
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Negocinho de muito obrigada porraniuma hehehhe eu quero é meu real! rsrs
feliz janela nova, mami!
e volta looooogooooooooo!
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Querida!!
Você é ótima! Que sua nova paisagem seja alegre e inspiradora como você!!
Um beijo!
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Vc não tem ideia da diferença q causa em minha vidinha com suas palavras tão sensíveis…
Gol de placa outra vez, aos 45 do segundo tempo!!
Valeu!
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“Não, Tempo, não zombarás de minhas mudanças!
As pirâmides que novamente construíste
Não me parecem novas, nem estranhas;
Apenas as mesmas com novas vestimentas”
(Shakespeare)
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Querida Mariana,
este, como tantos outros, provocou reflexões sobre o quanto são importantes essas pessoas que melhoram as paisagens das nossas janelas.
Obrigado, parabéns por provocar em nós leitores, essas pequenas mudanças.
E Feliz aniversário!! Bjos,
Gabriel
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Como sempre, fabuloso!
Parabéns minha amiga, pela percepção e pela data.
Beijos e saudades,
Hebert Araújo (Candinho)
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