(Olivais, 30/06/10, 9:30)
Último dia bairro dos Olivais.
Só quando o pessoal entrou aqui em casa em prantos para se despedir é que me caiu a ficha de que, aqui, mudar de bairro é um pouco mudar de país: lágrimas, presentes, tudo como se eu estivesse indo pra muito, muito longe. De alguma forma é – esses são meus últimos dias no bairro indiano e, pra onde quer que a pessoa vá, vai sempre haver certo choque cultural. E a despedida da vizinhança teve aquela tônica festiva e fatalista de sorte irremédiável tão típica deles que me lembrou o trailler de Quem quer ser um milionário?, quando o narrador pergunta:
Jamal tem apenas uma questão para ganhar 20 milhões de rúpias. Como ele fez isso?
a) Ele trapaceou;
b) Ele é um sortudo;
c) Ele é um génio;
d) É o destino.
E a resposta é a letra D. É o destino.
Depois chegou o caminhão da mudança denunciando a minha Síndrome de Diógenes – o que era apenas uma mala agora recheia um caminhão-baú – e eu viajei no bagageiro, bem bonita, sentadinha no sofá até Alfama. Chegando lá, tinha um grupo de turistas japoneses fotografando a minha rua. Depois posando na porta da minha casa. Pensei em cobrar por excursões guiadas pela minha sala, quarto e cozinha.
Sabe, isso de ir morar no centro histórico está me subindo à cabeça. Já estou me sentindo uma daquelas gringas diletantes que, quando vai passar uma temporada em Salvador, faz questão absoluta de morar no Pelourinho, passear pelo Carmo, subir a ladeira da Sé. Claro. Se fosse pra perambular por ruas asfaltadas cheias de prédios espelhados a pessoa não precisava ter ido para a Bahia. A lógica é a mesma: se eu quisesse conforto eu não iria pra lá, se eu quisesse praticidade eu não iria pra lá, se eu quisesse paz e tranquilidade alugava um quarto de hospital, onde é tudo branquinho, silencioso e tem cama em sete posições.
Na esquina da rua da confusão com a rua da boemia, enfim, meu novo endereço. Uma casa vazia, sem geladeira, sem fogão, sem absolutamente nada, entro com as caixas e com o meu único sofá, sento nele e fico olhando para o teto. E só. Não sei como resolver o resto. Nem a instalação da luz, nem a do gás, nem como comprar móveis e eletros, como fazer o registro de água, do aquecedor, meu Deus, muita calma, filosofia indiana, não importa a pergunta, a resposta será sempre a letra D. É o destino. É o destino, está tudo escrito e as coisas vão se resolver. Você é a pessoa certa no momento certo.
Jai-ho, Mariana. Bem-vinda ao lugar certo.

bem-vinda a mais um capitulo de vc!
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Pôxa,
Quando este sofrimento acaba??
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