E aí eu vi a fotografia e fiquei lembrando daquele episódio de Glee onde a protagonista está assistindo a um ensaio musical e reconhece, na cantora que está no palco, a sua mãe biológica. A canção é Fanny Girl, numa versão parecida com a de 1968. A garota se emociona e, depois da apresentação, vai até à criatura e diz: olha, eu sou sua filha. Juro que eu pensei que, nessa hora, teríamos uma daquelas cenas típicas de drama e lágrimas e abraços, mas não correu assim. Termina com a mãe voltando para o camarim desorientada e falando para o instrutor:
– Aquela garota é a minha filha!
– Nossa, 20 anos depois da adoção, você encontrou a sua filha novamente! Que fantástico!
– Não é fantástico. Aquela é uma mulher adulta, eu não sei nada sobre ela.
– E o que você queria?
– Eu queria o meu bebê de volta!!!
Conclusão cruel.
E acho que também é meio cruel estar pensando nisso agora – quanto tempo faz? – mas acho que todo reencontro nos apresenta uma pessoa nova. Ou vinte anos depois ou vinte dias depois. E a verdade é que a gente não quer uma pessoa nova. A gente é teimoso, casmurro e chato feito o velho Drummond, saudoso da sua terra, não da cidade que está no mapa, mas de uma outra, que só existia na lembrança dele: “O que resta dessa velha Itabira? Um espelho que não reflete mais o dono”. Não importa se a cidade está mais bonita. Não importa se ela está mais moderna, mais rica e mais interessante. Ele não se reconhece. E Narciso acha feio o que não é espelho.
Há vezes em que dá certo, como alguém que encontra um relógio antigo na gaveta e vê que ele ainda marca a hora sincronizado com o do nosso pulso. Um belo dia você revê alguêm e conversa e reconhece. E o coração se acalma. E cada um conta um pouco da sua vida e das pessoas novas e você acha engraçado quando o outro diz “mas, sei lá, eles eram meio sem assunto” e o outro ri quando você fala “pois é, eles não entederam nada”, por que sabe que ele entende. Que vocês se entendem. E que, por isso, estão menos sozinhos no mundo.
Ainda que essa não seja a regra, já que todo reencontro é uma roleta, sempre nos apresenta uma pessoa modificada e acaba sendo, em certa medida, um desencontro. Tem sempre uma peça do jogo que sobra, que não encaixa mais. Que pode ser uma peça banal e dispensável, ou pode ser a cereja do bolo, e talvez isso explique esse frio na barriga cada vez que reencontro alguém que quero bem, por que rever é sempre tatear um caminho de volta pra casa, ou a gente se acha ou se perde de vez. E, às vezes, eu penso isso. Que reencontrar gente que lhe sorri e lhe reconhece e lhe abre os braços e lhe diz sim mesmo no meio de tanta partida e chegada e ausência e saudade de lugares e pessoas que podem nem existir mais, ou não existir mais do jeito que a gente sabia, talvez seja a única certeza possível nessa fase tão confusa de tanta gente indo embora. Sabe, o jogo nunca vai completar. Mas quem tem que ficar, fica.
[…] 22, 2010 por marianamiranda Eu citei Glee aqui semana passada e muita gente abanou a cabeça dizendo: pois é, esse filme é ótimo. Realmente é […]
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