Hoje foi o dia perfeito para uma daquelas discussões sem finalidade prática que terminam sempre em teorizações filosóficas, também sem finalidade prática, dignas de uma tarde de quarta-feira aonde, aparentemente, nenhum dos meus colegas de ofício encontrou ocupação melhor. Contexto: eis que o ser humano A acredita que, para uma instituição filantrópica ser levada a sério, ela só deve beneficiar a públicos-alvo que não tenham nenhuma ligação direta com o perfil dos seus integrantes. Não estamos falando de parentesco. Por exemplo, se uma instituição beneficente contrata um funcionário cadeirante, um imigrante asiático e um ex-dependente químico, por princípio o trabalho deles não deve beneficiar nem grupos de cadeirantes, nem de imigrantes asiáticos, nem de dependentes químicos. Fato que tornaria o simples encaminhamento de doações um processo complexo e subjetivo.
Em oposição, há o ser humano B que, mesmo compreendendo as boas intenções de A, considera estes critérios irrelevantes. E o ser humano B, invariavelmente, sou eu.
Entendo que credibilidade e impacialidade sejam substantivos próximos, já que é mais fácil convencer as pessoas que um problema existe se você não for vítima dele. Ninguém leva a sério quem fala em benefício próprio, tipo, se você quiser convencer alguém de que o que importa é a beleza interior, a única condição para isso é que você não seja, por excelência, feio.
Eis que, no auge da discussão, o ser humano A repete o quanto isenção é sinônimo de credibilidade citando que, por exemplo, é um absurdo que um indivíduo que nasceu na cidade de Salvador da Bahia (eu), é do sexo feminino (eu) e NÃO TEM CARRO (eu) receba tantas pautas sobre racismo, igualdade de gênero e combate à pobreza. Que era parcialidade demais para uma pessoa só.
Silêncio constrangedor no recinto. E nenhum contra-argumento, por quê, bem, é necessário reconhecer: o ser humano A, provavelmente (e infelizmente), está certo.
A discussão prossegue e fica levantada a questão: já que dissertar em primeira pessoa pega mal, sobre o que a gente pode escrever? Bem, você pode lutar por qualquer causa, portanto que ela não seja a sua. Para ter o máximo de liberdade na definição de temas, o ideal é que você tenha o perfil: branco, sexo masculino, heterossexual, entre 25 e 35 anos, renda anual acima de 300 mil dólares, escolarizado, empregado, magro, nascido numa cidade com mais de 2 milhões de habitantes e sem antecedentes criminais – ou seja, o que o IBGE consideraria como o grupo que sofre menos preconceitos na nossa sociedade atual. Aí, sim, não sendo vítima de nada, você teria total liberdade para defender a causa que bem entendesse, certo? Errado. Nem você poderia defender o seu próprio grupo. Até porque sair por aí levantando bandeira pelos homens-brancos-e-heteros-nascidos-não-sei-aonde só pegaria bem lá na Alemanha de 1930, amigo.
O fato é que distribuir pautas de maneira politicamente correta está cada dia mais complicado. Minha sugestão para que você, cidadão comum, não corra o risco de estar falando em causa própria é se interessar, sei lá, pela preservação do mico-leão-dourado. É um tema da moda e não tem erro, ninguém vai te acusar de ser parcial. Isso partindo-se do pressuposto de que você não é amigo, vizinho, sócio, cliente, parceiro, colega, conhecido, irmão, primo, nem parente distante de nenhum mico-leão-dourado. Obviamente.
Epa….jornalismo….n jornalistas…rs….
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Imparcialidade n existe…qd assunto é jornalismo. Fala p seu amigo ai desistir…rsrs
Amei o texto.
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kkkkkkk
que dilema: imparcialidade ou amor pela causa…
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