Tudo que eu precisava nessa semana de derrocada financeira e crise existêncial é que os pedreiros da rua implicassem com a minha casa. Claro. Sabe quando você já acorda desejando que todos os seres humanos que se dirijam à sua pessoa implodam subitamente e virem purpurina antes de pronunciarem a primeira palavra? Não? Hum. Esquece.
É que o edifício da frente está em obras e a vizinhança começou a reclamar do barulho que os trabalhadores (brasileiros) faziam durante o dia. Não do ruído das máquinas, mas do bate-papo mesmo. As queixas foram ignoradas e eles poderiam continuar incomodando a rua inteira indistinta e democraticamente, certo? Mas nããão. Os vizinhos fizeram o favor de comentar com o grupo que, naquela casinha branca ali, mora uma conterrânea deles. E eis que a dona da casinha branca nunca mais teve paz. Por que é só ser vista cruzando a esquina para a população dos andaimes começar a cantar os piores hits dos baixos trópicos em sua homenagem. E toda vez que a discreta imigrante sul-americana sai pra estender a roupa ou jogar o lixo fora ou comparecer à faculdade, tem direito a um coral-Glee-do-triângulo-mineiro entoando no último volume “seu guarda eu não sou vagabuuundo, eu não sou delingueeente, sou um cara careeente” ou “eu me apaixonei pela pessoa erraaaaada, que nem sabe o quanto que eu estou sofreeeeendo”.
Queridos, tipo assim, SOFRO EU.
Como explicar à humanidade que eu não nasci no mesmo país dos ouvintes de Belo? Que eu nunca habitei o mesmo planeta dos fãs de Perla? Não se explica. E a minha reputação mandou lembranças.
.
.
(pausa para reflexão)
.
.
Ok, tudo bem, acho que estou sendo injusta com o povo da obra. Eles são simpáticos e provavelmente nada disso estaria me irritando se eu não tivesse passado o mês inteiro dentro de casa. É que eu larguei o emprego. De novo. Mas é importante esclarecer que, dessa vez, eu só me demiti por razões… eh… como explicar? Suponho que continuar trabalhando para uma instituição que arrecada dinheiro para as criancinhas pobres depois que você já sacou que o dinheiro NÃO vai para as criancinhas pobres pode, sei lá, fazer mal para o karma. Né? Escurecer a aura. E já que aura é coisa complexa, não custou ligar para os patrocinadores comunicando tudo. E mandar material de denúncia. E abrir processo no JPC. E outras trivialidades feitas em nome dos bons fluidos do meu ectoplasma.
A operação teve êxito, mas, por motivações de fácil dedução, eis que meus ex-patrões resolveram não pagar as minhas horas trabalhadas e a coisa, é claro, embolou. No money, no honey. Culminando no episódio edificante da minha pessoa trancada em casa bancando a egípcia embalsamada enquanto os funcionários da Ebal batiam na porta para cortar a água. E a luz. E o gás. E a Internet. E a tv a cabo. E o oxigên…
– Mariana Miranda? Conheço, não.
Eu já não sabia se continuava escondida em casa ou saía pra procurar emprego ou nem me escondia nem procurava nada e morram todos.
Enfim. O fato é que tanto bônus no inferno astral somado ao coro ocasional de Não aprendi a dizer adeus e Fio de cabelo no meu paletó aqui na porta foram me inspirando uma vibe pessimista, uma onda malévola de que nada vale a pena e que era melhor desistir logo de tudo, não há esperança, não há amanhã, no love, no glory, no hero in her sky e mais um pouquinho vocês iam me encontrar na praça mais próxima abraçada a uma garrafa de tinto balbuciando que o apocalipse não tarda e eu-serei-mais-feliz-do-lado-de-lá-da-matrix. Difícil, tudo difícil. E eu acho que a coisa só não degringolou de vez por que o telefone tocou e marcaram duas entrevistas de emprego pra hoje, o que me obriga a tomar banho, escovar os dentes e reviver outros hábitos que eu já estava abandonando.
É isso. E eu queria afirmar que esse foi o último surto fatalista do ano, mas eu sou uma pessoa honesta. Estou indo agora fazer cara de conteúdo para outra platéia de empregadores e colocando a maior fé na minha pokerface. E essa é a parte tranquila.
Difícil é abrir a porta de casa. Me desejem boa sorte. Hei de sobreviver ao repertório.
Q orgulho de ti. Meus aplausos de “pé”
pela denúncia.
Bjs!
CurtirCurtir
“Culminando no episódio edificante da minha pessoa trancada em casa bancando a egípcia embalsamada…”
Adorei isso.
CurtirCurtir