Do you like me, do you like me standing there?
Do you notice, do you know?
Do you see me, do you see me?
(The Cranberries / Ode to my Family)
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Eu nasci duas vezes. A primeira, numa cidade litorânea da América do Sul com um costume curioso de sincretismo – o que talvez tenha me desabilitado a racionalizar de maneira objetiva os acontecimentos diários, mas que me ensinou qualquer coisa importante sobre interseções. Sobre o fato de todo grupo, idéia, acontecimento ter um ponto em comum com outro acontecimento, uma boderline, um momento em que se tocam e são iguais. Na minha família, somos quase sempre muito parecidos. E eu acho curioso encontrar tão longe, na sua certidão de nascimento, o meu sobrenome.
Sabe, eu nunca fui tímida. Nunca tive vocação para a alegria contida, para as boas maneiras, para conjunções adversativas depois dos elogios. Eu acredito em abismos, em faltas de ar, em saudades dilaceradas, em pessoas que vibram por dentro e ardem, ardem, ardem em vontades explosivas, em gente que fala olhando nos olhos, em quem nasce de novo, em quem recomeça. Não aceito palavras que não sejam a fratura exposta da verdade ou que me venham com meios termos, com eufemismos de qualquer coisa. Creio em destinos, em sinais, em sangue vermelho correndo nas veias e sou um legado fiel da minha genealogia em traços, maneiras e fé: sou dramática, difícil, impulsiva e quase tudo que eu faço me deixa exausta, por que eu quero muito. Eu nunca quis pouco. Você também não.
E hoje, talvez por quê é o dia de ir embora, talvez por que todo fim de estrada costume ser a esquina para uma outra, depois de quase três décadas de desinteresse pelo assunto, eu me pego pensando em minha ascendência já falecida, avós a muito perdidos, primos em décimo grau ou, no caso de uma família engendrada como a minha, nos encontros e desencontros de genes da mesma raiz ao longo do tempo até aqui, agora, em mim, em você. Por que meios? Não há nada nos livros. Canta, ó Poeta, a mutação recessiva deste cromossomo gêmeo do meu. Canta o florecimento há cinco séculos nas pedras destes três continentes, enquanto as ondas batiam e as vinhas cresciam nas serras do Porto. Canta a sua passagem por dez gerações, acumulando-se invisível na herança mais inconsciente de todos que cresceram à beira do Atlântico, todos os que assistiram ao envio deste legado de sangue em embarcações, em promessas distantes de reencontro, como uma cópia da mesma semente indo sobre o mar até a América e caindo, em meio às chuvas tropicais intermináveis, no solo fértil do útero latino da minha primeira bisavó.
Perdoe-me se, às vezes, eu fico um tanto épica. Isso também é de família.
Por isso td e mais um pouco é q eu te adoro amiga!
Lindo texto! Quero o livrooooo já!
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Inspirador!
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Já fazes tanta falta, Maria Monforte.
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