A sua loja não ficava no meu caminho. Quer dizer, durante aquele primeiro mês, a verdade é que eu não tinha bem um caminho. Eu tinha um punhado de horas vagas entre o trabalho e o estudo com o qual eu não sabia exatamente o que fazer – a cidade nova, a falta de amizades estabelecidas, família ou assuntos a resolver tornavam-se fatais ao fim de trinta dias – por quê um mês é tempo suficiente para você deixar de se sentir como um turista e tempo insuficiente para você passar a se sentir como qualquer outra coisa. Entrei numa rua ao acaso onde havia um bar vazio, um estacionamento e a sua loja. Nesta ordem de importância.
Era inverno. E eu me lembro disso por causa da praça do outro lado da rua: os pinheiros iluminados, os casais patinando no gelo e aqueles grupos de crianças em corais cantando nos tablados, tudo atraente o suficiente para me levar intuitivamente para o lado de lá da calçada, mas eu continuei indo em frente, onde havia a sua vitrine. Era a vitrine de uma loja minúscula. Chapéus antigos, peças de brechó, artigos para colecionadores e uma infinidade de esquisitices que me transportaram para uma dimensão interessantíssima. Eu abri a porta devagar. E ali, dentro de um colete dourado e um par de sapatos roxos, eu descobri que você era uma velhinha.
Não sei quanto tempo durou aquela visita entre cabides de fantasias orientais, pôsters de desenhos animados, postais em preto e branco e vinis que você colocou para tocar e estavam impecáveis. A conversa fluía tão animada que levei algum tempo para perceber que você não falava português, nem eu falava chinês. E toda a comunicação acontecia entre apontar de objetos, risadinhas e interjeições aleatórias, você me mostrando uma miniatura de roda-gigante – ohhhh! – depois, um dragão fosforescente – uauuu! – e uma série de produtos improváveis que pareciam o cenário de uma ficção. Às vezes, quando eu queria saber para que servia determinado objeto, você erguia os ombros com a expressão impagável de “eu não tenho a menor idéia!”, tinha um acesso de riso e era preciso ligar para os filhos em casa, descrever a peça e perguntar o que se fazia com aquilo. Sempre acenando com os olhos puxados e com um sorriso largo de quem gosta sinceramente das coisas, até de uma estranha que entrou pela porta da loja e nem parecia querer comprar nada. Antes que eu fosse embora, você acenou algo como “volte sempre”. E eu voltei.
Várias vezes. E você me recebia com exclamações de palavras incompreensíveis, abria caixas e apontava as novidades, rindo o tempo todo. E eu me sentia menos deslocada no mundo. Meses depois, no dia em que eu fui me despedir avisando que ia embora para longe, muito longe, você fez uma pausa, foi até os fundos e me trouxe um latinha pequena, contendo algo que parecia ser chocolate. E fez uns gestos com a mão que interpretei como “isso é bom!”. E eu acreditei. Viajei com o embrulho, guardei aqui comigo e o tempo passou. E agora, tão distante, às vezes eu me tranco no quarto, abro sorrateiramente a latinha de metal e, mesmo sem ter idéia do que estou mastigando, guardo esse gosto na boca toda vez em que tudo dá errado. Cada vez em que o acaso falha, cada vez em que as pessoas se desencontram por razões idiotas e definha um pouco mais a minha crença na humanidade. Cada vez em que eu deixo de supor que o universo conspire mesmo ao meu favor, eu lembro que a sua loja nem ficava no meu caminho. Nem os seus sapatinhos roxos, nem as rodas-gigantes, nem os dragões fosforescentes, nem o conto infantil de onde você certamente saiu. E eu me sinto melhor.
Achei que você gostaria de saber, Mrs. Wei.
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