Acho que a parte mais difícil da minha readaptação (dá pra falar em readaptação depois de seis meses?) está sendo voltar a andar de ônibus. É duro. No fundo, acho que comprar um carro representaria, simbolicamente, um passo rumo a uma decisão de sedimentação perene na cidade do São Salvador de maneira longeva, adulta e estável. Logo, também não há planos neste sentido. Ou seja.
Aos indecisos, o limbo.
E o limbo nunca foi tão próximo do infeeerno. Vou resumir dizendo que houve uma noite em que eu desisti de bancar a madura, saltei de um ônibus e entrei num táxi. Eu já havia passado tempo demais representando a classe proletária e sofredora à espera do coletivo enquanto o céu fechava-se num Armagedom. Depois, embarquei num ônibus cheio que era a visão épica de um pesadelo mitológico. Ah, meus caros, não há Kafka, Schiller, Rubens Fonseca que ilustre assim o desespero humano. Procura terror de verdade? Pegue um ônibus em Salvador. Queria Dante escrever como o Seteps.
E, então, me veio, como uma iluminação, a idéia de que tudo aquilo era desnecessário. Que eu era uma pessoa inteligente, dotada de sorte, acolhida pela energia cósmica e que me seria concedida outra solução. Ainda que acontecesse um dilúvio messiânico eu seria poupada, porquê algo (um anjo? um príncipe? uma arca?) me salvaria. Algo como um táxi.
Mas, sabe, Deus não gosta de gente burra. Ele castiga.
O resgate dos céus me chegou dentro de um chevete de faróis apagados, pára-choque DOURADO e taxímetro na bandeira 2. Depois, o de sempre. A pergunta que todo taxista faz quando me busca nas proximidades de um bar:
– A senhora está bêbada, moça?
– Não. Eu sou assim mesmo.
Silêncio. Não dura.
– A senhora dirige?
E ele começa um discurso sobre os malefícios da bebida e tragédias automobilísticas enquanto o rádio toca uma daquelas pérolas da alta MPB – TÔ FAZENDO AMOR COM OUTRA PESSOOOAAAAA, MAS MEU CORAÇÃÃÃÃOOOO… – de modo que eu reflito numa forma de deixar de existir naquele tempo e lugar. Até que ele pega a rua errada.
– Moço, não é por aí.
– Mas o GPS disse que é.
– Mas eu tô dizendo que não é.
– A senhora quer saber mais que o GPS? HHUAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
Isso foi um grito.
– O QUE ACONTECEU, MOÇO, PELAMORDIDEUS???
– CEMITÉRIO, CEMITÉRIO!!
Ele gritou porque no meio do caminho tinha um cemitério, tinha um cemitério no meio do caminho. O babaca faz a volta no Jardim da Saudade feito um louco e retoma a pista que eu havia indicado enquanto respira por uma dessas bombinhas para asmáticos, daquelas que identificam um loser na multidão.
– Isso, agora o senhor vira à direita.
– Não, é à esquerda. O GPS tá dizendo que…
– Deixa pra lá, eu vou saltar aqui.
E, no minuto em que eu deixo o táxi, o que acontece? Hein? Hein? Chove. Chove baldes. Chove cântaros. Chove canivetes. Aliás, toda vez em que eu já tenho motivos suficientes para querer tirar as calças pela cabeça, chove, sempre chove, é uma espécie quarta lei da física (conheço tantas quartas leis da física que não sei como não tô com um Nobel lá em casa). Diante da circunstância desfavorável, reflito num suspiro. E faço o que toda pessoa madura faria: sento e choro. Aos soluços. Resistindo ao impulso infantil de ligar pra casa pedindo socorro talvez por quê, no fundo, eu ainda aguardava pelo resgate cósmico. É que nem encharcada na porta de um cemitério arrastando a minha existência pela madrugada deserta das ruas de Brotas eu deixo de acreditar que sou o centro do universo.
Fui andando para casa. Voltei à civilização, tomei um banho, fiz um chá, dei continuidade à minha vida de terráquea insignificante. E fui dormir aguardando pelo extermínio ou teletransporte.
Para desespero do caro leitor, nenhum dos dois aconteceu.
Fala Mari Miranda….
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Mais um ataque de riso de Lúcio!! Muito bom Mari!
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Esse foi muito bom!
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kkkkkkkkkkkk
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