Eu me lembro do dia em que o Antônio Granado, que era professor de Jornalismo Digital – e nada tinha sobre Literatura em sua grade curricular – resolveu falar sobre romances literários numa das primeiras aulas do mestrado de Jornalismo. Ele disse que, infelizmente, o mundo contemporâneo estava exercendo uma seleção natural sobre a indústria das publicações: ninguém tinha tempo pra ler e, num universo incontável de títulos, as pessoas tendiam a dedicar-se a uma dúzia de livros necessários e insubstituíveis. E renunciar a todo o resto.
E acrescentou que, só depois de ler a primeira página, é que o leitor decide se vai prosseguir pelas próximas 99, 199 ou 599 folhas. Que a primeira página teria que ser, necessariamente, a mais interessante. E que os jornalistas teriam mais vantagens neste particular: estavam acostumados e fazer o lead (resumo da matéria no primeiro parágrafo) e a lidar com a falta de tempo dos leitores.
Bem, Granado, além de professor, já era um dos nomes mais atuantes da maior rede televisiva de Portugal. Um cara que dedicou a carreira a descobrir do que as pessoas gostam – oquê, como, onde, quanto e quando. E ele continuou argumentando, projetando no telão os primeiros parágrafos de vários romances famosos escritos por jornalistas, parágrafos que eram iscas irresistíveis para que, mesmo o leitor mais distraído e desinteressado, fosse seduzindo e levado por telepatia às livrarias do mundo inteiro. Como, em muitos casos, aconteceu.
Na tela, os primeiros parágrafos de Crônica de uma Casa Assassinada, Medo e Delírio em Las Vegas, Cem Anos de Solidão, dentre outros. Fiquei convencida.
Na noite do mesmo dia, eu tinha aula do mestrado de Edição de Texto – na época, eu ainda estava cursando os dois – com o professor Rui Zink, que é crítico de arte da FNAC. E ele afirmava que as pessoas não compram livros pelo enredo ou pela primeira página, mas pelo nome do autor. Assim como as pessoas não foram ao cinema assistir Volver ou Abrazos Rotos, foram assistir Almodóvar. Ou Hitchcock ou Woody Allen. Tanto faz se compram A Metamorfose ou O Processo, portanto que seja Kafka. Ou seja, o nome do escritor era uma espécie de grife literária e a editora que quisesse vender best sellers deveria gastar mais tempo criando mitos sobre o autor do que corrigindo e reelaborando seus textos. Afinal, todo mundo sabe Paulo Coelho é um bruxo, Oscar Wilde era um dândi e que Camões era caolho. Mesmo quem numa folheou um livro deles.
Depois, professor Rui acrescentou que a segunda coisa mais importante num livro era o título. E que, não por acaso, eram esses dois elementos que constavam na capa: o nome do autor e o título. Que um título instigante era um elemento tão decisivo no ato da compra que não deveria ser escolhido pelo próprio escritor, mas por um publicitário – afirmação que, é claro, escandalizou os meus coleguinhas e causou discórdia entre os alunos, redefinindo um novo conceito de fim do mundo – assim como seria responsabilidade do publicitário a diagramação da capa, a editoração do conteúdo e tudo mais.
Enfim*.
O fato é que eu voltei pra casa pensando nos dois argumentos. E, mesmo eles sendo tão diametralmente opostos, eu achei que, de alguma forma, os dois estavam corretos.
Desde então, passei a guardar o texto de primeira página dos romances que andei lendo, como quem tenta refazer o caminho do anzol até a isca – deu trabalho, sou presa fácil, leio coisas aleatórias – e continuo não fazendo ideia de que critério utilizei para decidir por cada um deles. Uma pena. Às vezes, acho que passar a vida crendo em conceitos como coincidência, sorte e destino pode ser, de alguma forma, como acreditar que os livros saíram das livrarias e foram flutuando sozinhos até a nossa estante. Um dia, a gente acorda, olha para a própria biblioteca e tenta reconhecer os títulos – e acha os autores tão distantes, os enredos tão complexos. A gente sabe que escolheu cada um deles. E não sabe dizer por quê.
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*Enfim, enfim. Acho que eu sempre utilizo a palavra “enfim” quando eu sei que poderia passar algumas horas discorrendo empolgadamente sobre determinado assunto, mas mataria as pessoas de sono. Como diria professor Granado, existem assuntos interessantíssimos que, infelizmente, só interessam a nós mesmos. Se você encontrou um “enfim” neste post, sorte sua! Você foi poupado, caro leitor.
** Sou capaz de publicar aqui estas “primeiras páginas” só para dar uma função prática a esta coleção inútil e diletante. Se alguém tiver algo semelhante, envia por e-mail, posto em anonimato. Juro.

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