– Olá, Mariana. Infelizmente, nosso projeto terá que ser revisto. Te explico detalhes. Até lá.
Hoje, esse e-mail me fez lembrar uma história muito, muito antiga. Quando eu era criança, meu pai tinha um sítio. O lugar era a coisa que ele mais gostava nesse mundo. A área era simples: um casarão, um jardim, umas mangueiras – e, mesmo assim, entre construir uma piscina para uso próprio ou transformá-lo numa grande pousada, o fato é que todos os planos que ele tinha pra o futuro incluíam, de alguma forma, o tal sítio.
A gente gostava de lá. Mesmo assim, às vezes, ele repetia que, dentro de alguns anos, nenhum dos filhos ia querer mais ir ao casarão. Quando surgissem as primeiras birras da adolescência, quando seria um tortura se afastar das festas, dos amigos e dos primeiros namoros, ninguém ia querer saber mais da casa na árvore, nem do jardim, nem de nada – ele se ressentia por antecipação, como se o sítio fosse uma extensão de si mesmo. Mesmo assim, o lugar ia crescendo e cada metro quadrado foi sendo ocupado com um pouco mais de atenção. Tudo corria bem. Até que chegou o verão.
Então, um grupo estrangeiro propôs a ele comprar o terreno. Proposta que, é claro, foi negada de imediato e aos berros – Imagina! De jeito nenhum! Essa gente é louca??? – de forma que o grupo precisou dobrar a oferta e ficou de voltar dias depois para fechar negócio, mesmo ele insistindo em antecipar a resposta – O que essa gente queeer?? Por que essa corja não volta pra terra deles, pá???
Ele estava irredutível. Mesmo sendo a proposta financeira, digamos, irrecusável. Era uma quantia que estava totalmente fora da nossa realidade. Não que estivéssemos passando por alguma dificuldade econômica mais séria, mas era dinheiro demais. O problema é que, neste caso, cogitar a venda do sítio não era uma questão de grana, era um ofensa à dignidade do proprietário. Não havia diálogo. E não se falava mais nisso.
O assunto foi esquecido e se passaram semanas. Um dia, na volta para casa, ele observou que o motor do carro estava dando estalos. No outro, comentou que o apartamento estava ficando pequeno para acomodar todo mundo – as panelas empilhadas na cozinha, as camisas amarrotadas nas gavetas. Numa noite, enquanto esticava a rede na varanda do casarão, meu pai começou a olhar em volta com uma tristeza inconformada, falando dos coqueiros que ele mesmo havia plantado e já estavam crescidos, dos cães que já estavam adestrados. Talvez fosse um mal necessário. Se vendesse o sítio, poderia ter uma vida mais confortável. Quem sabe fosse melhor para todo mundo, concluiu.
Como qualquer decisão sempre pesa menos que a dúvida, na segunda-feira ele parecia mais apaziguado. Conversou com um corretor sobre os imóveis disponíveis no centro da cidade e com o gerente do banco sobre como fazer uma aplicação. A venda do lote seria um processo simples. Com o rendimento mensal, poderia investir em qualquer coisa – abrir um negócio, associar-se a um clube, viajar. Precisaria de roupas mais adequadas, se quisesse fazer isso. Poderia enviar os filhos para estudar fora do estado quando estivessem maiores, se eles desejassem. Depois, poderia visitá-los no Rio de Janeiro. Ou alugar um apartamento no Leblon ou perto da Urca. Talvez no Leblon mesmo, por causa da vista. Ou Copacabana. Sim, Copacabana.
Este processo de desapego durou quase um mês – e imagino que, para quem passou tantos anos projetando o futuro dentro daquele pedaço de chão encantado, a mudança até correu bem. Aos poucos, o oásis de tranquilidade foi sendo substituído por um projeto de vida mais urbano e sofisticado. E a gente sabe quando alguém está se dissociando emocionalmente de algo quando a pessoa deixa de investir energia naquilo. Mesmo indo ao sítio com a mesma frequência, ele já não encontrava tempo para comprar as pedras para a reforma do jardim e considerava o preço das sementes, repentinamente, caro demais. Mesmo problemas antigos tornaram-se mais visíveis – a tubulação desgastada do casarão causando vazamentos, a estrada de barro que danificava o amortecedor do carro, aquela nuvem de mosquitos infernais que atormentavam a noite de quem tentava descansar naquele descampado de mato e lama. Loucura mesmo seria envelhecer ali, ora.
Na data marcada, quando o grupo comprador chegou, pairou no ar um certo constrangimento, claro – já que, na última visita, eles foram escorraçados. Como explicar que, de repente, meu pai havia mudado de ideia? Antes de iniciar uma retratação desajeitada, ele foi interrompido por um dos homens: a empresa queria retirar a proposta. Devido a mudanças de mercado, iriam investir no sul do país. Agradeceram a nossa hospitalidade e foram embora.
Até hoje, eu não sei descrever o silêncio que ficou na sala. Desolador. Depois daquele dia, ninguém nunca mais tocou no assunto. Nenhuma palavra. Só uma vez, anos depois, como quem resmunga sozinho, meu pai deixou escapar – “o problema é que, depois daquele dia, eu venderia o sítio por qualquer maldito centavo”.
E o tempo passou. Anos depois, mesmo sem o dinheiro da venda do terreno, todos aqueles projetos, de alguma forma, se concretizaram – o carro foi trocado, o apartamento foi ampliado. O casarão continuou existindo e, durante a adolescência, a gente detestava perder as festas com os amigos para ir para lá – como já estava previsto. Na faculdade, fomos estudar fora da cidade em apartamentos alugados e tudo parecia seguir um fluxo tão natural que ninguém nunca se perguntou sobre o que teria acontecido se os estrangeiros tivessem comprado o lote. Teria sido melhor? Talvez aquilo não precisasse mesmo acontecer.
E eu nunca mais havia pensado neste episódio, que só me veio à mente hoje, depois de um e-mail banal. Por que eu senti o silêncio daquela sala de volta, como se ele nunca tivesse sido interrompido. Acho que toda vez em que alguém me convencer longamente a abandonar a minha rotina para embarcar num projeto-fantástico-que-vai-mudar-a-minha-vida e, depois, me disser que ele não será mais possível, eu vou me bater contra a porta fechada. Por que eu também não consigo mais voltar para o sítio. Eu não caibo mais ali dentro. Mesmo sendo tudo o que eu tenho na vida, meu Deus, eu venderia ele por qualquer maldito centavo.
O que seria da vida sem essas reviravoltas?
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Amigaaaaaa
Entendo perfeitamente….depois q o sujeito se convence…é ruim fazer o caminho de volta…rs
Não nascemos p frustações impostas assim…sem qlq aviso…rs
Bjsssssssss
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Gosto tanto do jeito que você escreve. Não são só as palavras, formando frases, compondo o texto. É todo o seu jeito de escrever, tanto sobre coisas corriqueiras, como outras impares.
Acho que por viver fazendo milhares de planos mirabolantes a cada semana, entendo [um pouquinho] do que você está sentindo. Esse não caber mais dentro das próprias roupas e sapatos, da própria cama, ou do próprio apartamento, por parecer que agora já se é grande demais pra tudo isso.
Mas, reveja seu projeto. Quem sabe só uma revisão já faça com que você se sinta cabendo.
[olha eu te dando conselhos em seu próprio blog, tsc! desculpa a intromissão, mas eu sou bem dessas que “pega intimidade” com quem leio rs]
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