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Archive for the ‘choro baldes (arte)’ Category

“Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Porque ele, o forte e amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh, Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava ela, uma criança, a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietà, a mãe do homem.”

(Clarice Lispector / A Proteção Pungente)

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(Salvador, 13 de julho de 2007, 29 graus. Passo a passo: cartolina preta + abajur + Pietà em gesso 10cm + máquina fotográfica + madrugada insone e ociosa)

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Eu me lembro do dia em que o Antônio Granado, que era professor de Jornalismo Digital – e nada tinha sobre Literatura em sua grade curricular – resolveu falar sobre romances literários numa das primeiras aulas do mestrado de Jornalismo. Ele disse que, infelizmente, o mundo contemporâneo estava exercendo uma seleção natural sobre a indústria das publicações: ninguém tinha tempo pra ler e, num universo incontável de títulos, as pessoas tendiam a dedicar-se a uma dúzia de livros necessários e insubstituíveis. E renunciar a todo o resto.

E acrescentou que, só depois de ler a primeira página, é que o leitor decide se vai prosseguir pelas próximas 99, 199 ou 599 folhas. Que a primeira página teria que ser, necessariamente, a mais interessante. E que os jornalistas teriam mais vantagens neste particular: estavam acostumados e fazer o lead (resumo da matéria no primeiro parágrafo) e a lidar com a falta de tempo dos leitores.

Bem, Granado, além de professor, já era um dos nomes mais atuantes da maior rede televisiva de Portugal. Um cara que dedicou a carreira a descobrir do que as pessoas gostam – oquê, como, onde, quanto e quando. E ele continuou argumentando, projetando no telão os primeiros parágrafos de vários romances famosos escritos por jornalistas, parágrafos que eram iscas irresistíveis para que, mesmo o leitor mais distraído e desinteressado, fosse seduzindo e levado por telepatia às livrarias do mundo inteiro. Como, em muitos casos, aconteceu.

Na tela, os primeiros parágrafos de Crônica de uma Casa Assassinada, Medo e Delírio em Las Vegas, Cem Anos de Solidão, dentre outros. Fiquei convencida.

Na noite do mesmo dia, eu tinha aula do mestrado de Edição de Texto – na época, eu ainda estava cursando os dois – com o professor Rui Zink, que é crítico de arte da FNAC. E ele afirmava que as pessoas não compram livros pelo enredo ou pela primeira página, mas pelo nome do autor. Assim como as pessoas não foram ao cinema assistir Volver ou Abrazos Rotos, foram assistir Almodóvar. Ou Hitchcock ou Woody Allen. Tanto faz se compram A Metamorfose ou O Processo, portanto que seja Kafka. Ou seja, o nome do escritor era uma espécie de grife literária e a editora que quisesse vender best sellers deveria gastar mais tempo criando mitos sobre o autor do que corrigindo e reelaborando seus textos. Afinal, todo mundo sabe Paulo Coelho é um bruxo, Oscar Wilde era um dândi e que Camões era caolho. Mesmo quem numa folheou um livro deles.

Depois, professor Rui acrescentou que a segunda coisa mais importante num livro era o título. E que, não por acaso, eram esses dois elementos que constavam na capa: o nome do autor e o título. Que um título instigante era um elemento tão decisivo no ato da compra que não deveria ser escolhido pelo próprio escritor, mas por um publicitário – afirmação que, é claro, escandalizou os meus coleguinhas e causou discórdia entre os alunos, redefinindo um novo conceito de fim do mundo – assim como seria responsabilidade do publicitário a diagramação da capa, a editoração do conteúdo e tudo mais.

Enfim*.

O fato é que eu voltei pra casa pensando nos dois argumentos. E, mesmo eles sendo tão diametralmente opostos, eu achei que, de alguma forma, os dois estavam corretos.

Desde então, passei a guardar o texto de primeira página dos romances que andei lendo, como quem tenta refazer o caminho do anzol até a isca – deu trabalho, sou presa fácil, leio coisas aleatórias – e continuo não fazendo ideia de que critério utilizei para decidir por cada um deles. Uma pena. Às vezes, acho que passar a vida crendo em conceitos como coincidência, sorte e destino pode ser, de alguma forma, como acreditar que os livros saíram das livrarias e foram flutuando sozinhos até a nossa estante. Um dia, a gente acorda, olha para a própria biblioteca e tenta reconhecer os títulos – e acha os autores tão distantes, os enredos tão complexos. A gente sabe que escolheu cada um deles. E não sabe dizer por quê.

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*Enfim, enfim. Acho que eu sempre utilizo a palavra “enfim” quando eu sei que poderia passar algumas horas discorrendo empolgadamente sobre determinado assunto, mas mataria as pessoas de sono. Como diria professor Granado, existem assuntos interessantíssimos que, infelizmente, só interessam a nós mesmos. Se você encontrou um “enfim” neste post, sorte sua! Você foi poupado, caro leitor.

** Sou capaz de publicar aqui estas “primeiras páginas” só para dar uma função prática a esta coleção inútil e diletante. Se alguém tiver algo semelhante, envia por e-mail, posto em anonimato. Juro.

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(Palácio Rio Branco, Salvador, 19/06/2011, 30 graus)

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Esse é um anúncio da Vivo feito pela agência África, do Nizan Guanaes.

Sabe, eu fico confusa e me pego meditando sobre a teoria do caos quando percebo que este clip foi feito pelo mesmo cara que fez aquele vídeo medonho da campanha política do José Serra, com Regina Duarte, em 2005. Entre outras esquisitices. E penso sobre as contradições do lamaçal verde-musgo da alma humana, sobre a esquizofrenia que aflige um cérebro capaz de uma criação tão estúpida e de outra tão bacana. Meu Deus, quanto tempo perdido! Se o cara sabe fazer algo bom, por que manchar a própria reputação com essas maluquices, por que o cidadão insiste em gastar metade da existência dele empenhado em idéias absolutamente idiotas?

Aí, meio por acaso, alguém me informa que Nizan Guanaes é geminiano.

E eu esboço um “Ahhhhhh”.

Né? Claro que é. E o mundo volta a fazer sentido.

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Beijo pra todo mundo que perde tempo me falando de problemas que eu não posso resolver. Para o povo que escreve e-mails, cartas, que bate na porta do Borba Gato ou faz DDI no meio da madrugada chorando litros por dores que eu não posso sanar, né, por que eu nunca tenho solução para nada. Mas hoje eu quero mesmo mandar um beijo para quem, por qualquer motivo, não seguiu fluxo natural das coisas – esse fluxo inevitável que leva a gente a se encontrar e se dispersar como bolinhas de gude pelas valetas do mundo – e sempre tem algum motivo urgente para ligar, chegar e já vir abrindo a geladeira e o coração como se estivesse em casa.

E estão.

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É isso. Ainda tem colo, ombro e crepe no fogão. Beijo pra vocês.

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“O lar de uma pessoa é como um delicioso pedaço de torta que você pede no restaurante de uma estradinha campestre em uma noite agradável — o melhor pedaço de torta que você já comeu na sua vida — e que nunca mais encontra de novo. Depois que você sai de casa, pode sentir saudades do lar, mesmo se estiver numa casa nova que tem um belo papel de parede e uma lava‑louças mais eficiente que a da casa em que você cresceu, e não importa quantas vezes a visite poderá nunca realmente se curar da sensação palpitante de saudades no seu peito. A saudade do lar pode atacar até quando você ainda está vivendo no seu lar, porém é um lar que mudou com o passar dos anos, e você sente falta do tempo — mesmo se esse tempo só existiu na sua imaginação — em que o seu lar era tão delicioso quanto na sua lembrança. Você pode procurar na sua família e na sua mente — assim como pode procurar em estradinhas campestres escuras e sinuosas — tentando recapturar a melhor época da sua vida, para poder curar a sua saudade do lar com um segundo pedaço daquela torta de um sonho distante, mas a sua busca terminará em vão, pois você perdeu o mapa que lhe dizia onde virar, e o restaurante pegou fogo há muito tempo, e a cozinheira que fez a torta se cansou de esperar por você e em vez disso dedicou a vida a fazer massa de tomate, mas ela não é muito boa nisso, e agora você está perdido na vida, as trevas se fecham sobre você, sem nada a não ser uma palpitação triste no peito e um gosto amargo na boca.”

(Lemony Snicket / Raiz-Forte)

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Hoje, em mais uma edição da nossa série Meu alter ego tem 12 anos de idade, a gente vai apresentar esse vídeo aqui:

Pois é, me convenci de que vocês também curtem Paramore e resolvi postar isso sem culpa cristã – e se a coisa continuar nesse ritmo, amanhã eu vou estar publicando a música dos dedinhos da Eliana.

É que eu pensei: poxa, já que são mais de três anos de blog, a gente está tão próximo mesmo, tão íntimo, talvez você, leitor, também queira mandar seus últimos constrangimentos musicais para a gente publicar aqui.

Passe vergonha comigo enviando seu arquivo pelo e-mail:

sofropraporracomessamusicabizarra@gmail.com

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Mentira. Esse e-mail não existe.

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Melhor da semana

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“Outro dia, numa entrevista, perguntaram-me o que eu penso a respeito do amor homossexual. A vida é tão breve, a felicidade tão rara, meu Deus, deixem as pessoas fazer o que quiserem com seus corpos! Só não gosto e não aceito vulgarização. O sexo é grave, nobre, belo, então a vulgarização me dói. Mas, afora o vulgar, a liberdade no amor deve ser absoluta. Com tanta violência, por que vamos perseguir justamente o amor? Já basta a miséria que nos tira quase tudo.”

Lygia Fagundes Telles, numa entrevista sobre a aprovação do casamento gay no Brasil, que aconteceu na semana passada.

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Passaram a vida inteira te dizendo que Paris era um lugar romântico, né? Segredo: é mentira.

Vamos supor que cada cidade possua uma personalidade definida: nesse caso particular, não espere por sutilezas. Paris é uma dessas belezas cruéis que passam por você chicoteando as luvas de seda na sua cara:

– sou linda, supere isso.

O fato é que esse livro do Ernest Hemingway me fez pensar em por quê tanta gente não consegue esquecer a Salomé do continente europeu:
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“Quando duas pessoas se amam, são felizes e alegres, e estão empenhadas, juntas ou individualmente, numa tarefa construtiva, os outros se sentem tão atraídos por elas como as aves migradoras são atraídas à noite pela faixa de luz de um farol poderoso. Se as duas pessoas que se amam fossem tão sólidas como um farol, nada sofreriam, pois a perda seria das aves. Mas o fato é que aqueles que atraem os outros com sua felicidade são geralmente pessoas despreparadas. Não sabem como evitar que as arruínem, nem como se livrarem a tempo do perigo.”

“Se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo por toda a vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel.”

“Foi uma refeição maravilhosa a que fizemos no Michaud, quando conseguimos entrar. Mas, quando terminamos, e não sentíamos mais fome, a sensação que nos parecera fome ainda continuava dentro de nós. Continuava quando chegamos ao quarto e, depois de termos ido para a cama e feito amor, ainda estava lá. Quando acordei, com as janelas abertas e o luar nos telhados das casas altas, ainda estava lá. Tinha de me esforçar para compreender o que se passava conosco, mas sentia-me demasiadamente estúpido. Paris era uma cidade muito antiga, nós éramos jovens e nada ali era simples, nem mesmo a pobreza, nem o dinheiro súbito, nem o luar, nem o bem e o mal, nem a respiração de alguém que, deitada ao nosso lado, dormisse ao luar.”
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(Ernest Hemingway / Paris é uma Festa)

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Livrinho para começar a ler em casa e terminar de ler na sala de espera do aeroporto. Para saber mais sobre a cidade, consulte a especialista, aqui.

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(Paris, 11/06/2010, 12 graus)

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(Mata de São João, 17 de abril de 2011, 30 graus)

Fotinhas do ensaio deste domingo.

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Uprising

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Protesto político + MTV + drogas pesadas = ursinhos de pelúcia do mau.

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