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Archive for the ‘havaiana de pau (day life)’ Category

O médico leu os exames, balançou a cabeça e falou sobre paz. Disse que eu precisava desacelerar, que era necessário para minha saúde e, dessa vez, proibiu de dirigir, de trabalhar, de andar sozinha na rua e de arranjar problemas – deve estar descrita na minha testa a minha capacidade de arranjar problemas. Prescreveu um mês de vida monástica, restringindo o computador e as festas. Falou sobre descanso. Faltou encomendar o epitáfio.

Desde então, passo o dia olhando para o teto e planejando megalomanias.

A única vez em que vivi algo parecido foi depois de um acidente de trabalho – os meses na cadeira de rodas me deram material para projetos desbaratados, que incluíam ir embora sozinha, morar em casebres, escalar vulcões e comer gafanhotos assados no deserto. No dia em que recebi alta, fui placidamente trabalhar sem nem lembrar do assunto. Um tempo depois, por motivos que me pareciam externos e desconectados, tudo aquilo se concretizou. Até a parte do casebre. E do vulcão. E do gafanhoto assado.

Aqui, eu passo o dia inteiro olhando para o teto, completamente sozinha. Planejo todos os problemas em que vou me envolver este ano. Tem algo dentro da gente que não esquece, que guarda qualquer disparate. Eu observo a tudo bem quieta. Meu médico não sabe o que está criando.

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A gente perde muita coisa nesta vida, mas têm outras que sobrevivem a catástrofes. Eu reencontrei este arquivo de fotografias, tudo separado por data e tema. Fotos mal tiradas, feitas só para registrar o que estava acontecendo, excessivamente espontâneas, uma inconveniência. No fundo, acho que sempre temi que as histórias se dissolvessem entre meus dedos feito areia e, um dia, parecesse que a coisa toda fui eu que inventei. Que nada existiu.
Está na ala dos estremecimentos internos: não saber se foi verdade.

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O primeiro taxista queria conversar. Já saiu do aeroporto descrevendo os bairros da cidade, os pontos turísticos e o melhor hotdog da Avenida Paulista. Falou também sobre os perigos da Zona Oeste e, na passagem, apontou o Centro de Acolhimento dos Haitianos: “é sempre assim, vive cheio de pretos”.

O segundo taxista falou mal do Uber e da falta de água. Eu balançava a cabeça enquanto ele reclamava da Parada Gay, disse que a cidade virava um bordel de viado e ladrão, reclamou da ciclovia e me mostrou a casa da Elke Maravilha, que ainda morava no Centro e ficou velha sem casar: “acho que toda mulher tinha que ter filho, pra cuidar delas na velhice”.

O terceiro taxista fazia parte do movimento religioso Tradição, Família e Propriedade. Ele estava insatisfeito com a política. Discorreu contra nordestinos, judeus e árabes, disse que a culpa de tudo era da Dilma que estava contaminando o país com africano, boliviano, inflação e AIDS.

O quarto taxista pouco falou. Invadiu dois semáforos e avançou sobre a faixa de ciclistas: SEUS FILHOS DA PUTA, QUE VÃO PEDALAR EM CUBA!

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taxi hitler

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Naquela tarde, eu decidi que iria voltar de metrô.

Mas a estação subterrânea estava parada por causa de uma manifestação contra os episódios de abusos sexuais DENTRO DOS VAGÕES DO METRÔ. Na superfície, havia uma blitz detendo veículos que desobedeceram o RODÍZIO DE PLACAS, os motoboys gritavam “a gente precisa trabalhar!” e alguém começou uma briga. Decidi acenar para o quinto taxista:

– Para a Paulista, senhora?
– Sim.
– Está tudo engarrafado, senhora, um absurdo. Só tem vagabundo, sabe o que eu acho?…

E é isso. Ando ponderando muito sobre as previsões apocalípticas feitas em Calamidade Pública. Penso em Blade Runner, em Ensaio sobre a Cegueira. Não está sendo fácil, São Paulo.

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Tenho vontade de explicar que sou filha de pais divorciados. Durante a vida inteira, passei metade da noite de Natal numa casa e, a outra metade da noite, em outra. Todos os meus recessos de férias foram divididos palmo a palmo entre as duas famílias. Os aniversários e feriados também. Me formei em duas profissões. Cursei dois mestrados. Tenho dois empregos. Morei em dois países. Sou do signo de Gêmeos. Não me lembro de estar diante de nenhuma decisão que não incluísse opções igualmente atrativas e, hoje, tenho serena convicção dos meus direitos inatos, acho que reivindicar o melhor dos dois mundos é plenamente justificável. Eu não poderia ser diferente. Entre o bolo e o sorvete, eu quero ambos, eu pago o dobro, eu exijo os dois.

É isso que eu tenho vontade de explicar, às vezes. Cada vez que alguém me olha assim, exausto, paciente, esperando por uma decisão objetiva. Esperando por uma escolha. Como se isso fosse possível.

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Comecei tentando abrir a porta de casa com as chaves do escritório e tentando abrir a porta do escritório com o controle remoto do carro. Depois, tentando acessar a caixa do Gmail com a senha do Bol (do Bol, cara, do Bol. Achei que manter um blog na internet seria a coisa mais 1990 que eu poderia fazer na vida, mas eu sempre me supero) e o fundo do poço foi começar a confundir os frascos e passar a me perfumar com repelente (Freud, me abraça).

Às vezes, eu fico olhando a minha volta, acho todo mundo tão inteligente e produtivo e fico pensando se não acontece com eles, no meio do expediente, tipo tocar uma música e eles se dispersarem, olhando para a janela fechada, se não acontece de estarem resolvendo algo realmente importante, mas gérbera é uma planta tão bonita, nossa, que bom que Deus inventou as gérberas.

Ser doido dá tanto trabalho.

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Continuando.

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– Olha, a moça dos móveis ligou perguntando o que a senhora vai fazer em relação ao aluguel dos castiçais do evento.
– Os castiçais estão pagos.
– É. Mas estão sem velas.
– Não vem junto?
– E não são velas de mercado, tem que encomendar na fábrica e ir buscar lá, daquelas que duram 8h acesas. São dez por candelabro.
– Não dá para desistir dos candelabros?
– E é bom comprar um gel contra queimaduras. Algum convidado curioso pode mexer e causar um acidente.

Fiz a encomenda das velas e mandei o motoboy ir buscar. A dona da fábrica não fez a entrega e expulsou o boy a vassouradas por que ele usava um colar de Candomblé. Fui na fábrica carregar pessoalmente as caixas da linha de produção até o carro e decidi não comprar o gel contra queimaduras, afinal não sou mãe de ninguém e cada um que administre a sua curiosidade. Passei a noite encaixotando as velas em volumes com etiquetas, de acordo com cor e tamanho, para cada mesa e tipo de candelabro, e concluí que, com o dinheiro que eu havia gasto naquela idiotice, dava para ter comprado uma lente 50mm da Canon ou um fim de semana na praia. Encaminhei as caixas com antecedência para o salão junto com um checklist e os contatos da fábrica e até coloquei uns telefones de emergência médica para o caso de algum aloprado resolver mesmo incendiar-se e tornar a festa mais animada. O motoboy ligou aos gritos dizendo que ia processar a dona da fábrica. A dona da fábrica ligou aos gritos dizendo que o boy ameaçou processá-la. A mulher dos móveis ligou e eu fiquei aflita olhando para o celular esperando a hora da morte, mas ela somente queria avisar que havia recebido as caixas e que estava tudo bem. Segui para o escritório com o objetivo de recobrar a dignidade. Me dei ao luxo de trabalhar um pouco. O dia acabou. Voltamos todos vivos para casa.

Hoje, olhando as fotos do evento, observo que nenhuma foi acesa. O cerimonial esqueceu as velas apagadas.

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– Então?
– Pronto, esse é o orçamento final do aluguel dos móveis do evento. Por enquanto. Mas acho que a senhora também vai precisar de um lustre para decorar.
– Mesmo? Então inclui o aluguel do lustre.
– Nossa empresa só aluga móveis, mas pode ver com aquele senhor ali, ele aluga lustre.
– Ok. Bom dia, senhor, prazer. Gostaria de alugar um lustre.
– A senhora vai buscar? Por que aqui o frete é outro, a gente fica na Engomadeira.
– Certo, inclui o frete do lustre.
– Ida e volta? E não pode esquecer das lâmpadas. Não é essa de mercado, só vende no centro da cidade, são 10 lâmpadas, a senhora tem que trazer. É a lâmpada Led Vela 4w Bivolt Cristal E14 Branco Frio 6000k, não custa mais que 13 reais cada uma na Barroquinha.
– Ok, 10 lâmpadas.
– E vai precisar contratar um eletricista para instalar e desinstalar lá no local. Motorista não instala, é bom chamar alguém da sua confiança. E não pode esquecer de comprar um adaptador, o equipamento é 220v, tem que converter para 110v.
– Certo.
– A senhora vai fazer seguro para o lustre? Procure alguma seguradora na internet, iluminação é frágil e puxa muita energia. O salão tem gerador, né?
– …

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Troco Iphone 6 por cartela de Rivotril. Tratar aqui mesmo.

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Então, a solução foi alugar um apartamento em Paris. O roteiro da viagem de estudo para Gaza tinha sido cancelado por causa da guerra, a gente já estava na França e precisava esperar até o dia de voltar para o Brasil. Nos classificados, havia um imóvel por um preço razoável na Champs-Élysées, alto, com vista para a Torre Eifel – ao menos, era assim no anúncio – mas tratava-se da casa de máquinas do elevador de um prédio caindo aos pedaços, de onde dava pra ver a Torre pelo basculante do banheiro. Cinco metros quadrados, sem aquecedor, sem janela, no sétimo andar de escada, dessas escadas de incêndio externas, de madeira, faltando degraus.

Enfim.

No térreo do prédio, tinha o bar do Antony, um cara que veio de Madagascar. O cardápio incluía um único sabor de pizza e dois tipos de bebidas, sendo uma delas água mineral. Vivia lotado. Era apertado o suficiente para que ouvíssemos as conversas de todas as mesas, a ponto de parecer que todos falavam sobre o mesmo assunto – e, de certa forma, falavam mesmo – era um bar de imigrantes que contavam sobre seus países. Refeição econômica, aquecedor, ficamos por lá.

De madrugada, voltávamos para o apartamento, subindo as escadas na chuva, vendo lá de cima uma Paris nublada – a gente foi parar lá para desviar de uma guerra e acabou conhecendo tanta gente que também estava lá, fugindo de outras guerras – e ficávamos conversando no quarto minúsculo, com uma lanterna acesa, lendo duas ou três páginas do Cortázar. No texto, ele dizia que havia um único ente de convergência internacional, mais do que a ONU ou a Cruz Vermelha, como “uma nuvem sem fronteiras que reconcilia mexicanos e noruegueses e russos e espanhóis”. O livro amanhecia aberto numa página qualquer e era necessário retomar a leitura voltando ao capítulo anterior, de forma que tudo era lido de novo e de novo como se o romance se esquivasse de chegar ao final.

Todo dia, voltávamos ao bar do Antony para ouvir outras histórias sobre um lugar, um povo, um mundo que alguém deixou para trás – e, apesar de não se falar nisso de forma clara, era como se Paris fosse uma sina irremediável, uma cilada de mosquitos à volta de uma lâmpada poderosa, a Cidade da Luz. Ninguém se encaixava perfeitamente ali, mas ninguém caberia mais dentro da sua cidade natal, então viviam nesta área cinzenta, os bairros étnicos. Ainda que houvesse o desfile de burcas, togas, turbantes e batinas diante das mesmas vitrines, seria ingênuo falar em integração, era uma tolerância higiênica. No fim do dia, todos voltavam para seus bairros devidamente segregados.

Ninguém naquela bodega tinha nada em comum – nem religião, nem time, nem partido – e, na falta de afinidades supérfluas, falavam sobre temas mais humanos. Antony servia outra rodada explicando que só um compatriota poderia compreender outro por que cada pessoa era a soma das ruas por onde andou, das esquisitices da cultura onde cresceu e que nenhum ideal ecumênico ou afinidade política aproximaria mais duas pessoas do que terem sido embaladas pela mesma canção infantil. Eu contei sobre a observação de uma amiga, em que a palavra para designar morada em português, em espanhol, em italiano e em romeno era sempre a mesma – casa! – mas, em francês, o código era outro – maison – e concluímos que os imigrantes de Paris dividiam a mesma maison, nunca a mesma casa. Alguém citou Babel, do Guillermo Arriaga. E brindamos à solidão de estarmos longe de casa.

É curioso pensar que, dias depois, perto dali, 12 pessoas morreriam no episódio que ficou conhecido como O Massacre de Charlie Hebdo. O crime de motivação político-religiosa foi o ato terrorista mais noticiado do ano. A verdade é que não adiantava ter mudado o roteiro, ter tentado desviar da guerra, os atalhos sempre fazem a volta, as coisas que a gente procura também estão procurando por nós. Mesmo que, no bar do Antony, parecesse haver uma ilha de integração possível. As noites eram alegres. Gaza parecia distante.

Nas leituras noturnas, Cortázar dizia que laços interculturais “eram contatos de galhos e folhas que se entrecruzam e se acariciam de árvore para árvore, enquanto os troncos erguem, desdenhosos, as suas paralelas inconciliáveis”. No quartinho, às vezes, chovia lá fora como se o mundo fosse se acabar novamente em água. Sentávamos na cama, lanterna acesa. Imagina que é o dilúvio. Imagina que é uma arca. Se o mundo começasse de novo, quem você levaria aqui dentro? Dois de cada etnia e duas pombinhas brancas. Se o mundo começar de novo, a gente faz um país: um único sabor de pizza, uma única canção infantil. E tudo seria diferente se o mundo começasse de novo? Ele já começou tantas vezes, melhor a gente ir dormir. Amanhã a gente decide sobre o futuro da humanidade. Ou a gente começa a remar. Ou a gente amanhece em Paris.

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Saúde. Segurança. Fartura. Na sacristia, cada fiel costuma depositar um pedido ao pé da imagem. É a figura de um Cristo crucificado, numa expressão magra e imóvel que não parece inspirar ares de muita saúde. Ou segurança. Ou vida farta.

Ao lado, uma pintura da Santa Ceia. O cenário aonde os doze se reuniram antes de cada um tomar um rumo. Judas se matou logo depois. Os outros saíram levando aquela ideologia pelo mundo.

Eu soube que Mateus não quis negar a própria fé e morreu decapitado na Etiópia. Tomé foi esfaqueado pela mesma razão. João foi cozido em óleo. André morreu numa cruz. Paulo foi apedrejado. Jogaram Tiago do penhasco e, como ele sobreviveu, tiveram que espancar até a morte. Mas ninguém negou a fé. Todos foram até o fim.

Às vezes, me parece uma incoerência pedir proteção, saúde ou prosperidade aos pés da imagem de um homem crucificado. Por que, se a gente pensar bem, talvez essa nunca tenha sido a proposta.

Acho que, em oração, a gente devia pedir só coragem.

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